Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Arquivo pessoal.

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Entrevista com Vinícius Rodrigues da Silva

Entre livros de química e de literatura, na mesa de Vinícius Rodrigues da Silva (https://medium.com/@viniciuxdasilva), estudante de 19 anos no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) campus Nilópolis, destaca-se um tema que desperta seu interesse: a busca por outras masculinidades. Leitor e tradutor de textos de bell hooks [pseudônimo da feminista Gloria Jean Watkins, grafado assim em minúscula], ele defende uma forma mais afetuosa de ser homem. “É preciso que os homens repensem seus papéis”, destaca. Segundo ele, a construção de uma masculinidade que “limita” os homens têm reflexos principalmente para aqueles que fogem dos padrões (cis, héteros, brancos, ocidentais). “Em uma sociedade patriarcal, há uma masculinidade esperada. Para homens negros gays, como eu, tem sido difícil viver publicamente, pois vivemos um Brasil muito perigoso para os nossos”, aponta. Ele conversou com a Radis sobre masculinidade tóxica, LGBTIQA+fobia e a busca por amor “para romper com a sociedade patriarcal”.

 

Primeiro, conte um pouco de sua história, sua trajetória de estudos, seus projetos para o futuro.

Eu sou estudante de Controle Ambiental (nível técnico) no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) campus Nilópolis. Desde 2017, venho pesquisando, com orientação de alguns professores, temas relacionados à minha área, mas de vez em quando ouso estudar algo além. Em 2017, tive a oportunidade de fazer uma Iniciação Científica em Filosofia Política e creio que esses estudos moldaram parcial ou completamente as minhas concepções hoje. Já em 2018, estudei um pouco de Filosofia Africana e tive uma oportunidade de aprofundar meus estudos sobre masculinidades também. Ainda em 2018, fui monitor do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual do IFRJ campus Nilópolis, coordenado pela professora Roberta Cassiano, e desde então, tenho me dedicado exclusivamente à minha área (onde pesquiso a obtenção de biocombustíveis a partir de matérias primas de baixa qualidade e as interseções entre poluição ambiental e racismo ambiental) e a tradução, sobretudo, de textos escritos por pessoas negras, dentre elas bell hooks, Renata Felinto, Andre Brock, etc. Futuramente, pretendo seguir minha área de formação, mas jamais abandonando esse debate tão importante que venho fazendo sobre gênero e oportunidades de construir novos amanhãs.

Para você o que é ser homem? Como você vem construindo sua relação com a chamada masculinidade hegemônica?

Essa pergunta sobre o ser homem é especificamente difícil para mim, talvez um psicanalista ou sociólogo consiga responder melhor que eu. Historicamente, a construção do masculino tem passado por inúmeros ritos de violência e demarcação, no que tange o papel assumido por homens hoje em nossa sociedade e é exatamente isso que me preocupa. Como nós, homens, estamos construindo a nossa própria subjetividade. Visto que estamos vivendo em uma sociedade fortemente patriarcal, há uma tendência a construirmos nossas masculinidades de acordo com esse sistema, esse modo de vida. Essa masculinidade, que a bell hooks chama de “masculinidade patriarcal”, é construída com base em relações de violência, de outridade, relações hierarquizadas. Particularmente, tenho tentado construir meus modos de vida longe dessa concepção violenta de masculinidade, onde eu precisaria exercer um papel de dominação. É isso que eu chamo de masculinidade hegemônica e penso que é isso que temos que combater.

Que dificuldades você enfrenta e que pressões já sofreu (familiares, na escola, na sociedade) por conta da sexualidade, da orientação sexual e simplesmente por ser um “menino diferente”?

Como disse, em uma sociedade patriarcal há uma masculinidade esperada. Os atores sociais propagam essa concepção, isso nos fica claro em comerciais de TV, em novelas, em programas televisivos, em igrejas, etc. Essa repetição de atos, acredito, contribui para a construção de um padrão. Esse padrão é a masculinidade patriarcal. Homens que não se encontram dentro dos padrões [cis, héteros, brancos, ocidentais] enfrentam algumas dificuldades em sua trajetória. Para homens negros gays, como eu, tem sido difícil viver publicamente, pois vivemos um Brasil muito perigoso para os nossos. O Brasil é, hoje, um dos países que mais matam pessoas negras e LGBT+s no mundo. As estatísticas não param de crescer. Além disso, o Brasil também é um país que encarcera em massa a população negra. Nesse contexto, performar uma masculinidade fora dos padrões, sobretudo para homens negros, não é algo confortável a se fazer, mas também não é algo impossível. Acredito que devemos tentar e aos poucos lutar contra esse quadro.

E como é sua vivência no espaço escolar?

A escola é um lugar cruel para aqueles que não performam uma masculinidade esperada. E isso acontece com muitos garotos jovens. Coleciono inúmeros episódios de repressão no ambiente escolar; nesse sentido, o Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual do meu Campus tem sido a instância que nos apoia. É na escola que aprendemos sobre cores e seus usos, sobre papéis de trabalho e é onde construímos um imaginário. Eu sou um homem jovem, tenho 19 anos, e acredito que esse é o momento onde devemos nos “mover contra a correnteza”, nos posicionar contra a cultura dominante. Somos jovens e, por isso, temos mais abertura para alguns espaços. Devemos ocupar esses espaços para a propagação de uma nova masculinidade, que seja humanizadora e não-violenta. É isso que eu venho discutindo em alguns espaços. É isso que eu tento expressar no texto Masculinidades feministas e não-violentas. A noção de uma masculinidade feminista é de bell hooks que, no livro The Will to Change, conclama a construção de um novo modelo de masculinidade e que ele seja oposto à masculinidade patriarcal. O uso da palavra “feminista” aqui não é um esvaziamento do movimento feminista. Trata-se da incorporação do que o feminismo significa para hooks: “o feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, exploração sexista e opressão.” Nesse sentindo, a construção de masculinidades feministas, sobretudo para homens negros, é algo importante e que nos permite imaginar um novo amanhã. Essa é a história que eu gostaria de contar a meus netos. Esse é o nosso desafio.

Você pode citar alguns exemplos de repressão que tenha sofrido?

Em 2017, quando eu estava participando de um ensaio fotográfico para o II Dia da Visibilidade LGBT+ do IFRJ, estávamos passando pelo corredor, tirando algumas fotos e um funcionário da instituição sussurrou algo do tipo “todas as cores são de deus”, em tom de repressão, em alusão às cores da bandeira que eu segurava. Levei o caso para meus superiores, mas a instituição não tomou nenhuma medida e o funcionário está ativo até hoje. Esse foi um episódio que me marcou profundamente, mas através dele eu pude entender como as relações institucionais funcionam. Infelizmente aprendi assim, mas o meu trabalho como monitor do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual era justamente impedir que novos alunos passem por isso.

Você acha que os homens são preparados para lidar com a questão do afeto? A gente vive escutando “Homem não chora”, “Homem tem que ser durão”, “coisa de mulherzinha”, negativando o afeto como algo feminino. Pra você, o afeto é importante? Como você busca ser uma pessoa mais amorosa e afetiva?

Percebo que não, mas isso não significa que não há homens que não conhecem o amor. Essas frases e estigmas já internalizados no imaginário social só reforça a noção de uma masculinidade patriarcal. Acredito que para romper com esse cenário, precisamos, necessariamente, de afeto. Nesse sentido, ler bell hooks me fez uma pessoa muito mais afetuosa e, através de sua leitura, pude perceber a real importância do amor. Discuti isso em Políticas do amor e sociedades do amanhã, onde proponho a centralidade do amor e das relações comunitárias na construção de um novo amanhã. Gosto bastante da discussão sobre novos amanhãs, é algo que me deu esperança. E não só lendo a bell hooks, mas lendo mulheres negras, essa esperança se intensifica. Isso é importante. Há algo que eu não disse no artigo, mas gostaria de reforçar aqui: na construção de um novo imaginário social, é preciso que os homens repensem seus papéis; e aí entra a discussão da masculinidade feminista.

Na sua opinião, essa imposição de padrões pode adoecer as pessoas, como levar à depressão, infelicidade, até mesmo suicídio?

Sim, infelizmente. Definitivamente eu não sou a pessoa que mais sabe sobre isso, mas eu percebo que essa “padronização”, digamos, causa uma sensação de não-pertencimento e isso pode contribuir e agravar quadros de depressão ou ansiedade. Creio que isso não as causa diretamente, mas pode contribuir. A sensação de não-pertencimento é cruel e, às vezes, a única saída que a pessoa pode pensar é o suicídio, infelizmente.

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