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Para o enfermeiro Cleilton Paz, que atua em Mossoró (RN), cuidado com trabalhadores da saúde deveria ser prioridade na pandemia

A equipe do Hospital Regional Tarcísio Maia, em Mossoró (RN), viu sua rotina mudar quando a unidade tornou-se referência para casos do novo coronavírus na região.

As marcas no rosto deixadas pela máscara N95 ao final de mais um plantão são apenas algumas das cicatrizes carregadas por quem está na linha de frente do enfrentamento à covid-19. Além dessas, existem outras que permanecem na alma, como conta o enfermeiro Cleilton Paz, que atua no Hospital Regional Tarcísio Maia, em Mossoró, no Rio Grande do Norte. “Tem sido dias complicados por conta desse medo que não é somente por causa da minha saúde, mas da saúde de todos que me circundam”, descreve em conversa com a Radis. Para ele, essa é a angústia da maioria dos trabalhadores que atuam diretamente com casos do novo coronavírus — “na saída de cada plantão, temos a sensação que nos infectamos e que vamos transmitir aos nossos entes queridos”, escreveu em um depoimento em rede social, em abril.

O medo é agravado pela falta de diagnóstico adequado, pois ele defende que a vigilância à saúde desses trabalhadores deveria ter sido priorizada desde o primeiro minuto da pandemia, o que possibilitaria “uma certa dose de segurança e encorajamento para seguir atuando com firmeza”. Oriundo do município de Icapuí, no Ceará, o enfermeiro vivenciou uma mudança drástica em sua rotina de trabalho quando o hospital em que atua, no Rio Grande do Norte, tornou-se referência para os casos de novo coronavírus na região oeste potiguar. Até 11 de maio, eram 293 casos confirmados em Mossoró, com 21 mortes. Ao se adaptar e aprender a lidar com a doença, no momento em que crescem rapidamente o número de casos, Cleilton inventou estratégias para se proteger e seguir adiante. Ele pontua que o discurso dominante parte da perspectiva do vírus, quando deveríamos levar em conta a perspectiva das pessoas — “de suas exposições, riscos de adoecimento e acesso a tratamentos e cuidados”. Doutorando em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com experiência profissional na assistência, no ensino e na gestão, Cleilton é também educador popular e compositor. “Quem está olhando para os mais vulneráveis? É uma pergunta que muito me dói”, afirma.

 Como está sua rotina de trabalho atualmente e como ela foi impactada pela covid-19?

Está tudo muito desgastante, minha rotina agora é totalmente diferente, a começar pela mudança drástica no perfil dos nossos usuários. Atuo na Clínica Cirúrgica do Hospital Regional Tarcísio Maia há muitos anos e nosso público, em sua grande maioria, sempre foram as vítimas de traumas de um modo geral, pacientes da ortopedia, neurocirurgias e outros. Com a pandemia e diante da fragilidade da rede de atenção às doenças infectocontagiosas na região de Mossoró (RN), o Hospital Tarcísio Maia, de forma muito corajosa, teve que se adequar para receber as pessoas adoecidas pela covid-19 e se tornou, “da noite para o dia”, o hospital de referência para os casos da região oeste potiguar.

Como vocês se adaptaram para atender os pacientes com covid?

Ficamos aterrorizados no início: como seria esse fluxo? Como separaríamos os pacientes gerais dos pacientes covid? Como treinaríamos nossas equipes em plena pandemia em curso? Essas e outras questões foram nos consumindo de tal forma que entrávamos nas madrugadas debatendo as mudanças que precisaríamos implementar antes que chegassem os pacientes. Hoje, o setor que trabalho foi adaptado para ser uma área de isolamento respiratório e de contato. Uma outra forma de trabalhar. Tudo mudou, os tipos de cuidados prestados, as medicações utilizadas, a relação com os acompanhantes, a nossa relação em equipe, no uso do refeitório, do posto de enfermagem, enfim, uma bola de neve de mudanças que vão levando a outras e que nos tiraram, de modo agressivo, de nossa rotina até então estabelecida, dos protocolos e manejos clínicos que dominávamos seguramente.

Como você se sente nesse momento? O que passa pela sua cabeça, em relação a angústias, estresse, dificuldades, desafios?

Há uma mistura de sentimentos em mim. Por um lado, indignação com as questões políticas do país, com a inoperância de muitos gestores brasileiros, os descasos com os trabalhadores da saúde pública, de modo especial, os que têm seus corpos diretamente expostos. Por outro lado, muito aprendizado tem se dado em meio à luta, muita solidariedade também, sem falar da enorme vontade de vencermos juntos. Visualizo desafios gigantescos, pois a covid trouxe consigo uma série de questões de responsabilidade social e de cuidado com o outro. Penso que uma questão importante é a promoção da saúde mental. No entanto, vejo muitas dificuldades na produção de conhecimentos no Brasil e de novas formas de intervenção em saúde coletiva, favorecendo uma repetição infrutífera de métodos que não tem promovido a saúde das pessoas.

Como as iniquidades se refletem no sistema de saúde, tanto para as populações em situação de vulnerabilidade quanto para os trabalhadores da saúde?

Uma outra questão inadiável é a atenção aos mais vulneráveis, esse é um ponto crucial que se intensifica nesses tempos sombrios. As iniquidades, que sempre foram feridas profundas nunca curadas do nosso sistema de saúde, estão mascaradas pela ideia de que o vírus não escolhe suas vítimas e que estamos todos no mesmo barco, o que não é verdade. O discurso dominante parte sempre da perspectiva do vírus, quando deveríamos partir da perspectiva das pessoas, de suas exposições, riscos de adoecimento e acesso a tratamentos e cuidados. No próprio ambiente de trabalho, por exemplo, eu fico vendo as condições difíceis dos companheiros servidores da limpeza, dos maqueiros, em grande parte terceirizados. Como também vários de nós da enfermagem que enfrentamos muita precarização. Vejam só, aqueles servidores que, mesmo sendo incluídos nos grupos de risco para a covid, por suas comorbidades ou idade, não recorrem ao afastamento das atividades a que têm direito porque as perdas salariais em produtividade, adicional noturno etc, fazem muita falta nos orçamentos das suas famílias. E aí? Quem está olhando para os mais vulneráveis? É uma pergunta que muito me dói. Não é todo mundo que pode fazer uma “live”, informar que testou positivo, mas que passa bem. Enfrentar a covid é bastante heterogêneo a depender das condições socais, da inserção de classe, raça, etnia, gênero e sexualidade.


Fotografia: Acervo Pessoal

Fotografia: Acervo Pessoal

"Se no plantão, a máscara N95 faz marca no nosso rosto, fora dele as imagens da pandemia deixam marcas no nosso coração", afirma o enfermeiro Cleilton Paz.


Em depoimento que você escreveu nas redes sociais, você relata que “na saída de cada plantão, temos a sensação que nos infectamos e que vamos transmitir aos nossos entes queridos”. Como é a volta para casa? Você consegue “se desligar” do trabalho e descansar?

Eu venho sentindo um cansaço persistente, não consigo me concentrar em outras questões da minha vida a não ser o enfrentamento da pandemia. Minha tese de doutorado, que estava indo a passos largos, está estacionada, pois não consigo focar nela, em virtude das demandas do trabalho. A cada saída do plantão, mais distanciamento social, pois fico com a sensação de estar transmitindo o vírus para quem se aproxima de mim. Ao entrar em casa, o calçado fica na garagem, entro sempre descalço e, mesmo já tendo tomado banho e trocado de roupa lá no hospital, vou direto ao banheiro para outro banho. Minha mochila fica no carro com meus objetos que só uso no trabalho. Evito falar próximo a qualquer pessoa. Separei meu copo e meus talheres. Meus pais têm problemas de saúde, meus avós são muito idosos e eu fico 24 horas nessa preocupação de prejudicá-los. Até com meus cachorros eu fico com sentimento de culpa, interrogando se devo abraçá-los, pois eles saltam em mim sempre quando chego do plantão. É horrível tudo isso! Enfim, têm sido dias complicados por conta desse medo que não é somente por conta da minha saúde, mas da saúde de todos que me circundam.

Como vê o estresse e a tensão entre seus colegas e na sua equipe?

De certa forma, percebo que essa é a maior angústia da grande maioria dos trabalhadores da linha de frente. Por isso defendo que as ações de vigilância à saúde desses trabalhadores deveriam ter sido priorizadas desde o primeiro minuto da pandemia, nos possibilitando acesso a diagnósticos clínicos e laboratoriais em tempo oportuno, com acompanhamento sistemático, que nos desse uma certa dose de segurança e encorajamento para seguir atuando com firmeza. Mas, infelizmente, estamos longe disso.

Como tem sido lidar com o gargalo de falta de testes, insumos, leitos, EPIs e de respiradores?

A falta de testes é gritante. Todos os dias chegam nas unidades de pronto-atendimento (UPAs), segundo referem os colegas que trabalham nessas unidades, casos com quadro clínico e epidemiológico bastante sugestivos e que simplesmente são orientados quanto ao isolamento domiciliar e não têm acesso a exames. Com isso, não entram nas estatísticas. O preocupante é que ainda estamos na alça ascendente da curva epidêmica e já temos estados com seus sistemas de saúde saturados, sem vaga de UTI ou de enfermarias clínicas. Em relação aos EPIs e insumos, sabemos que todos os hospitais públicos desse país sofrem com a escassez. É bom lembrar que não é de hoje que estamos tão expostos, mas tudo se tornou muito dramático com a pandemia. Antes, sempre ocorreu de fazemos procedimentos de urgência com máscara cirúrgica descartável e não é raro o paciente entrar com um determinado diagnóstico e só depois se evidenciar que se tratava de tuberculose, meningite, H1N1 etc. Isso não deveria acontecer em meio à pandemia por coronavírus, tendo em vista o crescimento dos casos de forma alarmante no Brasil. Mas, infelizmente, também tem acontecido nesse período. Depois do óbito, o médico interroga covid, era um paciente que estava seguindo os protocolos de outra patologia. E aí? Como fica a equipe de enfermagem, maqueiros, os pacientes vizinhos e seus acompanhantes? É fácil dizer assim: deveriam todos estar paramentados independente do diagnóstico. Mas, temos condições para isso? A nossa realidade é de racionamento de EPIs.

Como você enxerga esse discurso de negacionismo da pandemia, que desconsidera as evidências científicas, ao mesmo tempo que está lidando diretamente com essa realidade?

Isso é loucura, com altas doses de maldade. Esses gestores não têm lucidez suficiente para ocuparem postos de tão grande responsabilidade. Estamos pagando caro por aqueles que votaram com ódio, porque o ódio nunca constrói. Os discursos fascistas enlameados de fakes news que tomaram as redes sociais, infelizmente, ganharam nas urnas e estamos perdendo em vidas. De Marielle Franco aos pobres invisíveis nas estatísticas da covid, tudo se articula dentro desse projeto de morte, de uma sociedade que ainda é extremamente desigual e que está profundamente ameaçada por um contexto político, religioso e econômico que não se intimida em definir quais vidas importam de serem vividas.

Você acredita que a música e as artes populares podem ajudar a fortalecer os afetos nesse momento?

Muitíssimo. As artes potencializam nossas “paixões alegres”, como diria Espinosa. Eu vivo a cenopoesia desde a infância e sei da energia vivificante que percorre nossos corpos quando estamos em ato. A ciência biomédica hegemônica tem esquecido dimensões do existir humano sem as quais nunca teremos uma saúde integral.


Relatos da linha de frente

“Para nós, trabalhadores da saúde dos hospitais que estão recebendo pacientes com covid 19, está muito desgastante. Não é simplesmente o medo de morrer, como pensam. É, antes de tudo, o medo de matar. Como assim matar se estamos a salvar vidas? O fato é que na saída de cada plantão, temos a sensação que nos infectamos e que vamos transmitir aos nossos entes queridos. Ficamos em alerta 24 horas sobre as medidas protetoras e atentos aos sinais do nosso corpo. Em cada espirro, uma interrogação diagnóstica nos atravessa. Tememos prejudicar nossos pais, avós, filhos e amigos. Mudamos nossa rotina de vestimentas, alimentação e circulação. Evitamos tocar o mundo que gira fora do hospital. Seguimos excessivas restrições. Se no plantão, a máscara N95 faz marca no nosso rosto, fora dele as imagens da pandemia deixam marcas no nosso coração. De certa forma, é medo de morrer e de matar que se misturam.
O ideal seria que tivéssemos testes disponíveis de fácil acesso, que nos fizessem respirar até o próximo plantão. Mas não é essa nossa realidade. De surpresa, estamos recebendo as notícias dos nossos colegas de trabalho sendo internados, isolados, intubados. Nossos dias se resumem em orações para que vençam a doença que os atingiu. Talvez sejamos o próximo, pensamos algumas vezes. Muitas vezes, pra ser sincero.
Particularmente, estou adoecido, não de covid, pois meu exame, graças a Deus, deu negativo. Estou adoecido mentalmente. Vejo todo mundo com muita opinião, muita especulação, cheios de razão. Mas até chegarem a um consenso, somos nós, trabalhadores da linha de frente, que estamos vendo nossos corpos imersos na ala mais instável desse campo de guerra, a ala onde ninguém quer estar, nem mesmo os mais valentões que se acham blindados por seus escudos de ficção.”

[Depoimento publicado em 18/04]

Fotografia: Acervo Pessoal