Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Acervo pessoal.

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Uma conversa com Elaine Nascimento (Fiocruz/Piauí) sobre as desigualdades de raça e gênero no Brasil da covid-19

Era para ser uma entrevista sobre mulheres e políticas públicas em tempos de pandemia de covid-19. Logo no início, a entrevistada deixa evidente que, no Brasil, essa conversa não pode ser dissociada da discussão racial. “Estamos falando de uma sociedade racista”, diz a carioca Elaine Nascimento, assistente social e uma das fundadoras do Comitê de Gênero e Raça da Fiocruz, que hoje mora em Teresina, onde integra os quadros da instituição no Piauí. “As mulheres, de um modo geral, sofrerão violências pelo fato de serem mulheres — e as mulheres negras sofrerão muito mais violência”. Aqui, ela responde as perguntas como um convite à reflexão sobre temas que vão do racismo estrutural às relações desiguais de gênero no espaço privado. Para Elaine, não existe “a” mulher brasileira. “Existem as mulheres brasileiras” — as mulheres indígenas, as mulheres quilombolas, as mulheres brancas, as mulheres negras, as mulheres lésbicas, as mulheres bissexuais, as mulheres jovens, as mulheres idosas... Compreender essa diversidade é o primeiro passo para a construção de políticas públicas mais eficazes, acredita.

Ao final da entrevista, Elaine pede licença para presentear os leitores de Radis com os versos de “Post-its”, do livro “07 notas sobre o apocalipse ou poemas para o fim do mundo”, da poeta e compositora Tatiana Nascimento. Na opinião de Elaine, este é um tempo de resistências. “Mas gosto de pensar que se faz resistência com afeto. E isso se apresenta, para mim, na forma de poesia”.

Em um debate, você afirmou que esta pandemia tem cor e tem gênero. Por quê?

As desigualdades que estruturam nossa sociedade não são democráticas. Como reflexão, quero propor que a gente olhe para o espaço das penitenciárias e o processo de encarceramento da população brasileira. Ele é majoritariamente de homens negros e de homens jovens negros. Esse é um retrato histórico porque ele nos remete à senzala. Então, que políticas públicas sociais a gente tem no Brasil que, de fato, possam nos fazer acreditar que esse país viveu uma abolição da escravatura? Claro que não viveu. No período da ocorrência da abolição, as negras e os negros não tiveram acesso ao trabalho, à terra, à moradia, não tiveram acesso à nenhuma dignidade humana. E agora, nós temos uma pandemia que vai revelar que os níveis de desigualdade e de vulnerabilidade estão associados a um determinado segmento da população. Quero deixar claro que sou uma mulher negra. Nós, os negros, somos a maioria da população e, no entanto, não temos acesso às mesmas oportunidades. Nós pagamos impostos, mas o processo de gerenciamento e administração desses impostos gera privilégios para poucos e ausência de direitos para muitos. Estamos falando de uma sociedade racista. Então, primeiro: a pandemia tem cor, sim. As pessoas pretas e pardas, de identidade étnico-racial negra, estarão mais vulneráveis a serem acometidas por esta doença. E ao serem acometidas pela covid-19, as chances de sobrevivência serão menores do que as de outros grupos porque isso envolve possibilidades de você se cuidar.

E em relação às mulheres: como essa pandemia atinge as mulheres no Brasil?

Aí vem a segunda parte da frase a que você se refere. Se essa pandemia tem gênero? Claro que tem. Por exemplo: os trabalhos que sobram para as mulheres negras no nosso país são subempregos. Muitas são empregadas domésticas, sem relação formal, não têm carteira de trabalho assinada. Pergunta que quero deixar para nós todas: será que estou pagando a minha diarista que não pode ir à minha casa trabalhar, quando ela depende exclusivamente dessa renda? Se ela não tem renda, como pode se proteger e cuidar dela própria e do restante da família? De um modo geral, a monoparentalidade está vinculada a mulheres que cuidam sozinhas de seus filhos e esses filhos são dependentes financeiramente, economicamente, emocionalmente, socialmente e afetivamente dessa mulher que é mãe — geralmente, uma mulher negra. Essa mulher terá baixíssimas oportunidades no mercado de trabalho, possivelmente terá trabalhos onde ficará subjugada, muitas vezes não podendo cuidar de seus filhos, precisando ir para outra casa cuidar dos filhos de uma outra mulher e, portanto, deixando seus filhos — que deveriam ser cuidados pelo Estado, mas não são.

É função do Estado promover saúde pública, mas nesse contexto de pandemia, como o Estado brasileiro vem olhando para nossas mulheres?

Todas as políticas públicas precisam ser pensadas por uma perspectiva interseccional, ou seja, a formulação dessa política precisa olhar o cruzamento de um conjunto de opressões, precisa cruzar raça, gênero, classe e, em alguns casos, geração. Se não faz isso, não consegue atingir o seu objetivo. Temos um Estado que não deixou de tentar efetivar uma política de embranquecimento da nossa população. Ele faz isso transformando em gargalo o acesso das pessoas às políticas públicas e sociais. Eu estou falando de oportunidades que sejam estruturais. O Estado brasileiro tem uma política de extermínio da população jovem e negra. Mas a gente tem um conjunto de outras opressões, por exemplo, que fazem o racismo estrutural. Por exemplo, na medida em que você olha os dados sobre violência obstétrica, você pode ver que a maioria das mulheres que sofrem violência obstétrica nas instituições públicas de saúde são negras. Você vê que tem uma articulação política para ofertar ou gerenciar as políticas públicas de forma a manter um segmento da sociedade refém, vulnerável e em situações de risco. Então, se você me pergunta de que forma o Estado brasileiro vem olhando para nossas mulheres, digo que vem olhando de uma forma em que as diretrizes que moldam esse olhar são baseadas em um patriarcado racista, marcadas pela presença machista nas relações. As mulheres, de um modo geral, sofrerão violências pelo fato de serem mulheres — e as mulheres negras sofrerão muito mais violência. Isso significa pensar, por exemplo: Onde estão as mulheres negras? A qual consumo estão tendo acesso em termos de educação, cultura, lazer? Nós temos como representante majoritário alguém que no seu exercício de servidor público, durante 20 anos, votou contra investimento de recursos na saúde e na educação. Isso revela como o estado brasileiro está pensando as mulheres.

Pensando por um recorte de gênero, o que precisa ser incorporado pelas políticas públicas de saúde a partir desta pandemia?

Nós, mulheres, acessamos majoritariamente a saúde pública através de uma perspectiva preventiva, então, a atenção primária, as unidades básicas de saúde são frequentadas majoritariamente por mulheres e crianças. Se você não tem nenhum tipo de investimento, você está atingindo diretamente esse segmento populacional. A perspectiva de um recorte de gênero que precisa ser incorporada nas políticas de saúde, primeiro, tem que ser plural. Não existe a mulher brasileira. Existem as mulheres brasileiras. Ou seja, nós mulheres, representando o espectro mais diversificado interétnico e cultural brasileiro, precisamos estar na construção das formulações e da implementação das políticas públicas. É necessário que se tenha a contribuição de mulheres indígenas, quilombolas, negras, brancas, lésbicas, bissexuais, de mulheres jovens, de mulheres idosas, enfim, é necessário esse olhar diversificado. Nós precisamos ser sujeitas desse processo. Afinal de contas, a saúde é integral e equânime, além de ser universal, óbvio.

Temos percebido o trabalho de redes e coletivos com ações baseadas em valores feministas, como a solidariedade, o amparo, o cuidado. Por que é importante reconhecer isso agora?

Como evoluímos tanto como humanidade e estamos vivendo uma situação de pandemia de séculos e séculos atrás? Obviamente, esse nosso estilo de vida, de avançar e não respeitar a natureza, gerando impactos, produzindo agravos à saúde humana e ecológica de forma geral, contribuiu bastante para isso. Sem solidariedade, sem cuidado, sem respeito, sem equidade nas relações, dificilmente a gente vai sair dessa pandemia com saldos positivos num cenário tão negativo. Acho que a sociedade caminha, com muita dialética e contradição, para uma reflexão em que é preciso pensar novas formas de coexistir. Outras formas de relações humanas e socioambientais, éticas, são necessárias para que a gente possa se desenvolver na perspectiva da nossa humanidade. De um modo geral, as diretrizes que organizam e estruturam a sociedade ocidental são muito bélicas. Socialmente e culturalmente falando, elas são muito masculinas. Até podemos ter tido um avanço tecnológico enorme, mas do ponto de vista das relações humanas, tudo ainda é muito frágil. Então, precisamos pensar outras formas de construir relações humanas. E os valores baseados nos múltiplos movimentos feministas são fundamentais. Estamos vivenciando a quarta onda do movimento feminista: apropriação dos dispositivos tecnológicos e o fortalecimento do lugar de fala das mulheres. Não à toa em 120 anos de Fiocruz, a gente tem pela primeira vez, como presidente, uma mulher. Isso numa instituição de muita potência, de muito compromisso ético-político, numa instituição que é de Estado e não de governo, que tem buscado construir respostas para a qualidade de vida da população brasileira e mundial e que é uma protagonista dessa conjuntura que a gente está vivendo de pandemia da covid-19.

E em relação ao aumento da violência doméstica durante a pandemia, o que isso nos diz sobre as relações de gênero nos espaços privados?

O que a gente precisa entender é que, se as mulheres que vivem em situação de violência estão presas no espaço privado com o seu agressor, as chances delas sofrerem violência e disso desembocar num feminicídio são enormes. Eu não me sinto à vontade para dizer que houve um aumento do número de violência doméstica com desfecho de feminicídio durante a pandemia. Mas eu me sinto à vontade para dizer que houve um aumento da tensão que está estruturada em relações desiguais de gênero no espaço privado. Esse é um tema fundamental porque tem a ver com o Estado se ocupar daquilo que é sua responsabilidade: cuidar das vidas das suas cidadãs e dos seus cidadãos. Então, eu quero acreditar que nesse período a gente pode se articular em lives, webinários, debates e fazer uma reflexão profunda e discutir como a cultura estrutura nossas relações públicas e privadas. E como isso precisa ser destruído para que a gente possa construir outra cultura. Uma cultura em que a mulher não seja vista nem como mercadoria nem como objeto que pertence ao homem.

resistência e poesia

Ao final da entrevista, Elaine Nascimento diz que resistência também se faz com afeto e recita os versos de um poema de Tatiana Nascimento. Ouça aqui.

Post-its

Vale lembrar do medo:

É menor que o amor

desaprender o ódio:

o sonho é maior

Pra recordar:

a bala é menor que a luta

Pra festejar:

Desejo é maior que a norma

Nunca esquecer:

A bíblia é menor do que a fé

(Y deus é maior, muito maior

Que a igreja, qualquer que seja)

Pra mensurar a cerca:

É menor que a terra

Pra acalmar da seca

Sempre volta a chuva

Y pra enfrentar a força bruta

Resistir é maior

Y pra aguentar o pranto, espanto y o tanto

Que eles (que só parecem tantos)

Querem acabar a gente:

a gente povo

a gente água

a gente bicho

a gente mata

a gente pedra

a gente rio, vento, mundo

Nossa seiva é maior

Porque a gente é maior

Y a vida é maior

que o medo da morte

(Tatiana Nascimento)