Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Aristides Dutra.

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Entrevista com Marinilda Carvalho

Das 100 edições de Radis, nada menos que 72 foram conduzidas pela jornalista Marinilda Carvalho, 42 anos de profissão e editora da revista até a edição 89 (janeiro de 2010). Seus anos de jornalismo e a experiência que adquiriu em veículos como o extinto Correio da Manhã e o Jornal do Brasil, as revistas Veja e IstoÉ e o Observatório da Imprensa, no entanto, não a pouparam do “choque sanitário” que representou sua entrada na Radis, em novembro de 2003: uma semana depois seguiria para a cobertura da 12ª Conferência. “Democracia em dose cavalar”, resume. Nesta entrevista para Radis, ela compartilha sua experiência com a revista onde se faz “jornalismo do bem, em sua função social, coisa que a imprensa comercial deixou de fazer há tempos”.

Como foi sua entrada na Radis?

Entrei em 23 de novembro de 2003 e tomei logo de cara um “choque sanitário”, porque no dia 7 de dezembro fomos cobrir a 12ª Conferência Nacional de Saúde — a Conferência Sergio Arouca, um dos pais da Reforma Sanitária, que havia morrido pouco antes. Tinha 33 anos de jornalismo na imprensa comercial, conhecia por alto o movimento sanitário, admirava o Arouca, mas nunca vi nada parecido.

Foi um choque mesmo, democracia participativa em dose cavalar. Achei que estava em outro país. Na volta, fechamos no tranco a edição nº 17, a dos idosos, e a garota da capa, como a chamou o Aristides [Dutra, editor de Arte], acabou fazendo sucesso com os leitores.

Como recebeu a ideia de editar a Radis, e quais eram suas expectativas?

Recebi com preocupação. Não tinha experiência em saúde, quanto mais em saúde pública, complicada, mesmo para um profissional comprometido com causas sociais. Isso ajudou, mas li e reli todas as edições anteriores, ficava até alta madrugada pesquisando na internet, “furei” o CD das publicações antigas do RADIS, de tanto que rodei. Não dava sossego ao Rogério [Lannes, coordenador do RADIS], que perdia horas contextualizando os fatos pra mim. Aprendi até depressa, mas foi um sufoco.

O que você diria que representa para um jornalista trabalhar na Radis?

Sem dúvida, fazer jornalismo do bem, jornalismo em sua função social, de serviço público, coisa que a imprensa comercial deixou de fazer há tempos.

Que ponto do processo de produção da revista considerava mais atraente?

Sempre adorei ler as matérias, mas o melhor momento eram as cartas dos leitores. Perturbava a redação lendo alto os trechos mais instigantes. O retorno do leitor é o grande barato da Radis.

Quais os principais cuidados a serem observados para editar a Radis?

Bem, não tenho regras a ditar, mas acho que tive algumas preocupações. Primeiro, reafirmar o lado da Radis. Percebi logo que a Radis tinha um lado, o da defesa das causas sociais e da saúde como direito de todos e dever do Estado, o do combate aos determinantes sociais da saúde. Depois, considerar o complexo público-alvo da revista. Que é lida na FSP/USP (fiquei amiga virtual do bibliotecário de lá, que nos pediu 30 exemplares para dar conta da procura) e no posto de saúde no interior de Rondônia (os agentes de saúde são fidelíssimos leitores). A redação tem que buscar equilíbrio de pautas e linguagem para nem sofisticar nem reduzir. Isso na forma. No conteúdo, o respeito à Constituição, aos princípios e às diretrizes do SUS, perseguidos religiosamente. Também perseguia furiosamente o erro zero. Não foi possível, daí ter publicado tantos “falha nossa!”. Por fim, respeitar o prazo de fechamento, pois entrega no prazo quer dizer apreço ao leitor.

Que balanço faz desse período?

O balanço é superpositivo, numa fase muito rica para a saúde pública. Nada como a democracia plena para que todas as forças da sociedade atuem. O movimento sanitário retomou o debate intenso de suas bandeiras e a revista não se omitiu nem no elogio aos avanços nem na crítica aos retrocessos das políticas públicas, com o governo imprensado entre a necessidade de fazer superávit primário usando para isso o contingenciamento das verbas sociais (que o diga nosso guru Gilson Carvalho), e a necessidade imperiosa de investir no social. Um assessor do Ministério da Saúde nos definiu uma vez como “fogo amigo”, um leitor nos chamou certa ocasião de publicação chapabranca. No balanço, algum equilíbrio.

E para o leitor, o que a revista procura representar?

Pois é, eis um problema sério. Houve um tempo em que a Radis era a única publicação que cobria os congressos, as conferências de saúde e áreas correlatas. Hoje, temos muitos sites cobrindo, mas publicação impressa mesmo pode ser que a Radis ainda esteja nessa posição solitária. Isso é muito triste. Em cada encontro desses, eu me perguntava como a imprensa pode não cobrir isso. É o Brasil destrinchado, fatiado e cortado em miúdos, é de interesse de cada brasileiro e estamos aqui sozinhos... Portanto, a Radis representa para o leitor a informação preciosa que ele não encontra em parte alguma. Quase choro quando penso nisso. (E. B.)