Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Sergio Velho Junior.

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Entrevista com Lilian Corra e Alfonso Rodrigues

Um solo verdejante, coberto por hortaliças vistosas e cultivadas sem agrotóxicos, é geralmente associado a uma produção saudável. Mas, como tudo na vida, determinadas aparências podem mascarar enganos. Esse foi um dos alertas dados pela pediatra argentina Lilian Corra e pelo engenheiro químico colombiano Alfonso Rodrigues durante o seminário Avaliação Rápida de Solos Contaminados por Substâncias Químicas, que aconteceu em agosto na Fiocruz Brasília. No encontro, os dois representantes da organização internacional Pure Earth, integrante da Aliança Global para a Saúde e Contra a Contaminação, mostraram seus efeitos sobre a saúde e conduziram pesquisadores do Programa Saúde, Ambiente e Trabalho a uma visita de campo à região da Estrutural. A área, situada a 25 quilômetros do centro da capital brasileira, até janeiro de 2018 abrigava o maior lixão da América Latina. Em entrevista à Radis, eles apontam como é feita a avaliação de áreas suspeitas de contaminação, como intervir no problema e destacam o risco à saúde decorrentes do uso destes solos.

 

Quais as etapas de avaliação de uma área contaminada?

Alfonso - Para identificar, é necessário que o espaço não tenha dono e algo ali esteja afetando a saúde de uma comunidade. O governo geralmente nos notifica, e então a área é considerada suspeita. Fazemos uma pesquisa sobre o espaço, seguida de visita de inspeção com a avaliação rápida. Utilizamos um equipamento para medir os metais disponíveis em amostras de solo ou água da região. A informação de quão contaminado está o sítio é depositada em uma base de dados mundial pública, e, por meio do índice Blacksmith, um algoritmo organiza os dados por elemento contaminante, nível de contaminação, população, distâncias, e aí, se calculam as prioridades de investimento.

E depois disso?

Lilian - O modelo entende o componente químico, monitora sua inserção no meio ambiente e analisa o problema de saúde por ele causado. As doenças de causa ambiental, devido à exposição a produtos químicos, são evitáveis. Os químicos têm um caráter tóxico, e não há dose segura , pois quando há contaminação no ar, ou na água, esse contaminante em algum momento chega ao solo. , naturalmente ou por irrigação. Por isso, é preciso investigar a exposição das pessoas a estes agentes, desde a concepção. Há químicos que são persistentes, como os agrotóxicos, compostos clorados e metais pesados (chumbo, mercúrio, entre outros). Há os desregulares endócrino, que são tóxicos para o neurodesenvolvimento, para a fertilidade, e há até carcinogênicos. A OMS estima que 12 milhões de crianças nos países em desenvolvimento sofrem de alguma forma de dano permanente, neurotóxico, devido à contaminação por chumbo. Nos Estados Unidos, a carga de doença por envenenamento por chumbo é 20 vezes maior que para asma, e 120 vezes maior que para o câncer.

Como se pode afirmar que uma área é contaminada?

Lilian - Uma área é considerada contaminada quando o terreno ou propriedade cujo solo, águas subterrâneas, material de construção, escombros, estruturas, restos de instalações possuem substâncias contaminantes. A contaminação está na acumulação de substâncias a níveis que repercutem negativamente no comportamento dos solos e águas e que se tornam tóxicas para todos os organismos. É uma degradação química que provoca a perda parcial ou total de produtividade de um solo da pureza da água. Existe um sem número de fontes de contaminação, que vão de aeroportos, fábricas de cerâmicas, cimento e asfalto, fábricas, produção de madeira a até reciclagem de resíduos, entre outros. Alfonso - A emissão de substâncias químicas para o ambiente pode se dar por meio do ar, da água, do solo, e dos alimentos. Pelo ar, desde as emissões industriais com queima de resíduos a céu aberto e incineração, pela deposição de poluentes na água, alimentos ou no chão de casas onde as crianças brincam , ou ainda pelo solo onde animais e vegetais crescem e se alimentam. Pela água, além das emissões industriais, as águas na superfície ou subterrâneas podem ser contaminadas e intoxicar quando ingeridas, no preparo de alimentos, na limpeza pessoal ou na irrigação. Nos alimentos, os poluentes vão desde a presença de substância químicas em vegetais ou animais. Em se tratando do solo, a terra contaminada é risco pelo contato direto com as pessoas, no respirar ou no contato com a pele, e também por contato indireto com o transporte remoto por correntes de ar e escoamento de terra contaminada, por chuvas ou correntes de superfície.

Que métodos são utilizados para se reduzir a exposição dos solos a agentes químicos e fazer alguma intervenção no espaço contaminado?

Alfonso - A avaliação rápida dá indícios de contaminação, e de acordo com o nível encontrado, é definida prioridade alta, média ou baixa. Então, se faz uma avaliação mais detalhada, com análises de laboratório, e assim se propõem soluções. Não há uma resposta única, cada área é um mundo completamente diferente, e assim são as intervenções. Um mesmo espaço pode ter diferentes intervenções, que vão desde remover as fontes de contaminação e descartá-las de forma adequada até a processar quimicamente ou biologicamente os agentes contaminantes, restaurar a área, ou mesmo retirar as pessoas daquele espaço para que vivam em outro local. São coisas muito difíceis, mas em alguns espaços, devido ao nível de contaminação, não há outra opção.

A formação na Fiocruz Brasília teve como foco os profissionais de secretarias de governos dos estados do Nordeste brasileiro. Por que este público específico?

Alfonso – Os sítios contaminados são do Estado, e são as autoridades de saúde e ambientais que tomam as decisões. Então, nossos cursos fortalecem o conhecimento de quem, de fato, vai subsidiar decisões políticas. Este curso teve o diferencial de que todos tinham conhecimento prévio sobre o tema, ou tinham problemas relacionados à contaminação do solo em suas regiões, e pudemos debater com quem é de áreas diferentes em um mesmo governo, mas não sabia o que fazer. E, dada à possível rotatividade dos funcionários, é importante que repassem a informação aos colegas.

O que vocês destacam na visita da região da Estrutural?

Alfonso - Há um bom controle do acesso ao aterro sanitário. Porém, o terreno é grande, e em muitas partes que escavamos há contaminação por arsênico e cobre. Há plantações de hortaliças para venda e consumo humano, imediatamente ao lado do aterro e, usualmente, não se faz isso. Se não houver controle, poderá ter algum contaminante nestes alimentos. A Universidade de Brasília está monitorando e encontrou traços de agentes clorados nos poços de água subterrânea. Há ainda o bairro residencial próximo, e não sabemos como é a saúde de quem vive lá, pois não nos foi permitido entrar. É importante que a autoridade sanitária faça um diagnóstico da saúde dessas pessoas. Há muita poeira e muito vento, então, a contaminação proveniente do solo pode se espalhar e chegar até o bairro.

O que a população pode fazer de imediato?

Lilian – As ações imediatas devem ser dirigidas às populações mais vulneráveis. Estive no antigo lixão e vi muitas crianças brincando na área com resíduos. É preciso tirar as crianças dessas zonas que têm resíduos e ofertar um lugar onde possam brincar seguras, com a construção de quadras de esporte, sem contato com o solo contaminado. Ao mesmo tempo, eliminar todo o contato é impossível, pois se há poeira, as crianças vão respirá-la. É importante conscientizar a comunidade, também, sobre lavar as mãos antes das refeições. Muitos contaminantes vêm dos alimentos. Manter a casa e a cozinha o mais limpo possível, para que os alimentos não sejam expostos à poeira, nem as crianças.

O que se espera de quem finalizou a formação?

Alfonso – Não pretendemos que sejam pesquisadores de sítios contaminados. Para muitos, foi a primeira vez que fizeram uma visita de campo. É importante que perceberam a necessidade de trabalhar em equipe e criar estratégias de trabalho conjunto entre saúde, meio ambiente e outras áreas que se relacionam com o tema. Vamos mandar a informação coletada para a base de dados online. Eles poderão alimenta-la também, para verificar a concentração dos elementos encontrados e como ela pode variar.

Lilian – Para avançar é preciso dar visibilidade aos temas, ter compromisso e colocar os setores para trabalhar juntos e modificar esse pensamento de: “Vamos deixar o tempo passar, deixo o terreno aí, as pessoas esquecem...” pois isso foi o que aconteceu por anos. Hoje, sabemos que a contaminação que fica em um solo, de uma forma ou outra, prejudica a produtividade do país. Os governos devem entender a mensagem e fazer a conta completa: alterar essa mentalidade de que se gasta muito com a qualidade ambiental. Se não se priorizar isso, vai se gastar muito mais com a saúde das pessoas, num futuro próximo.