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Emanoel Obolari fala das dificuldades de um estudante da zona rural em tempos de pandemia

Para pagar a fatura da internet e manter sua rotina de estudos, Emanoel Obolari Protásio, de 17 anos, precisa colher oito balaios de café. Filho de pais agricultores, o estudante estava sem acesso à internet em casa há um ano, por conta de dificuldades financeiras, e precisou encontrar uma solução com o início da pandemia de covid-19 para continuar se preparando para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Sem aulas presenciais desde que foram adotadas medidas de distanciamento social com o novo coronavírus, o jovem agora divide seu tempo entre o trabalho na lavoura, para ajudar na renda familiar, e os estudos, enquanto aguarda o retorno ainda não previsto das aulas na Escola Estadual Fazenda Paraíso, na zona rural de Espera Feliz — município mineiro na região da Serra do Caparaó, conhecido pela produção cafeeira.

“A escola era o lugar mais apropriado que eu tinha para estudar. Depois da paralização, tive que trabalhar muito para conseguir colocar internet na minha casa e continuar meus estudos”, conta. O sonho de ingressar numa universidade, que parece distante para os estudantes rurais, precisou esperar um pouco mais com a pandemia. “Entre trabalho e estudos, minha rotina passou a ser bem mais cansativa e essa também é a realidade de muitos estudantes que vivem no campo. No contexto de incertezas que estamos passando, a gente começa muitas vezes a duvidar se esses sonhos são possíveis”. Emanoel explica que, em sua escola, os estudantes encontram dificuldades para acompanhar as aulas remotas e manter o cronograma de estudos, por conta da exclusão digital ou pela ausência de espaços apropriados para estudar em casa. “No campo, boa parte dos estudantes não têm acesso a essas tecnologias, seja porque têm falta de recursos em casa ou por morarem em lugares onde não pega internet”.

Como era o caso de Emanoel até recentemente, 4,8 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos, no Brasil, vivem em domicílios sem acesso à internet — o que corresponde a 18% dessa população. Se levar em conta a forma de acesso, 58% dos brasileiros nessa faixa etária acessam à internet exclusivamente pelo celular — o que pode dificultar a execução de tarefas relacionadas a aulas remotas emergenciais durante a pandemia. Os dados, divulgados em junho de 2020, são da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019, que busca entender como os jovens brasileiros utilizam a internet — o levantamento é feito desde 2012 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), com apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e outras instituições.

Com o calendário escolar interrompido pela covid-19, estudantes de Ensino Médio enfrentam dificuldades para se preparar para o Enem, principal forma de ingresso nas universidades públicas. Mesmo com o crescimento do número de casos do novo coronavírus pelo país, no fim de março, o Ministério da Educação bateu o martelo: as datas das provas estavam mantidas para novembro. Jovens com celulares de última geração, notebooks e espaço adequado para estudos apareciam na publicidade do MEC — ainda sob gestão de Abraham Weintraub. “A vida não pode parar”, afirmava um deles no vídeo. O recado estava dado: os estudantes deveriam “se virar”.

Como resposta, surgiu a campanha #AdiaEnem, promovida pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), para que nenhum estudante tivesse seu ingresso na universidade prejudicado pela pandemia.  Emanoel também fez parte do movimento. Com caneta verde, ele escreveu a frase “Agricultores também querer entrar na universidade!” e tirou uma foto sua, que foi compartilhada nas redes sociais. “A juventude quer ter acesso a uma educação igualitária para todos os estudantes brasileiros, seja da periferia, das comunidades tradicionais ou rurais”, ressalta. Além de garantir que “os sonhos de estudantes por todo o Brasil não fossem interrompidos”, a campanha #AdiaEnem levantou a pauta da democratização do acesso à internet no Brasil, pontua Emanoel. “Essa é uma luta que terá de ser travada urgentemente entre as entidades estudantis e os governos por todo o Brasil para garantir uma educação inclusiva para todos”.

O movimento dos estudantes saiu vitorioso com o adiamento do Enem, em maio. O MEC, no entanto, anunciou as novas datas para janeiro de 2021, sem que haja previsão de condições adequadas para o retorno às aulas até lá. Entre a lavoura de café e a escola, Emanoel pontua que as desigualdades sociais em relação a grupos específicos — como estudantes negros, indígenas, moradores de periferia e do campo — são obstáculos à garantia do direito à educação. “Quando falamos de comunidades LGBTs, rurais, pessoas de periferia e quilombolas, elas têm nítidas desvantagens sobre a juventude de grandes cidades, privilegiadas”, reflete.

O jovem — que tem quatro irmãos — conta que seus pais eram empregados nas fazendas de café da região, até que em 2008 conquistaram a própria terra, em um assentamento por meio do crédito rural. Eram tempos difíceis, em que iam para a lavoura a pé ou de bicicleta. Durante três anos, a família morou na tulha usada para armazenar grãos e contava com energia elétrica precária. Na Escola Fazenda Paraíso, Emanoel foi presidente do grêmio estudantil e ressalta que “a juventude tem que começar a ocupar espaços políticos, porque só assim ela vai conseguir elaborar projetos que favoreçam os jovens”. “Ainda faltam muitos espaços para os estudantes serem ouvidos”, avalia. Sobre sonhos e projetos, ele cita que tem desejos muito mais coletivos do que individuais, como o fortalecimento de uma educação pública de qualidade. Costuma usar uma frase para definir sua trajetória: “Carrego no peito os mais belos sonhos de toda uma juventude”.

[Na edição da Radis de agosto, você confere uma reportagem especial com educadores e estudantes sobre a educação em tempos de pandemia]

 

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Confira a conversa completa com Emanoel Obolari, estudante de 17 anos, residente na zona rural de Espera Feliz (MG):

Conte-nos um pouco como sua rotina estudantil foi alterada pela pandemia de covid-19.

A escola era o único lugar mais apropriado que eu tinha para estudar. Em casa já não tinha internet há mais de um ano por conta da crise que a gente passa. E todos os dias eu podia realizar minhas pesquisas na escola, concluir meus trabalhos e principalmente me preparar para o Enem. Depois da paralização, tive que trabalhar muito para conseguir colocar internet na minha casa para que pudesse continuar meus estudos. A partir disso, entre trabalho e estudos, minha rotina passou a ser bem mais cansativa e essa também é a rotina de muitos estudantes que vivem no campo.

Que planos ou sonhos tiveram que ser adiados? Como você e sua escola tem se adaptado?

Sobre sonhos e planos que tiveram que ser adiados, a pandemia trouxe muitas dúvidas para os estudantes, porque antes mesmo de a gente ingressar no Ensino Médio a gente começa a sonhar em conquistar uma profissão, entrar numa boa universidade. E no contexto de incertezas que estamos passando, a gente começa muitas vezes a duvidar se esses sonhos são possíveis. Quanto à adaptação da minha escola e dos estudantes, eu digo que tem sido muito difícil, porque ninguém está preparado para essas aulas remotas. Elas foram muito em cima da hora, principalmente porque entra a questão do acesso à internet e o agravamento das desigualdades sociais. No campo, esses são os principais problemas, porque boa parte dos estudantes não têm acesso a essas tecnologias, seja porque têm falta de recursos em casa ou por morarem em lugares de acesso remoto, onde não pega internet.

O que tem sido falado e discutido sobre o retorno às aulas?

O retorno às aulas tem sido muito discutido entre os estudantes, mas a gente nunca chega a uma resposta. Essas incertezas são muito comuns. O governo mineiro prevê um retorno somente com a diminuição dos casos de covid-19 no estado, mas a única coisa que sabemos é que o retorno deve ser feito de maneira segura para o bem de todos os estudantes, educadores e profissionais da educação.

O movimento “Adia Enem” foi uma luta para garantir o direito dos estudantes se preparem adequadamente nesse contexto em que o calendário foi interrompido. Como ocorreu esse movimento e qual sua importância, principalmente para estudantes periféricos, negros, rurais, indígenas etc.?

A campanha “Adia Enem” foi proposta pela Ubes, com o apoio da União Colegial de Minas Gerais (UCMG), que é a entidade que representa os estudantes secundaristas em Minas. Ela pretendia combater principalmente as desigualdades sociais em relação a grupos específicos, como negros, indígenas, pessoas que moram em periferia e no campo, que não têm acesso a tecnologias que possibilitem a elas se preparar para o Enem em tempos de pandemia. O objetivo era não deixar nenhum estudante para trás e garantir que os sonhos de estudantes por todo o Brasil não fossem interrompidos.

O Adia Enem também foi muito importante porque ele levantou a pauta da democratização do acesso à internet no Brasil, que é uma luta que terá de ser travada urgentemente entre as entidades estudantis e os governos por todo o Brasil para garantir uma educação inclusiva para todos.

Você acha que os estudantes estão sendo ouvidos nesse momento? Como você enxerga as atuais políticas públicas para a área de educação?

Há muito o que melhorar na inclusão de entidades estudantis nas pautas propostas pelo Ministério da Educação, para que o MEC possa ouvir a posição dos estudantes e definir um bom rumo para a educação brasileira. Ainda faltam muitos espaços para os estudantes serem ouvidos, mas já existem alguns, seja meios de comunicação ou alguns políticos que têm apresentado projetos a favor da educação brasileira.

Na sua opinião, como as desigualdades entre os estudantes brasileiros se expressa nesse contexto da pandemia?

Antes da pandemia, as desigualdades sociais não eram tão evidentes porque nas escolas os estudantes não tinham total dependência da tecnologia. Com o uso do livro didático, biblioteca, consulta direta e contato com os professores, enfim, com tudo isso o uso da tecnologia era parcial. A partir do momento da pandemia, em que a gente tem total dependência tecnológica para ter acesso aos professores e aos conteúdos das matérias e às apostilas, tudo a gente passou a depender da internet. Estudantes que moram na roça, periféricos, população negra e indígena não têm o acesso adequado à internet. Às vezes tem acesso ao celular, mas não tem acesso à internet e muitas das vezes, o que é triste, as pessoas não tem acesso nem a um celular.

Como foi a trajetória de sua família no campo? Fale um pouco sobre a realidade vivenciada por vocês e como ela marcou sua infância e adolescência.

Meus pais e meus avós foram criados na roça. Meu pai e minha mãe sobreviviam da roça e da lavoura do café, que é muito comum na região do Parque Nacional da Serra do Caparaó, conhecida por produzir muitos cafés especiais. A história da minha família sempre esteve ligada à lavoura de café. Meu pai sempre foi meeiro, era empregado nas lavouras de coronéis da região. A vida da minha família como empregada desses coronéis era muito difícil, porque meu pai ia trabalhar a longas distâncias de bicicleta. A gente não tinha muito convívio com nossos pais, porque quando a gente acordava, eles já tinham ido para o trabalho; quando eles voltavam, a gente já tinha dormido. A nossa criação foi muito por conta dos nossos vizinhos. Desde 2008, nossa família conquistou a terra, por meio de um assentamento do Crédito Fundiário. Assim que eles conseguiram comprar o assentamento, a gente não foi morar lá imediatamente: durante dois anos, minha mãe ia a pé e meu pai de bicicleta para cuidar do sítio. O sítio era um matagal, meu pai teve que capinar tudo.

E como essas dificuldades que você relata influenciaram sua formação e sua vida de estudante?

Em outubro de 2010, a gente se muda para o assentamento e mora numa tulha, que serviria inicialmente para guardar as sacas de café, a colheita de milho e feijão. Para a gente morar, meu pai fez um puxadinho pra banheiro e um fogãozinho à lenha e a gente morou ali três anos naquela tulha. Moramos dois meses sem energia elétrica e depois três anos com uma energia precária que, se você ligasse o chuveiro, desligava o resto dos eletrodomésticos da casa. A gente só conseguiu mesmo ter uma boa eletricidade com o projeto Luz para Todos no final de 2013. De lá para cá, nossa vida tem melhorado um pouco, tanto economicamente quanto culturalmente. Meu pai deixou de ter patrão. Hoje a gente pisa no que é nosso. A gente continua na produção de café. Eu tive que trabalhar ainda mais para conseguir colocar internet para acompanhar essas aulas online, tive que apanhar café a balaio. Balaio corresponde a uma quantidade de café, como se fosse uma saca, e você recebe 10 reais a cada balaio que você pega. Eu tive que trabalhar todos os dias para conseguir pagar a internet. A gente sobrevive da agricultura familiar, em que toda a família participa dos processos de produção do café desde a colheita, secagem, plantio e tudo mais.

Como se deu a sua participação no movimento estudantil? Quais seus planos para o futuro?

Esse ano eu pude ter contato com a União Colegial de Minas (UCMG). No grêmio estudantil cheguei a ser presidente. Eu gosto muito de uma frase que diz: “Carrego no peito os mais belos sonhos de toda uma juventude”. A juventude tem que começar a ocupar espaços políticos, porque só assim ela vai conseguir elaborar projetos que favoreçam os jovens. Ela já participa de diversas ações em defesa da democracia e da educação. E agora a gente vê que a juventude precisa ocupar os parlamentos, as Câmaras e as prefeituras na luta por representatividade.

E sobre o futuro, quais seus sonhos?

Sobre os meus sonhos, acho que eles são muito mais coletivos do que individuais. Lógico que sonho em ter uma profissão e me formar na faculdade. Sonho com o desenvolvimento e o fortalecimento da educação e do movimento estudantil. Também sonho ocupar esses espaços políticos para fazer uma transformação e representar a juventude, sobretudo os jovens do campo. A juventude quer ter acesso a uma educação que seja igualitária para todos os estudantes brasileiros, seja da periferia, das comunidades tradicionais e rurais. É uma juventude que quer ter pleno emprego. Depois que eu me formar, o que eu vou fazer? Quando falamos de comunidades LGBTs, comunidades rurais, da juventude do campo, pessoas de periferia e quilombolas, elas têm nítidas desvantagens sobre a juventude de grandes cidades, privilegiadas.