Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Fiocruz imagens.

Tempo de leitura: 3 - 6 minutos

O desafio em produzir uma vacina para a covid-19, na visão de Mauricio Zuma, diretor de Bio-Manguinhos (Fiocruz)

Produzir, envasar, rotular e embalar as milhões de doses da vacina contra a covid-19, além de garantir o suprimento de insumos como frascos, rolhas, seringas e agulhas são etapas que virão depois de descoberto um imunizante eficaz — antes que ele possa estar disponível para a população. O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) da Fiocruz planeja produzir 15 milhões de doses em dezembro e outras 15 milhões em janeiro de 2021 da vacina de Oxford. Porém, ainda serão necessárias etapas de registro e validação antes da distribuição. Outras 70 milhões de doses devem ser produzidas após a aprovação.

De acordo com o diretor de Bio-Manguinhos, Mauricio Zuma, uma segunda fase do acordo entre Fiocruz e AstraZeneca prevê a transferência de tecnologia para a produção do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) no país — ou seja, a fórmula da vacina —, o que tem previsão de início até o fim do primeiro semestre de 2021. Em entrevista à Radis, ele destaca que o primeiro grande desafio ainda é a própria aprovação da vacina. “Em que pese os resultados preliminares serem positivos, em situação normal não se estariam fazendo tantos planos antes da finalização destes processos de escalonamento, aprovação dos estudos clínicos e registro da vacina”, pondera.

Ainda há pela frente o desafio de produzir tantas doses em um curto espaço de tempo. “Para que haja o efeito de bloqueio da circulação do vírus, há necessidade de vacinação de um grande contingente da população mundial”, pontua. Atualmente, Bio-Manguinhos fornece sete vacinas para o PNI, que imunizam contra oito doenças — febre amarela, pneumonia, poliomielite, rotavírus, sarampo, caxumba, rubéola e varicela.

O diretor de Bio-Manguinhos (Fiocruz) conversou com Radis para nossa reportagem sobre a corrida pela vacina contra a covid-19, que estará na edição de setembro, mas você pode conferir aqui a entrevista completa.

Que desafios e obstáculos surgem para a garantia de uma vacina com acesso universal para a população brasileira e como bem público global?

O primeiro grande desafio é a própria aprovação da vacina. A vacina ainda está em testes clínicos e em escalonamento industrial. Em que pese os resultados preliminares serem positivos, em situação normal não se estariam fazendo tantos planos antes da finalização destes processos de escalonamento, aprovação dos estudos clínicos e registro da vacina. O segundo desafio é o da capacidade de produção de tantas doses de vacina em um curto espaço de tempo. Para que haja o efeito de bloqueio da circulação do vírus há necessidade de vacinação de um grande contingente da população mundial. O terceiro é decorrente do anterior, e se refere à garantia de suprimento de insumos, uma vez que a corrida global para a produção mundial pode acarretar gargalos em alguns fornecedores mais concentradores de mercado. Por exemplo, o Brasil produz frascos de vidro, mas a vara de vidro, insumo básico para a produção desses frascos, é importada. Quanto ao custo da vacina, no caso da vacina a ser produzida por Bio-Manguinhos o custo não deverá ser problema. Há um acordo com a AstraZeneca de fornecimento do insumo farmacêutico ativo (IFA), primeira fase de nosso acordo, a preço de custo. Com isso a vacina terá um custo no Brasil de cerca de 3 dólares.

Que esforços têm sido implementados para preparar o complexo produtivo de imubiológicos para a produção de uma futura vacina para a covid-19?

A primeira fase da produção em Bio-Manguinhos envolve as etapas de formulação, envase, rotulagem, embalagem e controle de qualidade, a partir do IFA importado. Para essa fase praticamente não há necessidade de adaptações ou equipamentos novos, uma vez que esse é um processo que Bio-Manguinhos já realiza para suas vacinas corriqueiramente. A previsão acordada com a AstraZeneca é de iniciar a produção em dezembro de 2020 (etapa 1). Para a segunda fase, de transferência de tecnologia para produção do IFA, que nos dará autonomia total de produção, usaremos instalações já existentes no Centro Henrique Penna, com pequenas adaptações e a aquisição de equipamentos específicos. Esse processo é bem mais complexo e será mais longo. Mesmo sendo realizado em paralelo com a fase 1 acima, a previsão é de iniciar a produção do IFA até o final do primeiro semestre de 2021 (etapa 2).

Depois que a vacina for aprovada pela Anvisa e iniciada sua produção, que etapas serão esperadas para garantir sua distribuição no Brasil? Como a existência de uma rede de salas de vacinação articulada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) e pelo SUS pode contribuir com os desafios de acesso?

Esse processo é de responsabilidade do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. Caberá a eles definir a população que receberá a vacina a partir de sua disponibilização e a articulação com as secretarias estaduais e municipais para aplicação no campo. Bio-Manguinhos irá entregar a vacina no armazém principal do Ministério da Saúde em São Paulo. De qualquer forma, a grande experiência consolidada do Programa e das unidades estaduais e municipais é um fator positivo para facilitar o acesso.

Vivemos um contexto em que baixas coberturas vacinais representam uma ameaça real de retorno de doenças comuns no passado, como ocorreu com o sarampo. Como esse cenário pode influenciar no programa vacinal da covid-19?

A cobertura vacinal tem sido realmente um grande desafio ultimamente, o que tem propiciado o retorno de doenças infecciosas que já estavam controladas ou mesmo eliminadas do território nacional. Neste caso específico, o grande estresse que a pandemia vem causando nos planos social e econômico parece estar contribuindo para elevar a consciência da população para a necessidade de se vacinar. Recente pesquisa apontou que mais de 80% da população deseja se vacinar contra a covid-19, o que pode contribuir com a tese de que o contato com a doença ajuda neste processo de conscientização. Em outras palavras, o fato de grande parte das pessoas atualmente não terem tido contato com vítimas do sarampo ou da pólio contribui para a população não se interessar pela importância da vacinação.