Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Arquivo pessoal.

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Entrevista com Diogo Sousa Silva

A história do menino que se mudou para Macaúbas, no interior da Bahia, e foi inquerido pelos colegas de escola — “Você é menino ou menina?” — é um retrato das dificuldades enfrentadas por aqueles que vivenciam outras expressões de masculinidade. O relato de Diogo Sousa Silva, psicólogo sanitarista formado pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), mostra como ele próprio vivenciou experiências de machismo, LGBTQI+fobia e racismo que hoje são temas de sua pesquisa e atuação profissional. Gay cisgênero e negro, ele desenvolveu uma pesquisa sobre a saúde de homens trans em Salvador, no mestrado em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Membro co-fundador da Articulação Nacional de Psicólogas/os LGBT (ANPLGBT), ele atualmente estuda no doutorado, também pela UFBA, as políticas voltadas para a saúde dos homens negros no Brasil. “É preciso construir caminhos para outras masculinidades garantindo a possibilidade de se viver plenamente”, destacou em entrevista à Radis, numa conversa na qual falou sobre masculinidade tóxica, o papel de negros e da população LGBTQI+ no debate sobre masculinidades e como os serviços de saúde encaram os diferentes modos de ser homem.

 

Na sua visão, o que significa “masculinidade tóxica”?

Masculinidade tóxica é uma ideia que vem sendo amplamente difundida para falar sobre um modelo de masculinidade que produz prejuízos de diversas ordens a homens e, principalmente, a não-homens: mulheres, LGBTQIA+, crianças e idosos. Aos homens é difundida uma falsa percepção de vantagem no exercício de uma vivência baseada na violência, no individualismo e na ausência de autorreflexão emocional. Ou seja, a masculinidade torna-se incompatível com a vida comunitária, uma vez que cria situações de risco diante da sua expressão, seja entre homens ou de homens para com outras pessoas do seu ciclo de convivência. Os índices de morte por causas externas, a violência doméstica e os crimes de ódio LGBTQI+fóbico são exemplos de efeitos desse modelo de masculinidade.

Você considera que o uso dessa expressão é adequado?

Acredito que falar sobre “masculinidade tóxica” tem sido útil para popularizar os entendimentos sobre como os homens têm construído suas vivências de modo nocivo e os impactos dessa construção. Trata-se de um termo acessível, diferente de falar sobre “masculinidade hegemônica”, conceito que tem sido mais presente em espaços de discussão acadêmica. No dia a dia, nem todo mundo saberá falar sobre hegemonia; por outro lado, é mais comum saber o que significa algo tóxico. Entretanto, creio que não podemos perder de vista que a masculinidade constitui um impositivo de poder e que não dá para tratá-la somente a partir dos seus efeitos tóxicos. Isto significa que sua construção opera de modo normativo, binário e hierárquico a partir da intersecção de marcadores estruturais de dominação, a saber: o racismo, o sexismo, a LGBTQI+fobia, as questões de classe, geração e território. Sem tal consideração, fazemos da “masculinidade tóxica” uma ideia sem enraizamentos nas dinâmicas concretas da vida social, exatamente onde ela se manifesta e produz efeitos devastadores.

A que você atribui essa discussão crescente que questiona os padrões da masculinidade hegemônica? Quem são os protagonistas desse debate e que novas vozes emergem?

Discutir a dominação masculina e as estratégias para superá-la é uma pauta histórica que tem sido destacada pelos movimentos LGBTQI+ e pelos movimentos feministas, principalmente, pelas feministas negras. Lélia Gonzales, Luiza Bairros, bell hooks, Angela Davis, Ana Flauzina, dentre outras, têm apresentado a urgência da discussão sobre as masculinidades dado o seu impacto na sociedade, em especial, aquele produzido nas comunidades negras contra mulheres e pessoas LGBTQI+ negras, comumente vítimas de violência perpetrada pelo exercício da masculinidade, seja por homens negros ou homens brancos. A principal discussão, nesse sentido, é que as estratégias de luta contra o genocídio negro têm sua potência diminuída quando os homens negros produzem violência em suas próprias comunidades, ao mesmo tempo em que são constantemente vitimizados pela necropolítica que estrutura o Estado Brasileiro.

Como os homens negros se inserem no debate sobre masculinidade?

A ideia de masculinidade hegemônica não tem sido suficiente para debater a realidade de muitos homens, principalmente, dos homens negros que seguem, entre a violência sofrida e a violência perpetrada, sendo os culpados ideais para os linchamentos produzidos em função dos estereótipos de agressividade e de uma suposta manutenção de ordem e segurança pelo Estado-nação. Jayme Amparo discute a representação dos homens negros construída entre criminosos e inimigos do Estado, uma importante avaliação que anuncia a caça de homens negros pelo Estado necropolítico. Ora, enquanto criminosos, o Estado age com seus parâmetros legais de criminalização e punição a fim de estabelecer a ordem, enquanto que, na posição de inimigos do Estado — e sua soberania de apontar quem deve viver, quem deve morrer e autorizar a morte, como discute Achille Mbembe —, a morte torna-se o seu único destino. Não à toa, o encarceramento em massa e as mortes por causas externas acometam, principalmente, homens negros.

Qual é o papel do movimento LGBTQI+ nesse debate?

Também cumpre observar que o movimento LGBTQI+ tem sido responsável por materializar existências comumente abjetalizadas, combatendo essencialismos produzidos por discursos biologizantes e culturais. Homens trans, gays, bissexuais, intersexuais e assexuais têm produzido novos modos de compreender e vivenciar as masculinidades, ainda que, por diversos momentos, a repetição e manutenção de estereótipos da masculinidade operem produzindo situações de conflito entre os pares e demais grupos sociais. A norma e o seu padrão de dominação (homem branco cisgênero heterossexual, cristão, reprodutor, classe média alta e urbano) tem sido contestada por sujeitos que explicitam outras formas de ser homem, reconstruindo os entendimentos sobre corpo, sexualidade, identidade de gênero, raça, classe, território e geração em suas intersecções. Se os movimentos feminista, negro e LGBTQI+ têm denunciado os efeitos nocivos da dominação masculina, os homens dissidentes da norma têm formulado outros caminhos para a construção de uma masculinidade possível. Resta, portanto, que tal processo seja anunciador da sua relação com as lógicas de poder já estabelecidas e o que pretende operar enquanto transformação.

Por fim, creio que, ao buscarmos refletir sobre protagonistas e vozes emergentes nessa discussão, precisamos tecer críticas para o modo como os discursos de confronto ao modelo hegemônico têm sido cooptados por grupos que gozam dessa hegemonia, ou, mais precisamente, lucram com ela. A oferta crescente de cursos, grupos de discussão e terapêuticos, workshops e vivências que se propõem a discutir a masculinidade tóxica tem sido anunciada com cifras que impõem barreiras de acesso para uma série de sujeitos, em especial, àqueles que têm inventado formas constantemente atacadas de existir enquanto homem diante da hegemonia. Nesse sentido, é impossível pensar em construir novas masculinidades quando o ponto de partida é a seletividade.

Como a chamada “masculinidade tóxica” pode prejudicar o próprio homem, sua sexualidade e suas expressões de afeto?

Como dito anteriormente, a masculinidade baseada na violência, no individualismo e na ausência de autorreflexão emocional torna a vida comunitária incompatível. Isto representa uma série de impactos subjetivos e intersubjetivos, emocionais e sociais, como vínculos afetivos frágeis ou rompidos, relacionamentos abusivos, inabilidade para lidar com a frustração (marcadamente expressa por reações violentas), embotamento afetivo, estresse e assédio no ambiente de trabalho e disfunções sexuais. A masculinidade torna-se um canal de produção de violência, como se essa fosse a única estratégia de tornar legítima a existência do homem. Como é possível prever, nenhuma relação que se baseie na dominação do outro pode conferir a possibilidade de cuidado entre os envolvidos, mas, ao contrário, desponta tensões e conflitos.

Por que é importante debater masculinidades (no plural) dentro do campo da saúde pública e da saúde coletiva?

Porque essa é a única possibilidade de entender os homens em suas complexidades, ao mesmo tempo em que se produz rupturas com o modelo hegemônico que sustenta a configuração específica sobre quem é homem, negando todos aqueles que se autoproclamam como tal, mas não cumprem os alinhamentos normativos. Nossas vivências são atravessadas por múltiplos marcadores estruturais que nos posicionam em lugares específicos e tramam relações, muitas vezes, desiguais.

Na saúde, isso não é diferente. Na rede de serviços, os homens se apresentam, principalmente, por questões relativas a causas externas ou sintomas acuminados de algum adoecimento. Prevenção é uma condição incomum na dinâmica de cuidado à saúde pelos homens, situação que é reflexo das estratégias ainda frágeis de integrá-los à rede de cuidado. Homens trans, gays e bissexuais ainda são pouco absorvidos pelos serviços e enfrentam discursos moralizantes e discriminatórios por parte de profissionais. Homens negros têm os seus atendimentos sem que se faça vista ao racismo e ao modo como ele impacta em sua saúde. Existe uma grande fragilidade na oferta de cuidado à população encarcerada e em situação de rua, o que intensifica o adoecimento dos homens (em sua maioria, negros) nessas situações. Além disso, na fragilidade do cuidado aos homens, opera-se a vulnerabilidade dos seus parceiros e parceiras. No que diz respeito às mulheres, questões da ordem de reinfecções sexualmente transmissíveis pelo não tratamento dos seus parceiros têm sido comuns, além do planejamento familiar que pouco absorve os homens para conduzir práticas de cuidado à saúde sexual e saúde reprodutiva em suas relações.

Como a saúde coletiva pode promover abordagens mais plurais sobre masculinidades e cuidado?

A saúde coletiva tem papel fundamental para conduzir novos olhares na produção do cuidado à saúde do homem e, principalmente, no impacto das masculinidades nesse processo. É preciso observar as estratégias de cuidado secundárias que têm garantido a saúde dos homens, bem como tecer críticas necessárias. É comum observar as discussões sobre a ausência dos homens nos serviços de saúde justificada pela sua dinâmica de trabalho, desconsiderando a presença das mulheres que, em sua maioria esmagadora, enfrentam triplas jornadas de trabalho. Nesta tripla jornada, muitas vezes, estão inseridos cuidados domésticos fundamentais que influenciam no bem-estar do homem, como alimentação e higiene doméstica. Assim, as mulheres conduzem os homens à sobrevivência básica a partir de um quadro machista de divisão sexual do trabalho. Outro fator importante é a construção de modelos de gestão que ampliem as noções de masculinidade e que ultrapassem o binarismo de gênero para pensar os espaços de saúde. A consideração de que os espaços de saúde são pouco masculinos pode sugerir mais a necessidade de construção de um espaço em que o homem pode reproduzir lógicas de poder do que de cuidado compartilhado em relação às suas fragilidades.

Como você percebe que os serviços de saúde lidam com outras experiências e expressões de masculinidade, em relação às suas demandas de saúde (por exemplo, de homens trans e outras populações)?

Na pesquisa sobre saúde dos homens trans, realizada em Salvador (BA), foi possível verificar múltiplos processos de deslegitimação de suas vivências ancorados em discursos biologizantes e religiosos, que operavam a partir de uma lógica transfóbica. Profissionais que se negavam a atender os homens trans, que não produziam cuidado compartilhado e, ao mesmo tempo, buscavam realizar uma espécie de “conversão de identidade de gênero” por meio de discursos religiosos. Além disso, quando se apresentavam com performance de gênero masculina baseada na cisheterossexualidade, profissionais do serviço criavam situações de constrangimento, chamando colegas para atestarem se acreditavam serem homens ou mulheres, ou mesmo dizendo que ser uma pessoa trans virou moda. Os serviços de saúde tornam-se, dessa forma, mais ostensivos e expulsam os homens trans da possibilidade de construção integral de cuidado.

Quais os reflexos da masculinidade impedem que os homens expressem seus afetos, sexualidade, angústias, medos e alegrias sobre a vida e a saúde das pessoas?

Temos na masculinidade uma sólida construção de um modelo que opera violências ao longo de séculos. Considerando a sua reprodução por homens que não estão alinhados ao padrão esperado, ela constitui uma das únicas formas para tornar uma pessoa reconhecida como homem, ainda que precariamente. Este é um modelo que tem perdurado em nossa sociedade e produzido os imaginários em torno do que é ser homem: forte, viril, reprodutor, violento, não-vulnerável. Com isso, sentimentos fundamentais como medo, tristeza, alegria e amor são ininteligibilizados, porque não condizem com o que é esperado pelos homens, dificultando a autorreflexão e o cuidado consigo e com as pessoas com quem se relaciona.

Porém, é preciso visibilizar modelos e ideias de masculinidade e de ser homem pouco conhecidas. Oyèrónkẹ Oyěwùmí nos ajuda a compreender esse modelo de gênero marcado por essencialismos biológicos e disseminado na cultura com divisões sexuais, afirmando existir modelos de gênero que socializam o poder e a chefia de homens e mulheres baseados em fatores geracionais e ancestrais. Raewyn Connell e Rebecca Pearse também apresentam exemplos de sociedades cujos homens não se constituem a partir da violência e da dominação, informando horizontes possíveis para outro tipo de sociabilidade e, necessariamente, de cuidado.

Acredito que precisamos ampliar esses modelos e ressignificar os sentidos sobre ser homem em nossa sociedade. Podemos reconstruir as masculinidades tomando o que já existe de enfrentamento em nosso território, a partir de encontros com as comunidades indígenas, quilombolas, nos terreiros de candomblé, nos assentamentos, nas periferias... Reconhecer quem tem proposto novos horizontes a partir de novas masculinidades e apostar na mudança. Traçar horizontes possíveis a partir das resistências e confrontar a dominação masculina a fim de construir uma sociedade justa a todas as pessoas, e isto passa necessariamente pelas construções dos homens negros, trans, gays, bi, pobres, periféricos, rurais e tantos outros que a dominação insiste em não reconhecer.

Como você próprio vivenciou a questão da masculinidade para além dos padrões?

Frantz Fanon afirmou que o homem negro não é homem diante do que definiu como “sistema da brancura”. Esta é uma elaboração árdua para quem busca o seu reconhecimento, quando se é negro, mas nos traz a consciência de que o que foi definido por humanidade e os seus crivos de reconhecimento constituem mecanismos de dominação, exclusão e violência. Foi preciso me engajar num processo de construção de outras vias para reconhecimento numa coletividade possível e isso não se dá exclusivamente por ser homem negro, mas homem negro cisgênero gay. A origem interiorana e classe média baixa também constituíram elementos de negação à minha existência como homem. Foi a partir do acesso a referências que fortalecem narrativas singulares e de coletividades, que propõem um horizonte com outro modelo de sociedade e sociabilidade, que tenho me apoiado. “Eu sou porque somos”, como orienta a filosofia Ubuntu.

No prefácio da minha dissertação sobre a saúde dos homens trans em Salvador, conto uma história pessoal de quando ainda era criança. Aos sete anos, passei a morar em Macaúbas, cidade do interior da Bahia. Na escola, uma turma de crianças me cercou para perguntar se eu era menino ou menina. Ao responder que era menino (algo que, na verdade, nunca tinha parado para pensar), recebi diversas chacotas. Fui lançado a me descobrir porque fui informado não ser quem eu cria ser. E assim, entre a performance não brutalizada, a construção da sexualidade, a negritude afirmada e a origem humilde, fui costurando formas diversas e me construindo o homem que sou. Teve machismo, reprodução de LGBTQIA+fobia, racismo... até encontrar as referências que me orientaram e me orientam. Entender as estruturas que se cruzam diversas vezes para produzir aniquilamento e insistir em confrontar.

E como sua própria pesquisa e atuação profissional ajuda a promover respeito aos diferentes modos de ser homem?

Hoje, vejo que meu trabalho consiste em adensar essa construção e ampliá-la, principalmente, para garantir acessos em outros espaços e de outras formas. Como psicólogo (e a minha vivência enquanto homem negro cisgênero gay também cria lentes em minha profissão), atuando com medidas socioeducativas em meio aberto, tenho trabalhado com jovens e suas famílias. Em sua maioria, são adolescentes negros cisgêneros moradores das periferias do município soteropolitano. Produzir estratégias socioeducativas para com esse grupo tem exigido a discussão sobre as masculinidades, em especial, construindo sentidos para as masculinidades negras e as questões de gênero, sexualidade e identidade de gênero. As violências sofridas e praticadas pelos jovens evidenciam contextos de alta letalidade, além de expor suas famílias. São mães que enfrentam as brutalidades das polícias e do tráfico em defesa dos seus filhos; companheiras que vivenciam um modelo de maternidade marcado por violações e violência, nomeado por Luciane Rocha como maternidade ultrajada; lutos de filhas e filhos, companheiras, mães e pais. Na vida íntima, embora os jovens possam performar a masculinidade a partir de outros signos, a violência tem sido marca constante, ratificando hierarquias de gênero, exposição ao risco em práticas sexuais desprotegidas e ausência de planejamento familiar assistido. Por tais razões, as estratégias que capitaneiam a discussão das masculinidades como via de lucro não alcançam tais realidades, uma vez que não pensam esses sujeitos, vistos como criminosos e inimigos.

Resistir, então, tem representado construir com os jovens e suas famílias as estratégias de sobrevivência diante do Estado necropolítico. Neste sentido, construir outras masculinidades não pode significar desprover os jovens das suas estratégias que, embora marcadas por violência, permitem o confronto com os equipamentos do Estado que não cessa de produzir mortes. É preciso construir caminhos para outras masculinidades garantindo a possibilidade de se viver plenamente. Ou seja, desfazer a cidadania precária e fadada à morte a qual a população negra tem sido exposta e repensar no fortalecimento de políticas públicas que se assumam contra a vigência necropolítica. E, se falo sobre as masculinidades com ênfase na população negra é porque, na radicalidade de atuar a partir dos grupos mais violentados e vulnerabilizados, movimentando a base social, produzimos caminhos para a reconstrução de toda a nossa sociedade.