Sonia Corrêa é feminista, investigadora associada do Departamento de Estudos de Gênero da London School of Economics and Political Science e autora de várias publicações na área dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Fotografia: Eduardo de Oliveira.

Tempo de leitura: 3 - 6 minutos

Entrevista | Sonia Corrêa

Setembro de 2018 | por Elisa Batalha

Em 2017 um ônibus-protesto circulou pela Espanha com os dizeres “Os meninos têm pênis, as meninas têm vulva. Não deixe que te enganem”. A organização internacional que planejou a campanha nomeou o veículo de “ônibus da liberdade de expressão”. No Brasil, a visita da escritora Judith Butler, estudiosa da teoria queer, também em 2017, foi acompanhada de protestos. No Chile, em 2018, três mulheres que se manifestavam pela despenalização do aborto foram esfaqueadas nas ruas de Santiago. Estas ações têm em comum o fato de atacar uma suposta “ideologia de gênero” e fazer campanha contra ela, associando-a a uma ameaça a valores da família. Para Sônia Correa, que atua no Observatório de Sexualidade e Política, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), é urgente olhar criticamente este fenômeno, que é seu objeto de estudo. “É uma agenda que ataca a educação sexual, os direitos das pessoas trans, a questão das novas estruturas de família e a identidade de gênero”, resumiu a pesquisadora em sua palestra sobre “Políticas Antigênero”, apresentada no Abrascão. Em entrevista à Radis, a investigadora associada do Departamento de Estudos de Gênero da London School of Economics and Political Science e autora de várias publicações na área dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres alertou que é preciso compreender a questão e “não achar que isso é mais do mesmo, do que já é conhecido do dogmatismo religioso, seja católico, seja evangélico, em relação a essas questões”.

O que você entende por “ideologia de gênero”?
Eu e outros pesquisadores estamos chamando de campanhas antigênero. Só se deve usar a terminologia “ideologia de gênero” entre aspas porque uma coisa importante é não replicarmos, não reproduzirmos a mesma semântica que os atores e forças envolvidos nas campanhas antigênero estão usando. Não devemos reforçar o campo semântico de quem tem feito ataques virulentos à democracia sexual e de gênero, às concepções mais abertas, plurais e plásticas de gênero e de sexualidade.

As campanhas antigênero são ataques aos direitos sexuais e reprodutivos?
Os direitos sexuais e reprodutivos têm uma pauta mais ampla. O ataque não é específico a direitos sexuais e reprodutivos, é a isso que eles conceberam como “ideologia de gênero”, e a dimensão de direitos como ao aborto é uma das pautas que sofrem ataque. É um ataque ao pensamento crítico sobre gênero. Quando essas forças fazem um ataque, elas não fazem um ataque a gênero formulado dessa forma, mas um ataque a algo que é plástico e um ataque fundamentalmente normativo — são normas da linguagem, são normas do Estado, ou seja, leis, que determinam essa construção. O que é muito importante nesse embate é saber de onde isso vem. Conhecer a genealogia disso, que é uma fabricação ideológica, e aqui eu não posso fugir do termo ideologia. Compreender que não é uma formação nacional, local, são formações nacionais com uma origem transnacional que, entretanto, assumem formas muito diversas em cada contexto. Essa fórmula fabricada permite isso porque é uma espécie de “cesta vazia” onde cabe muita coisa, com muita flexibilidade para se adaptar a contextos específicos.

Qual é a origem desse pensamento conservador? Como abordá-lo como objeto de estudo?
São campanhas, não são políticas locais, vinculadas a um tecido muito complexo de articulações globais, que tem no seu centro, na sua origem, aquela instituição transnacional que é a mais antiga da História que é a Igreja Católica. O Vaticano está no centro dessa elaboração de ideias e estratégias. Embora não seja uma campanha de um único ator nesse momento. Vem de uma elaboração de intelectuais católicos e papas, mais especificamente de Joseph Ratzinger (papa Bento XVI), que mesmo antes de ser escolhido papa já tinha feito essa elaboração, nos anos 90. Devemos entender do que se trata, tratar as campanhas antigênero como produção e objeto de pesquisa. Não é muito produtivo ter apenas reações “epidérmicas” [de repulsa, raivosas].

Quais são as pautas mais atacadas pelos formuladores desta “cesta”?
Os estudos sobre gênero estão no centro, mas estas campanhas têm permitido reunir uma série de agremiações, experiências, fatos políticos, não necessariamente associados, que passam pela educação sexual nas escolas e o casamento de pessoas do mesmo sexo. Esse guarda-chuva permite uma agenda ampla e flexível, que vai ser aplicada de diferentes maneiras em diferentes lugares. Eu acho que compreender isso, ter um entendimento, análise crítica, é o passo mais importante que temos que dar.

O campo da Saúde está preparado para compreender e enfrentar esse tipo de campanha?
No campo da Saúde, o tema das ciências biológicas e da biopolítica está no centro dos estudos, então certamente temos que refletir sobre isso. Porque um dos aspectos que apoia as campanhas e produções bibliográficas antigênero é um giro biologizante, um giro naturalizante, um apelo à “verdade da ciência”, especialmente da biologia, como âncora. Essas forças vão argumentar que o pensamento antigênero estaria de acordo com o que diz a ciência biológica. Uma concepção não dogmática da ciência, uma concepção democrática e pluralista é o caminho a se perseguir nesse debate. (E.B.)

Veja também:

• Único, mas ainda desigual
• Entrevista | Michelle Bachelet: "Nosso grande desafio ainda é a desigualdade"
• Desigualdade adoece e mata
• Racismo nosso de cada dia
• Entrevista | Emiliano de Camargo David: "É preciso racializar a história"
• Equidade e autonomia
• Entrevista | Sonia Corrêa: "Há um ataque ao pensamento crítico sobre gênero"
• O estigma do inimigo público