Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Alessandra Mendes.

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Comunicadora popular e integrante de coletivos que atuam na periferia de Recife, Yane Mendes conta como a favela vem enfrentando a pandemia

No lugar da linguagem burocrática, convencional e, por vezes, elitista das campanhas institucionais, ela cria cartazes no estilo papo reto, sem eufemismos. Em vez de cruzar os braços, assina um manifesto pela vida das mães diaristas —  como a sua — e lança campanhas para arrecadação de alimentos e kits de limpeza. E se o caso é usar a hashtag #FiqueEmCasa, uma utopia para muitos, prefere antes engrossar o coro de #CoronaNasPeriferias. É assim que a nossa entrevistada tem respondido aos dias de quarentena, desde que a pandemia mudou a rotina dos brasileiros e revelou-se uma violência a mais a ser enfrentada pelos moradores de comunidades vulneráveis.

“Sou Yane Mendes, jovem, preta e favelada, da favela do Totó, em Pernambuco”, ela se apresenta, logo no começo da conversa com a Radis. Para esta comunicadora popular, a pandemia escancarou as desigualdades no país e a melhor maneira de vencer o isolamento — apesar de uma aparente contradição em termos — é com ações coletivas. Ao lado de dois amigos — Nanda Paixão e Rick Almeida —, Yane criou a Rede Tumulto, um grupo de comunicação e produção de conteúdo para periferias, e integra pelo menos outras três iniciativas de articulação entre favelas. “As pessoas estão tendo que fazer escolhas: ou eu compro material de higiene ou eu compro comida.”

Fotografia: Alessandra Mendes.

Yane Mendes (de camiseta preta e máscara cor-de-rosa), Karolayne Beatriz, Danilo Mendes, Henrique Matheus, Aline Mendes, Willian Anthony e Edilene Mendes em uma ação de comunicação da Rede Tumulto

Como você descreve a favela onde mora?

Pelos últimos dados, a favela do Totó tem um pouco mais de 2.500 moradores e a gente conta com um complexo prisional, na comunidade, de três presídios com uma superlotação de quase sete mil homens. Então, quando a gente fala sobre a quantidade de pessoas que ocupam a favela do Totó, sempre fico em dúvida. As pessoas ignoram que a gente tem quase sete mil pessoas dentro do complexo prisional instalado nesse bairro. A favela do Totó é sempre muito movimentada, assim como são as várias periferias da cidade. E fica bastante afastada, a quase uma hora, do centro de Recife. Então, é ainda mais abandonada — quanto mais afastadas do Centro, menos olhadas e mais abandonadas são as comunidades pelos poderes e órgãos públicos.

Como a pandemia atinge a favela do Totó? Que alterações você percebe no dia a dia da comunidade e na vida dos moradores do seu bairro?

O que eu tenho visto de alteração é a expressão de preocupação das pessoas. As pessoas que sempre tiveram suas dificuldades, hoje estão lidando com um inimigo que não é visto. Pra quem já vivencia tanto a violência, é muito difícil acreditar que existe agora mais uma maneira da gente morrer. Porque na periferia a gente já tem medo de morrer de fome, a gente já tem medo de precisar de um serviço precarizado do SUS, como ele está hoje, a gente já vive sempre sobrevivendo, nunca vivendo. A pandemia bate na favela de uma maneira diferenciada, talvez não tão desesperador como é pra classe média, porque para a gente nunca foi garantido esse direito de ficar dentro de casa. A gente costuma conversar muito e dialogar sobre o direito à prevenção. A gente queria o direito de se prevenir. Porque aqui, a maioria das pessoas não trabalha com carteira assinada e, agora, ou está recebendo com desconto, quando o trabalho é informal mas tem um patrão, ou está sem conseguir fazer sua atividade remunerada. E aí estão com a mão na cabeça preocupados porque as contas não param de chegar.

Como as periferias têm se comportado diante dessa impossibilidade de ficar em casa?

É o medo de morrer de fome que está fazendo as pessoas saírem de casa e até um pouco negligenciar toda a ação de cuidado. Essa hashtag #FiqueEmCasa é uma hashtag muito elitizada e que, como outras coisas, filtra bastante as pessoas. Na favela, essa é uma realidade utópica. Esse isolamento social também nos é negado. Acho que finalmente estão vendo que somos nós da periferia que movimentamos tudo. A gente que vai na padaria fazer o pão para a classe média ir lá comprar. A gente que precisa acordar três vezes mais cedo para pegar dois ônibus e ir pra casa de uma patroa. Estamos vivenciando uma crise e um impacto econômico muito grande. É como se antes as coisas fossem difíceis e agora, mais difíceis ainda. As periferias reagem de maneira diferente. Em algumas delas, principalmente, na zona Norte aqui de Recife, tá tudo funcionando normalmente. As pessoas estão nas ruas. Os comércios pequenos têm que abrir porque são pequenos empreendedores que vendem para poder comer naquele mesmo dia. Na favela do Totó, muitas pessoas trabalham na Feira de Cavaleiro [em Jaboatão dos Guararapes] e, com a feira fechada, as pessoas não conseguem ganhar os seus trocados. Mas muitos insistem em ir até lá trabalhar porque precisam. Principalmente, as famílias que têm mais de quatro pessoas dentro de casa. Imagine uma casa pequena, um calor enorme e aí você não pode ligar um ventilador porque a conta de luz vem mais alta do que o normal... A estrutura geográfica de nossas favelas não é desenhada pra gente ficar dentro de casa. Não conseguimos. Isso vai afetar inclusive a saúde mental também dessa população. Esse cuidado com a saúde mental, que também já nos é negado e negligenciado, será ainda mais impactado com tudo isso.

Fotografia: Alessandra Mendes.

Fotografia: Alessandra Mendes.

Fotografia: Alessandra Mendes.

Quais os cuidados possíveis em uma realidade onde falta água para higiene das mãos ou dinheiro para álcool em gel?

Essa é uma das questões que a gente vem tratando bastante: o direito à prevenção, entendendo que muitas comunidades não têm nem o direito à água. Tem comunidades inclusive que nem têm saneamento básico. Então, fica bem difícil porque a gente não tem acesso à maioria dos métodos de prevenção que estão sendo divulgados pelos meios de comunicação. Se não temos direito à água, se muitas vezes não temos sabão, o álcool em gel, nem sonhando... Poucas são as pessoas na minha rua que tem 20 reais pra dar numa garrafinha de álcool em gel. As pessoas estão tendo que fazer escolhas: ou eu compro material de higiene ou eu compro comida.

Como sobreviver ao vírus e para além do vírus?

A gente luta por esse direito à prevenção, inclusive teve um documento que foi escrito pela Frente Corona nas Periferias — um grupo que reúne comunicadores de periferias e favelas de todo o país — e que fala sobre todas essas questões que não estão sendo olhadas dentro desse desenho de pandemia.  [Leia a íntegra do documento aqui: https://bit.ly/2VoBbjX]. Como é que as pessoas que precisam realmente sair pra trabalhar estão fazendo? Ou o que fazer quando precisamos sair para comprar alguma coisa na hora que conseguimos um trocado? A gente sabe que é certo chegar, tirar logo a roupa e lavar essa roupa, mas é impossível, por exemplo, numa comunidade como o Totó, em que água só chega de quatro em quatro dias, seguir essa rotina. Nesse grupo Corona nas Periferias, a gente está dividindo as estratégias que estão funcionando nas favelas Brasil afora, aí pensamos: o que eu posso espelhar e trazer pra minha favela, entendendo que cada um de nós tem a nossa identidade dentro das periferias. Mas pensamos: o que pode funcionar? O que tá acontecendo na Maré que eu podia puxar e inventar no Totó? O que tem no Totó que eu posso levar para um outro estado ou um outro bairro?

Quais são essas respostas? Que alternativas vêm sendo criadas pelos próprios moradores ou coletivos que atuam na sua região?

Muitas questões levantadas agora na pandemia (porque a desigualdade que a gente vivencia está sendo desmascarada) já existem há muito tempo nesses lugares periféricos. Ou seja, a gente dá um jeito de sobreviver. Por exemplo, quando não tem nada dentro de casa, poder falar com o amigo que tem pouco e ainda assim ele divide. Ou: acabou o gás, como é que faz uma cotinha pra fortalecer aquela pessoa? Acho que isso sempre teve que existir nas nossas vidas, não é algo novo. Então, a gente está fortalecendo as redes que já existem e expandindo essas estratégias diárias. O problema é que a fome está chegando de uma maneira absurda. Ela nunca deixou de existir. Mas a gente está vendo as pessoas desesperadas — de-ses-pe-ra-das — ao ponto de daqui a pouco ter que saquear o mercadinho. E isso é tudo o que o sistema opressor quer: ter uma desculpa para fortalecer o encarceramento em massa. Porque a gente sabe que muitas pessoas estão na cadeia porque cometeram esse tipo de crime, de pegar uma comida, de pegar o que seria básico no desespero.

Fotografia: Alessandra Mendes.

E como vocês dos coletivos vêm produzindo conhecimento de forma a contribuir com soluções para as comunidades das favelas e periferias?

Também faço parte do coletivo “Pela vida de nossas mães”, um grupo de filhas e filhos de empregadas domésticas que se reuniram depois que teve aquele caso da empregada doméstica que faleceu de covid-9 no Rio de Janeiro. Lançamos uma carta-manifesto [Leia aqui: https://bit.ly/2V6w4WU], com um abaixo-assinado, onde a gente pontua uma série de questões referentes a esse direito à quarentena remunerada a que pouquíssimas mulheres empregadas domésticas e diaristas têm direito. Minha mãe mesmo é diarista. Das casas que ela trabalha, só duas remuneraram — uma dispensou ela total, e a outra tá querendo que ela vá e ela vai, uma vez na semana. Essa frente está pedindo que as pessoas entrem como colaboradores, fazendo a inscrição também de algumas trabalhadoras domésticas e diaristas pra que a gente consiga fortalecê-las. A gente segue fazendo essa ponte. É isso que o movimento está fazendo. E ainda tem as ações da Rede Tumulto.

Na Rede Tumulto, vocês trabalham com ações específicas de comunicação. Como tem funcionado?

Nós somos um grupo de comunicação e articulação em favelas, mas como o nome mesmo diz, funcionamos em rede por ações separadas. Trata-se de uma rede de produção de conteúdo de jovens da periferia, onde a gente usa a linguagem da favela, mais direta, com mensagens curtas, e sai colando esses recados ao lado dos cartazes oficiais, que têm linguagem mais técnica, em alguns pontos dos bairros e do comércio. Procuramos usar a comunicação de uma maneira efetiva e propositiva dialogando para fomentar essa rede e conseguir também alimentos pra distribuir entre as periferias. E eu acho que é um resultado positivo até maior do que a expectativa que a gente tinha. Fazemos vaquinhas [Veja aqui: http://vaka.me/997637]. Essas redes de coletivos acabam sendo uma rede de combate à fome”. Mais do que nunca precisamos fortalecer os coletivos que trabalham nas periferias, em diversos territórios; as campanhas para arrecadação de alimentos; as tentativas de conseguir fundo emergencial; a troca de ideias. Assim, acabamos fortalecendo uns aos outros.

Qual o papel dos coletivos que já existem e estão se organizando no combate ao vírus diante da guerra de informações que vivemos hoje?

Além de desenvolverem essas ações que falei há pouco, acho que os coletivos de periferia têm uma importância ainda maior, no sentido de que a gente tem que registrar a memória do que a gente vem fazendo, sabe? A gente precisa deixar registrado como a favela enfrentou tudo isso. Não são os 600 reais de um auxílio emergencial de três meses que vão salvar a gente. Isso já começou há algum tempo. A gente já vem lutando para se prevenir, a gente já vem se fortalecendo e isso tem que ficar creditado à periferia. Cada periferia precisa registrar e também cobrar do Estado que trate a gente como cidadãos. Então, ao mesmo tempo em que a gente faz e deixa demarcado que fomos nós os próprios favelados que estamos fazendo por nós mesmos, a gente também tem que criar documentos para denunciar esse abandono do Estado para com as periferias. Essa desigualdade está cada vez mais escancarada. Por exemplo, essa é uma doença que, se tivesse marcado a periferia antes de chegar na classe média, não teria 10 minutos numa TV aberta. Enfim, é preciso tratar com a seriedade que o assunto exige e informar também sem adoecer. Informar sem o pânico. A gente já vive um momento de pânico, a gente convive com a violência o tempo todo, com violências diversas, que não pararam de acontecer por conta do coronavírus. Então, a gente está vivendo tudo muito misturado. Acho que o nosso papel de comunicador também é o de informar, tirar as dúvidas, desmascarar as fakenews, escutar o outro mais do que nunca. Mas talvez pensando em agir de uma maneira mais micro. Se eu conseguir comunicar pros meus dois vizinhos, eles comunicam pra família deles, que vão comunicar pra outras pessoas. Porque as vezes a gente tem uma expectativa bem maior, mas essa expectativa macro muitas vezes não dialoga, não chega na minha mãe, não chega na minha vizinha.

Ouça um trecho da entrevista com Yane Mendes.