Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Adriano De Lavor.

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Entrevista com Fernanda Fernandes Fonseca

Uma das novidades a apresentadas durante a 10ª Conferência sobre Ciência do HIV (IAS 2019) foi a atualização na orientação dada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o antirretroviral dolutegravir (DTG), agora recomendado como tratamento de primeira e segunda linha para todas as populações com HIV. Em 2018, resultados iniciais do estudo Tsepamo, apresentados na Conferência Internacional sobre Aids, indicaram que, mesmo sendo um evento raro, havia um risco maior de defeito no tubo neural [estrutura embrionária que dará origem ao cérebro e à medula espinhal] em bebês nascidos de mães que tomavam dolutegravir.

A mudança na recomendação da OMS partiu de pesquisas posteriores realizadas em Botsuana e no Brasil, que não registraram número relevante de casos de defeitos no tubo neural entre bebês gerados por mulheres tratadas com o antirretroviral. Os resultados foram apresentados no IAS por Fernanda Fernandes Fonseca, técnica do Ministério da Saúde, que na coletiva de imprensa reforçou o fato de que o Brasil fornece para mulheres grávidas suplementação de ácido fólico durante o pré-natal e também na farinha, o que torna a ocorrência de defeito do tubo neural mais rara no país. Em conversa com a Radis, durante a conferência, ela destacou ainda a importância da estrutura disponível no SUS e a escuta das mulheres vivendo com HIV para a qualificação do tratamento. “A atualização de nossos protocolos vai reforçar ferramentas para que o profissional de saúde possa colocar na mesa os riscos e a mulher decida”.

Você apresentou um estudo que comprova a segurança do uso do antirretroviral dolutegravir entre mulheres grávidas. Qual a importância da divulgação destes resultados para atenção às mulheres com HIV no Brasil?

Como um dos países com o maior número de pessoas vivendo com HIV em terapia antirretroviral, especificamente em dolutegravir, era muito importante que a gente conseguisse olhar para nossas mulheres e perceber o que aconteceu com aquelas que ficaram grávidas usando este medicamento. Foi muito especial investigar essas mais de 3 mil mulheres e de fato ter a segurança que não aconteceu nenhum defeito de tubo neural entre elas — tanto as que estiveram quanto as que não estiveram expostas ao dolutegravir. A pesquisa investigou mais de 3 mil mulheres. Entre elas, 490 possivelmente expostas ao DTG, das quais 382 foram finalmente identificadas como expostas dentro da janela de tempo que estávamos buscando investigar. O defeito do tubo neural é um evento muito raro no Brasil, menos que 0,06% de todos os nascimentos, já que temos suplementação de ácido fólico na gravidez e também na nossa farinha, o que protege as mulheres em gestação. Mesmo assim, encontramos dois casos de defeitos de tubo neural entre mulheres grávidas que só começaram a terapia antirretroviral mais tardiamente, mas que não estavam relacionados a nenhum dos medicamentos. A descoberta foi importante pois reforça os resultados de nosso estudo, de que o defeito de tubo neural é muito raro com o uso do dolutegravir.

De que modo a oferta do dolutegravir dá mais autonomia às mulheres que estão em tratamento no Brasil?

O que a gente tem conversado muito dentro do governo federal e tentado estender aos prescritores é a importância do cuidado centrado na mulher. Desde o nosso primeiro alerta, em maio de 2018, a gente já alertava para o cuidado em prescrever o dolutegravir para mulheres com potencial de engravidar e não para mulheres em idade reprodutiva. Isso porque a gente entende que a avaliação do potencial de engravidar tem a ver com a história sexual dessa mulher, tem a ver com sua prática sexual e desejo de concepção ou anticoncepção. Desde o começo a gente já entendia que a escolha do antirretroviral deve ser individual, ser tomada pela mulher e pelos profissionais de saúde que cuidam da sua saúde. O que a gente quer com a atualização dos protocolos é que todas as pessoas no início de tratamento tenham acesso ao dolutegravir, exceto as mulheres que estejam em planejamento reprodutivo e queiram engravidar. Essas, pelos nossas guidelines, devem fazer genotipagem pré-tratamento e começar com efavirenz. A atualização de nossos protocolos vai reforçar ferramentas para que o profissional de saúde possa colocar na mesa os riscos e benefícios quanto ao uso do DTG e a decisão quanto ao antirretroviral seja compartilhada entre a mulher e a equipe de saúde. Todos os antirretrovirais apresentam riscos inerentes, o que obriga que essa decisão deve ser informada e baseada no desejo da mulher. O serviço de saúde tem que ser capaz de oferecer as melhores evidências para que ela tome a melhor decisão.

De que modo a existência de um sistema de saúde público universal que conta com um sistema de informação contribui para a qualificação da atenção às pessoas com HIV?

É essencial porque a gente consegue fazer o monitoramento em tempo real da capilaridade das nossas recomendações para os serviços, entrar em contato com serviços que estejam fazendo prescrições fora do protocolo. Então é o exercício não só de fazer atualização, mas de fazer com que essa atualização seja implementada. O fato de toda a prescrição ser informatizado e este sistema ser baseado em regras, faz com que a gente tenha, por exemplo, 97% de adesão à prescrição de antirretroviral para mulheres no Brasil, que é muito importante.

A escuta das mulheres também é importante para o processo de adesão?

Importantíssima. Todos os nossos encontros de atualização dos protocolos clínicosenvolvem obrigatoriamente assento para a sociedade civil e agora, com a conclusão do estudo que apresentamos aqui, vamos fazer uma grande reunião de devolutiva — de como foi a investigação e a atualização de nossos protocolos —, tanto para estados e municípios que estiveram engajados durante as investigações, como para as mulheres vivendo com HIV de forma geral. (A.D.L.)