Radis Comunicação e Saúde

Equipe de enfermaria da Santa Casa

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Médico infectologista da Santa Casa de São Paulo, Pedro Campana conta como é o dia a dia de uma enfermaria do novo coronavírus

São 16h de um feriado de 1º de maio, dia do trabalhador. O médico infectologista da Santa Casa de São Paulo, Pedro Campana, repete o ritual diário de desparamentação dos equipamentos de proteção individual (EPI) — máscara cirúrgica, capote, luvas e óculos. Paramentar-se é verbo conjugado diariamente por quem está na linha de frente do enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. O rito meticuloso é essencial para evitar contaminações e Pedro o refaz com os residentes e demais membros da equipe todos os dias, desde que passou a chefiar uma enfermaria de covid-19. “A gente não pode prestar assistência enquanto não estiver 100% protegido”, ressalta.

Acostumado a atender pacientes com HIV e hepatites virais, o infectologista formado pelo Instituto Emílio Ribas teve a rotina revirada pela chegada do novo coronavírus. O telefone não para de tocar. Ao longo daquele dia, ele orientou residentes, avaliou 27 pacientes com suspeita ou confirmados com covid-19 e pediu vaga na UTI para um deles que “evoluiu com bastante gravidade”. “É basicamente um plantão 24 horas por dia. Há um mês e meio”, conta. Nossa entrevista estava agendada para as 16h; pelo celular, ele me envia uma mensagem. “Podemos falar às 17h? Estou saindo do hospital agora. Preciso comer algo”, escreve.

Mesmo quando chega em casa, Pedro não consegue se desligar da realidade que emergiu com a pandemia. A primeira coisa que faz ao entrar em seu apartamento é ir direto para o chuveiro. Depois brinca com os dois cachorros, cozinha e estuda por cerca de duas horas sobre o que foi publicado de novidade sobre a doença. “Estou lidando com uma doença que não conheço, e que ninguém conhece. Ao mesmo tempo que atendemos, precisamos compreender cientificamente o que está ocorrendo com esses doentes”, aponta. Trabalhar com a covid-19 é por vezes aprender a lidar com as incertezas. Pedro evita pensar no futuro, para não gerar ansiedade — que, segundo ele, é paralisante. Seu foco é o dia de hoje. Dia após dia. “A grande angústia é a gente não saber quando isso vai diminuir ou quando vai acabar”, reflete.

Em depoimento que ele escreveu no início de abril nas redes sociais, o médico afirma que “o duro dessa pandemia é ver pessoas perdendo mais de um familiar ao mesmo tempo”. “Tenho chorado quase todos os dias”, conta à Radis. No hospital, ele exerce o papel de médico — “segura a onda”, explica com calma para os doentes e os familiares, acolhe, orienta. Todos os dias, depois de intubar pacientes — alguns mais jovens que ele —, pedir vaga na UTI, conversar com familiares, é preciso respirar fundo e seguir adiante. Uma das dificuldades é lidar com o que ele tem chamado de “abortamento do luto”, porque as pessoas não podem velar seus mortos. “Por enquanto estamos jogando água e sabão nesses machucados psíquicos, mas não estão fechando de fato, porque não dá tempo”, pontua. Em meia hora de nossa conversa, por telefone, no feriado do dia do trabalhador, ele afirmou que a entrevista estava sendo para ele como conversar com um amigo. “Eu acho que é tanta vontade de ter uma conversa de boteco. Nesse momento a gente não pode conversar. É muita solidão”, descreve.

 Como sua rotina foi impactada pela chegada do novo coronavírus?

Desde que estou na Santa Casa, a gente tem uma rotina de atendimento de pacientes com doenças infecciosas que é chamada de interconsulta, ou seja, eu não tenho nenhuma enfermaria sob minha responsabilidade, mas presto consultoria para pacientes que estão internados. Desde o início da pandemia, a gente parou de fazer essa função de interconsultor, nós viramos chefes de uma ala só de covid. Isso é uma mudança muito grande no dia a dia do nosso trabalho. Chefiar uma enfermaria, organizar os leitos, trabalhar com as limitações do SUS, sendo médico responsável integralmente pelo doente foi a grande mudança no meu trabalho. Agora eu entro na Santa Casa às 8h e não tenho hora para sair. Só saio quando todas as pendências estão resolvidas, todos os pacientes com as consultas encaminhadas, todas as questões sociais resolvidas. A grande maioria das vezes eu tenho saído às 7 ou 8h da noite. O telefone não para. A gente recebe ligação desde o diretor do hospital até o seu amigo de infância, que não fala com você há vinte anos e que acha que pode estar com covid. É basicamente um plantão 24 horas por dia. Há um mês e meio. Por isso que eu falei que não seria essa entrevista que ia me sobrecarregar (risos).

O que passa pela sua cabeça em relação a angústias, estresse e dificuldades?

A grande angústia é a gente não saber quando isso vai diminuir ou quando vai acabar. Como infectologista, sou bem cético. Acredito que isso só se resolverá quando a gente tiver uma vacina eficaz. Até lá, tudo é incerteza; e lidar com essas incertezas do tempo gera angústias, porque a gente está submetido a um trabalho muito cansativo diariamente e a gente só aguenta até um certo tempo, né? O meu mote tem sido não pensar como é que vai ser daqui a três semanas. A gente tem que pensar que hoje chegamos no hospital, tinham tantas pessoas internadas, resolvemos os problemas desses doentes, demos tais altas, recebemos tais pacientes novos e o dia acabou, eu cheguei em casa, vou poder ficar tranquilo, vou poder estudar e dormir. Aí no outro dia eu acordo... penso no dia seguinte. Quando eu começo a projetar o cenário daqui a algum tempo, dá muita angústia e ela pode gerar paralização. Nós que estamos na ponta da assistência, a gente tem focado no dia de hoje.


Fotografia: Acervo Pessoal


E como é o dia a dia em uma enfermaria de covid-19?

Essa questão de ficar no dia a dia é muito exaustiva, porque a gente trabalha em um contexto do SUS que já está sobrecarregado. O paciente chega no pronto-socorro e, se tiver critério de internação, nós o recebemos em nossa enfermaria. Depois que passou o período de mais gravidade, que é do sétimo ao décimo dia, se ele evoluiu bem e não precisou ir para a UTI, mas ainda não consegue tirar o oxigênio, a gente manda para a tenda para ele acabar a recuperação lá. Eu não consigo dar alta para os meus pacientes para casa. Esses pacientes que estão em curva de melhora, que já saíram do período crítico de gravidade, nós o mandamos para os hospitais de campanha: “Olha, seu João, você vai acabar a sua recuperação no hospital de campanha do Anhembi ou do Pacaembu”. O ideal seria mandar esses pacientes para casa recuperados, mas como a Santa Casa é um hospital de porta aberta, estamos recebendo muita gente. O pronto-socorro está superlotado. Temos que dar vazão para poder atender os pacientes que estão na porta. A gente não fica sem estar com a lotação máxima da enfermaria nem três horas.

Uma das angústias em relação ao paciente é o isolamento: não poder receber visitas, e no caso de morte, não existir a possibilidade de se despedir de um ente querido. Como você vê isso acontecer?

É o que eu tenho chamado de abortamento do luto. Isso tem sido muito doloroso. Eu acho que essa é a palavra certa. Eu me coloco sempre na posição dos familiares ou do paciente. Eu, enquanto pessoa, não médico, que já fiquei doente e precisei de internação, sei como é importante a visita dos seus entes queridos e dos seus amigos para dar uma força. Todos nós já tivemos um avô internado, um pai, e sabemos como acalma ver como está a pessoa que você gosta, se ela está bem; e mesmo que não esteja, entender a real dimensão da coisa, para poder elaborar do ponto de vista psíquico. As pessoas não estão tendo chance de elaborar os processos de morte. Eles não veem o paciente piorar durante a internação, o paciente evolui a óbito e não pode velar o corpo. Isso vai trazer, a longo e médio prazo, danos psíquicos muito importantes para essas pessoas, elas não estão elaborando a primeira fase do luto que é a negação. Você não vê o corpo ali para a sua ficha cair. Na Santa Casa, temos um telefone móvel na enfermaria que a gente empresta para os pacientes que têm condições de falar para eles ligarem e conversarem com os familiares. Os que têm celular — porque a gente atende uma população extremamente carente, é importante dizer —, a gente deixa ficar com o celular para conversar, para falar [com os familiares], porque isso é primordial.

Em depoimento que você escreveu no início de abril, você conta que o duro dessa pandemia é ver pessoas perdendo mais de um familiar ao mesmo tempo. Como os profissionais de saúde lidam com esse luto?

É muito angustiante. Tenho chorado quase todos os dias. A gente segura a onda, conta para a dona Maria que o marido dela faleceu e a dona Maria fala que a irmã dela está internada na UTI em estado grave. Na hora a gente acolhe, acalma, faz o que precisa ser feito, no sentido de dar um suporte, faz o papel de médico. Mas eu já tive vontade de chorar inclusive durante conversas com pacientes e com acompanhantes. Nós temos um texto técnico, a gente passa o acolhimento de uma maneira consciente, mas é claro que a gente se abala. Então você segura o choro, respira fundo e depois extravasa. Eu e grandes amigos infectologistas temos extravasado dessa forma. Chego em casa, choro pra caramba, fica muito pensativo, aumentei as minhas sessões de terapia online com a minha terapeuta, porque é muito difícil. Acho que a gente só vai entender a dimensão disso quando tudo diminuir. Por enquanto estamos jogando água e sabão nesses machucados psíquicos, mas não estão fechando de fato, porque não dá tempo. Vai sobrar muito trabalho para os psicólogos quando acabar essa pandemia. Vai ter muita gente com neurose, médicos com transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, aumento da taxa de suicídio. São transtornos que vão vir depois. O dia a dia é muito duro e ninguém nunca teve aula de como lidar com uma pandemia.

Nossas gerações nunca viveram algo semelhante...

Não nessas proporções. Tivemos a pandemia de H1N1, que não foi nada perto dessa, em 2008, e a gente tem uma pandemia sustentada no mundo — é importante que se diga —, que é a epidemia de HIV/aids: já estamos indo para 40 anos e as pessoas normalizaram isso. É uma pandemia sustentada com a qual a gente lida, mas o impacto atualmente é menor, porque a gente tem alguma coisa para fazer pelas pessoas que vivem com HIV. No caso da covid, a gente tem pouquíssima evidência científica ainda, tudo está no campo da incerteza. A gente está no tiro no escuro. 

O Brasil vive um cenário de subnotificação, ao mesmo tempo em que crescem os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Como os serviços de saúde têm lidado com esse gargalo da falta de testes, insumos, leitos, EPIs e respiradores?

No hospital onde eu estou, a Santa Casa, a gente não tem falta de testes e de material para intubação. Não tivemos que escolher quem vai ser intubado ou não. O que a gente não tem é leitos para suprir toda a demanda. Quando entra na Santa Casa, a assistência é toda garantida. Os exames têm sido coletados, os resultados têm saído rápido. Isso é importante que se diga: o cenário dos grandes hospitais públicos de São Paulo vinculados a escolas, como Santa Casa, Emílio Ribas, Escola Paulista de Medicina, Unifesp, eles são lugares privilegiados, pois a gente consegue parceria e fazer exames rápidos. A minha preocupação é onde eu não estou vendo, que são as grandes periferias: o hospital de M'Boi Mirim, Campo Limpo, Pedreira, Grajaú, São Mateus. Aqui em São Paulo, o conceito de periferia é bem aplicável, a gente não vê a pobreza: no centro, a bolha rica; e na periferia, a miséria. Nesses hospitais, é onde o gargalo está, as pessoas estão morrendo lá. A gente tem em São Paulo um sistema de regulação de vagas estadual. Dentro da Santa Casa e do Emílio Ribas, que são referências para receber esses pacientes da rede, é negado uma média de 80 pedidos por dia por falta de leitos. É muito pedido negado. São pedidos de pessoas que estão morrendo na periferia. E que a gente nem sabe como é que está sendo o atendimento, o diagnóstico, e tudo mais. A minha angústia é essa. Não estou vendo, mas sei que está acontecendo.

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Como você enxerga o discurso negacionista que não reconhece a gravidade da pandemia, ao mesmo tempo em que vê pessoas morrendo na sua frente?

É uma coisa que me causa dor. Depois de 12 horas de trabalho, com a cara marcada de estar com máscara o dia inteiro, você chegar em casa, sentar no sofá, ligar a TV e ver esse tipo de declaração, isso dói. Eu moro sozinho, não posso encontrar ninguém para desabafar. E me causa indignação ver que mesmo assim ainda tem tantas pessoas apoiando [as medidas que contrariam as orientações científicas]. O que me causa ainda mais indignação é a gente ter um Congresso que está assistindo a isso quieto, um Congresso que não teve a coragem de abrir um processo de impeachment contra um Presidente [da República] que está agindo com quebra de decoro e colocando as pessoas em risco. É uma irresponsabilidade absurda. Dá uma impotência você chegar em casa, depois de dar o seu melhor, e não receber o apoio de quem poderia estar fazendo grandes coisas por nós.

 

Existe medo de se contaminar por parte da sua equipe?

Da minha equipe toda, só uma médica teve sintomas e o exame dela veio negativo, mas ela teve sintomas muito característicos. Eu sou muito técnico nessa questão da paramentação e desparamentação. Todo dia de manhã na Santa Casa, eu sento com os meus residentes e alunos, a gente repassa todo o protocolo. Cansa? Cansa. É chato? É chato. Mas eu não quero ninguém doente. Então eu lido dessa forma. A gente não pode prestar assistência enquanto não estiver 100% protegido. Senão, vamos mais atrapalhar do que ajudar. Se a gente respeitar todos os momentos de paramentação adequados, a gente consegue prevenir a infecção. A chave dessa pandemia é a gente ter calma e clareza do que está fazendo. O primeiro princípio da Medicina, segundo Hipócrates, é “não fazer o mal”. E fazer o mal significa entrar desprotegido no quarto ou acreditar em evidências sem embasamento científico. É isso que temos a fazer: não fazer o mal, fazer as coisas com calma e clareza, para diminuir as chances de contaminar e de errar.

Como é seu retorno para casa? Você consegue “se desligar” do trabalho e descansar?

Quando eu chego em casa, eu não desligo. Estou lidando com uma doença que não conheço, e que ninguém conhece. Então eu chego em casa, a primeira coisa que faço é ir direto para o chuveiro. Eu tenho dois cachorros maravilhosos que me ajudam a desestressar, brinco com eles um pouco, cozinho, que é uma coisa que não faço tanto, mas comecei a fazer, pois dá uma desopilada. Assim que eu acabo de fazer tudo isso, eu sento e estudo de uma hora e meia a duas horas sobre o que saiu de novidade no dia. É basicamente isso, estudar. Em um contexto em que a gente está em um hospital-escola, a gente tem que produzir ciência. Ao mesmo tempo em que estamos atendendo, estamos estudando e escrevendo projetos de pesquisa. Precisamos compreender cientificamente o que está ocorrendo com esses doentes. A rotina tem sido essa: acordar cedo, trabalhar muito, chegar em casa e estudar. Estou 24 horas vivendo para isso. Até sonhar, eu sonho.


Relatos da

linha de frente

[depoimentos escritos no Facebook]

04 de abril

"O duro dessa pandemia é ver pessoas perdendo mais de um familiar ao mesmo tempo"

"Hoje dei notícia de falecimento de uma senhora para sua filha. angustiada, a filha disse: meu marido está internado na uti"

"Na semana passada, um idoso internado perdeu sua esposa no mesmo hospital"

"As pessoas mais simples, que vivem aglomeradas em casas de poucos cômodos, sofrem com a infecção de muitos familiares concomitantement"

"A estrutura familiar dessas pessoas será destruída, pessoas vivas ficarão sem amparo afetivo"

"Respirei fundo, não deixei o choro tomar conta de mim"

"Afinal chegou mais um paciente pra intubar"

"Seguimos"

29 de abril, 8h57

"São 8 da manhã, cheguei para ver os pacientes da enfermaria de covid 19."

"O residente olha e me diz: chefe, precisamos entubar 2 pacientes. o pronto socorro está lotado e existe fila de pacientes para subirem para a enfermaria"

"Nem sempre os pacientes sobem estáveis. a uti está praticamente lotada."

"o dia só começou."

"Seguimos"

09 de maio, Dia das mães

"No final de semana do dia das mães chegaremos a 10 mil mortos notificados no país. Muita mãe perdeu filho e muito filho perdeu mãe. tudo doloroso e pesado demais. Merece luto de todos e reconhecimento do tamanho disso tudo."

"Eu queria também dizer que eu admiro, demais, todas as médicas, enfermeiras, auxiliares de enfermagem, nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogas, assistentes sociais, psicólogas hospitalares, funcionárias da limpeza, recepção, administrativo, etc."

"Mulheres que saem de casa todos os dias e entram em contato direto com o vírus. Mulheres que muitas vezes são as chefes das famílias. Mulheres que constantemente sofrem com medo de ser o elo entre o vírus e seus filhos ou maridos. Algumas mulheres que, há 2 meses, se separaram compulsoriamente da família para ajudar os doentes que são muitos. Estão cansadas, revezam-se entre maternidades e hospitais. Cuidam em tempo integral."

"Mulheres, vocês são foda. Ainda bem que o mundo conta com vocês."

"Seguimos"

Fotografia: Acervo Pessoal