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Entrevista com Draurio Barreira

O investimento e o enorme esforço que os países terão que fazer para eliminar a tuberculose até 2035 nem de longe desanimam o médico sanitarista Draurio Barreira. Gerente técnico da Unitaid, organização internacional que promove acesso a medicamentos para o HIV/aids, a malária e a TB, Draurio atua há mais de 20 anos na área. Sua última posição no Brasil foi a de coordenador geral do Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde, cargo que deixou em novembro de 2015. A entrevista à Radis foi concedida no hall do hotel onde esteve hospedado em Guadalajara, durante a 48ª Conferência Internacional da União contra Tuberculose e Doenças Pulmonares, em outubro. Para ele, é fundamental diminuir a desigualdade, fome e miséria extrema como forma de conter a doença. “As intervenções de diminuição de desigualdade são mais importantes do que as intervenções sanitárias”, salientou.

 

Como o senhor analisa o cenário brasileiro?

No Brasil, as taxas de tuberculose vem caindo há 20 anos e é difícil calcular o quanto se pode atribuir essa melhora aos fatores sociais, especialmente nos últimos anos, e às ações especificas na Saúde, no diagnóstico e tratamento. É claro que elas são cumulativas, mas não dá para dizer qual é mais importante. As ações programáticas de controle da tuberculose e as ações de redução das desigualdades, como o Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo e o programa Minha casa, minha vida, entre outras, contribuem sinergicamente, cumulativamente, para reduzir a tuberculose, sendo difícil dizer qual é a contribuição isolada de cada ação. Minha impressão é que as intervenções de diminuição de desigualdade são mais importantes do que as intervenções sanitárias. Entendo que é fundamental diminuir a desigualdade, fome e miséria extrema. No passado, na Inglaterra, a tuberculose matava uma em cada quatro pessoas, antes da Revolução Industrial. A partir da melhora das condições de vida da população, a doença deixou de ser um problema de saúde pública, muito antes da existência dos antimicrobianos.

O Peru enfrenta uma epidemia de tuberculose multiresistente. Há riscos para o Brasil?

O Brasil oferece o melhor tratamento com acesso universal e gratuito e vejo que o SUS é uma vantagem incomparável. O tratamento da rede pública é padronizado, rigorosamente o mesmo em todo o país e todo fornecido pelo governo. Além disso, segue a norma nacional que preconiza as melhores práticas recomendadas pela OMS, e não a expertise do médico que atende a pessoa. Isso impediu que houvesse a disseminação da tuberculose resistente no país. Na Índia, que tem a carga mais alta do mundo, só 50% dos pacientes têm o medicamento gratuito. Não creio que o Brasil rume para uma epidemia de tuberculose resistente, mas a tendência é que ela se torne uma epidemia global. O mundo é uma grande aldeia e as pessoas circulam. Essa troca intensa, a cada dia maior, aumenta esse risco potencialmente também para o país.

Que tipo de tratamento o SUS oferece?

O que o SUS oferece e a OMS preconiza é o melhor tratamento possível dentro da evidência cientifica conhecida e que atende ao interesse de toda a população, não do indivíduo. Há um risco enorme embutido no discurso, já que ele permite que o médico adote esquemas terapêuticos baseados na sua experiência. Vai ser a experiência de um expert frente a experiência acumulada por toda a comunidade científica e validada. O diferencial do Brasil é que sempre adotou o regime padronizado que cobre todas as potenciais resistências do bacilo. Por isso a nossa resistência é muito baixa.

Há especialistas que defendem a medicina individualizada. Para você, qual dos tratamentos é o melhor?

O tratamento único, ofertado pelo SUS, realmente impede a liberdade e a adaptação às necessidades do paciente. Mas eu entendo que uma questão é ver o perfil de um paciente e recomendar que ele use três ou quatro drogas em vez de sete, no caso da tuberculose resistente. Outra é buscar o melhor do que se pode oferecer em termos de saúde pública para todos. Entendo que não é factível individualizar, já que são procedimentos muito caros. A tuberculose, na maioria dos casos, é uma doença de determinação social, e a resposta também deve ser basear no enfrentamento dessa determinação e com uma abordagem de saúde pública, não com uma abordagem individual do tratamento. Tratar o indivíduo é absolutamente necessário, mas tomar todas as providências para evitar a transmissão é fundamental.

Onde o Brasil precisa avançar?

Em alguns pontos, como o diagnóstico, que ainda está aquém do que necessita: mais de 50% dos casos no país são diagnosticados com microscopia: usando escarro, colocando na lâmina e olhando no microscópio. Esse é um método com sensibilidade em torno de 60 a 70%. Ou seja, 30 a 40% dos pacientes são perdidos na primeira visita. Além disso, em menos de um terço dos pacientes é feito cultura. Sendo assim, 70% dos pacientes são tratados empiricamente. As pessoas são tratadas sem padrão de resistência, elas sabem que é tuberculose, mas não sabem qual é o tipo. E tratam seis meses. Se não curar, faz a cultura, outro gargalo a ser resolvido. Creio que o país deve também adotar nova drogas. Há alternativas surgindo e o Brasil não pode ficar para trás e perder o protagonismo que teve durante décadas. Eu entendo que o país também precisa participar mais ativamente dos protocolos de pesquisa para inovação e a adoção das inovações, além de um fortalecimento diagnóstico. Outro ponto é melhorar o acesso ao serviço, pois não há microscópio em todos as unidades de saúde de periferias. Entendo também que a adoção da biologia molecular como método diagnostico deve ser expandida ao máximo.

Qual o panorama da tuberculose infantil?

Causa espanto quando citamos que o Brasil tem menos de 3% dos casos de tuberculose pediátrica em relação aos adultos. No mundo, esse percentual fica em torno de 10%. O que faz a diferença é a vacinação BCG, que é muito criticada sob vários aspectos, já que ela não protege contra todas as formas da doença. Mas é evidente que a vacina protege a tuberculose na infância. Não há muitas outras explicações, além da vacinação BCG que cobre 100% das crianças neonatas. No Brasil, toda criança sai do hospital vacinada. Outro ponto é que o tratamento ofertado aos adultos impede que eles transmitam para os filhos imediatamente, nos primeiros dias de tratamento. Eu jamais diria que a tuberculose pediátrica não é um problema, mas no Brasil eu creio que é um problema menor, se comparado a outros países. (L.M.)