Radis Comunicação e Saúde
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No Rio de Janeiro, o temor com o futuro da Atenção Básica não é maior do que com o estado atual dela. Previsão de fechamento de unidades, demissão de agentes comunitários, diminuição de equipes de Saúde Bucal, falta de medicamentos essenciais e atraso no pagamento de salários levaram à criação da campanha “#NenhumServiçodeSaúdeaMenos” (https://www.facebook.com/NenhumServicoMenos), que desde agosto já contou com mais de 200 manifestações pela cidade. Um dos fundadores do grupo que reúne profissionais da Atenção Básica, o médico de Família Carlos Vasconcellos, que atende no Centro de Saúde Samora Machel, no Complexo da Maré, avalia que a saúde no Rio está “em colapso”.

 

Como surgiu a campanha?

Nosso alarme soou quando, em agosto, surgiu a notícia de que a secretaria municipal de Saúde iria fechar 11 Clínicas da Família na região de Jacarepaguá e Barra da Tijuca por questões de orçamento. Profissionais de saúde, começamos a nos comunicar por meio de redes sociais e, no mesmo dia, marcamos uma reunião dos trabalhadores da atenção primária no Instituto Pinel. Apareceram 300 pessoas. Não imaginávamos que ia tanta gente. Decidimos então iniciar esse coletivo para pressionar contra o fechamento das unidades. Conseguimos que o prefeito voltasse atrás. Porém, de lá pra cá, percebemos que o desmonte da saúde no Rio não era localizado naquela região, mas sistêmico. E decidimos levar adiante o lema “Nenhum serviço de saúde a menos”.

Qual é o cenário da Atenção Básica no Rio de Janeiro hoje?

Logo após a notícia do possível fechamento das unidades, soubemos da demissão de 180 trabalhadores da Atenção Básica que tinham contratos via organizações sociais (vínculo a que, aliás, nós nos opomos), em outubro. Eram principalmente agentes comunitários e profissionais de Saúde Bucal. Dos 217 medicamentos que deveriam estar disponíveis, há apenas 33 no estoque central da secretaria. Só há um antibiótico em suspensão e um em comprimido. Não tem dipirona, ibuprofeno, itens básicos. Na Saúde Mental, não há nenhum antidepressivo, nenhum antipsicótico, não tem diazepan, não tem aldol, praticamente nada. O cidadão que necessita de medicamentos de uso contínuo está sem opção. As farmácias populares da rede própria foram fechadas. Os convênios com farmácias privadas só cobrem hipertensão, diabetes e asma e têm previsão de serem reduzidos. Depois de muita pressão, a secretaria anunciou que encaminharia R$ 30 milhões para compra de medicamentos, dos quais R$ 5 milhões para a Atenção Básica, mas é insuficiente — por mês, seriam necessários R$ 8 milhões e já há um déficit de dois meses. Há 5 mil profissionais sem pagamento. Não tem Atenção Básica hoje em funcionamento no Rio de Janeiro. Está tudo em colapso.

Como a nova Pnab impacta esse processo de desmonte?

A aprovação da nova Pnab piora esse processo. O município avisou que vai cumprir as resoluções da nova Pnab, que prevê a redução do número de agentes comunitários e de equipes de Saúde Bucal. Como agora não há mais critérios mínimos para a saúde bucal, a secretaria viu a possibilidade de reduzir serviços sem perder recurso federal. Hoje, já há equipe que atende uma população de 40 mil pessoas.