Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Acervo pessoal.

Tempo de leitura: 3 - 5 minutos

A rotina de Ana Iara de Souza, uma agente comunitária de saúde na Baixada Fluminense, na luta contra a covid-19

Pelas ruas do bairro da Prata, em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense, Ana Iara de Souza segue seu percurso de visitas domiciliares, mesmo em tempos do novo coronavírus. Prancheta na mão e máscara no rosto, a agente comunitária de saúde anota casos de pacientes que relatam sintomas semelhantes ao da covid-19 e repassa para a equipe de Saúde da Família. Medo de se contaminar? Existe, mas ela toma as medidas necessárias para se prevenir. Quando houve a confirmação de transmissão comunitária no estado do Rio de Janeiro, em março, Ana relata que os equipamentos de proteção individual (EPIs) não chegavam em quantidade e qualidade suficientes, principalmente para os agentes comunitários de saúde (ACS) e agentes de combate a endemias (ACE). “A princípio eram poucos EPIs, não dava conta, mas lá estávamos nós na linha de frente. Esse fato gerou medo, angústia e muita insegurança dos profissionais”, conta.

Agente comunitária há 10 anos, e atualmente estudante do curso técnico em ACS da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Ana acredita no potencial transformador da educação em saúde, mesmo com as dificuldades agravadas pela covid-19. “O cuidar precisa ser consciente com ações produtivas que farão sentido na vida de quem o recebe”, pondera. Por isso, ela escuta, acolhe, orienta. Segundo ela, no contexto da pandemia, os ACS são essenciais para a coleta de dados sobre casos suspeitos e para garantir a continuidade das visitas domiciliares. Sobre o futuro, ela evita cogitar. “Tento não pensar muito no que está por vir. Isso gera ansiedade e pode acometer minha saúde emocional”, reflete.

Como sua rotina de trabalho foi alterada pela pandemia de covid-19?

A rotina tornou-se extremamente complexa. A princípio, dúvidas e medo em relação à atuação profissional, assepsias e organização do trabalho voltado para o contexto. Considero que as visitas domiciliares foram a parte mais afetada: realizá-las sem proximidade, e sem acesso ao interior dos domicílios, é um distanciamento de vínculo. Entendo perfeitamente a necessidade dessa ação, porém é um momento em que o ser humano carece de estreitamento nas relações.

Que dificuldades são vivenciadas atualmente, pelos agentes de saúde, no contexto da pandemia?

No início, quando houve a confirmação de transmissão comunitária no estado, as dificuldades eram de acesso às informações com rapidez, sobre contágio, prevenção e promoção à saúde. Hoje, não naturalizamos a realidade da covid, mas entendemos e compreendemos que somente as ações de prevenção, principalmente ligadas à higiene, não darão conta da realidade. Convivemos com dificuldades estruturais, por conta do acesso aos serviços de saúde que no momento estão colapsados; administrativos, pela dificuldade de informações e orientações específicas para a metodologia do trabalho na ponta, na atenção primária, que não tem chegado em tempo hábil; e emocional, pois esse contexto tem exigido um comportamento individual. Na prática, a inexistência desse comportamento nos afeta. Um exemplo típico é que as pessoas querem se aproximar sem máscara e têm dificuldade em adotar as orientações de higienização. Sem falar no social, que precisa ser pensado, pois faz parte de um contexto que está diretamente ligado ao serviço do agente comunitário, pois temos acesso a trabalhadores autônomos que estão sobrevivendo em meio a tudo isso.

E o que tem ajudado nesse momento?

Como trabalhadores promotores de saúde populacional, vivenciamos a dificuldade diária da população. Admito que essa compreensão que estou desenvolvendo não tem sido fácil. Por isso tenho apoiado minhas considerações no que tenho aprendido no Curso Técnico de Agente Comunitário de Saúde (CTACS) oferecido pela EPSJV/Fiocruz. O cuidar precisa ser consciente com ações produtivas que farão sentido na vida de quem o recebe. Tenho refletido sobre e me esforçado para colocar em prática essas ações em minha atuação.

O que passa pela sua cabeça, entre angústias, estresse, preocupações e dificuldades para as próximas semanas ou meses?

Uma mistura de sentimentos me assola. Existem dias que me sinto angustiada pela situação do próximo, seja pela perda de um familiar, internação, falta de alimentos ou do elementar às vezes. São muitos relatos que chegam até mim. Em outros momentos, é possível estar feliz, realizada por ações profissionais e até pessoais, sejam de ajuda física ou psicológica. Tento não pensar muito no que está por vir. Isso gera ansiedade e pode acometer minha saúde emocional. Mas expectativas existem. Do lado negativo, o sistema de saúde parece estar na UTI. Na verdade, essa pandemia apenas revelou de forma clara a grave situação da saúde pública no Brasil tanto em nível estrutural como administrativo, o que de certa forma estava camuflado. E me pergunto como será se mais pessoas adoecerem. Vamos nos prevenir. Oriento e envio mensagens, em rede social, como uma forma de contribuição. Eis o medo de perder mais alguém. Do lado positivo, tudo vai passar, precisamos avançar, é necessário ajudar uns aos outros da forma que puder nos manter vivos e com a mente sã. Esse tem sido o meu lema.

 

Como se dá o acesso a equipamentos de proteção individual (EPI), testes e outros insumos por parte dos agentes?

Tem sido precário em relação a tempo de entrega e ao quantitativo. O tempo porque é de médio prazo e quantitativo porque não tem sido suficiente para a realização das trocas regulares. Tratando-se de uma pandemia com transmissão comunitária e considerando o nosso trabalho com a população, com contato com muita gente, o acesso aos EPIs foi demorado. A princípio foram poucos EPIs, não dava conta pela logística do trabalho, eram insuficientes. Mas lá estávamos na linha de frente. Esse fato gerou medo, angústia e muita insegurança dos profissionais. À medida em que as semanas passaram, foram adquiridos mais insumos e de melhor qualidade e quantidade.

Na sua visão, qual é o papel dos agentes comunitários de saúde nesse momento? O que há para fazer e quais as limitações?

Nesse momento, o papel dos agentes comunitários de saúde (ACS) tem sido de orientação e suporte aos cadastrados através de informação. No contexto da pandemia tem sido possível fazer visitas domiciliares diferenciadas do padrão comum com restrições e estabelecendo critérios, atendimento a pessoas com comorbidades crônicas e vacinação da campanha da gripe em cadastrados domiciliados e acamados. Os demais estão sendo monitorados por telefone, a fim de respeitar o distanciamento, inclusive os casos suspeitos de covid. Quanto às limitações, permanece a fragilidade emocional por ambas as partes (profissionais e cadastrados) e em saber administrar, neste caso os profissionais, o quantitativo reduzido de EPIs que tem sido oferecido.

Como os agentes são vistos nos serviços de saúde? Você acredita que contam com o suporte adequado para trabalhar?

Nesse momento de pandemia, acredito que somos vistos como elementares para a coleta de dados quantitativo do número de casos suspeitos da covid e números de visitas domiciliares. Mas não temos o suporte adequado. Quando falo de suporte, falo de algo abrangente, no que diz respeito ao psicológico, infraestrutura e acesso a orientações específicas. Por vezes ocorre a fragmentação de informações, a utilização de estratégias equivocadas — considerando a realidade local, a metodologia e a utilização precisam ser contextualizadas. Principalmente nesse contexto atual são fatores altamente desestimulantes para a eficácia de um trabalho de qualidade.

Como a covid-19 afetou seu território? E quais as dificuldades enfrentadas pelas pessoas, para manter o distanciamento social e mesmo para os cuidados com higiene, por conta das desigualdades sociais e problemas de saneamento básico, por exemplo?

Fiquei assustada com o aumento do número de casos. Algumas pessoas não querem relatar sequer se tem sintoma gripal, acredito que seja medo e sentem-se excluídos. Outros estão com vários sintomas, mas por vezes ignoram as orientações para procurar o serviço de saúde nos níveis secundário e terciário, pois alegam que não terão atendimento adequado. O problema maior tem sido no comportamento individual e higiene. Essa população tem me levado a acreditar que não se trata de problemas na saúde pública e sim de cunho político. Já escutei relatos como: “esse vírus é desculpa para ganhar conseguir dinheiro”, “Todo diagnóstico será covid”, “Não existem mais doenças além de covid”.