Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Arquivo pessoal.

Tempo de leitura: 8 - 16 minutos

Entrevista com Fernando Aguiar

Para despir as armaduras que afastam os homens dos afetos e dos cuidados com a própria saúde, o grupo “Homens em Conexão”, de Brasília (DF), escolheu o caminho do diálogo. Nascida em 2017, a iniciativa promove encontros entre homens de todas as idades, credos, orientações sexuais, classes sociais e visões de mundo. O objetivo do projeto, como explica Fernando Aguiar, um de seus coordenadores, é reconhecer os efeitos nocivos da cultura machista para todas as pessoas — e permitir a construção de espaços de confiança e amorosidade entre os homens. “O machismo e o patriarcado estão matando homens, mulheres e todo o planeta”, afirma. A imposição de um determinado padrão sobre ser homem forma “soldados de guerra” e não seres humanos. Segundo ele, os homens precisam dar “os passos possíveis para construir uma nova maneira de estar no mundo que seja mais respeitosa com todos os envolvidos”. “Precisamos, primeiro de tudo, reconhecer o tamanho do buraco no qual nos enfiamos nessa tentativa de ser esse estereótipo de homem”, destaca. Fernando é mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e psicoterapeuta corporal. Em entrevista à Radis, ele falou sobre a busca de masculinidades mais saudáveis por meio da escuta, dos afetos e do diálogo.

 

Como surgiu o grupo “Homens em Conexão”?

O Homens em Conexão surgiu a partir de um encontro, em junho de 2017, para assistir ao documentário “The Mask You Live In” [A máscara em que você vive]. Nesse dia, os 40 homens presentes decidiram continuar em contato para aprofundar as conversas e discussões suscitadas pelo filme. Criamos um grupo de WhatsApp com o nome “Homens em Conexão”, no qual começaram a acontecer partilhas sobre os homens, suas dores, conflitos, medos e dificuldades. Também surgiram pedidos de ajuda, apoio e orientação. Ainda foram feitas propostas de encontros diversos, com atividades como corrida no parque, trilha no cerrado, bate papo em bares, brincar de bumerangue na Esplanada dos Ministérios, dentre outras.

Em outubro de 2017, eu estava na Austrália participando de um encontro de homens chamado Menergy, e ao partilhar brevemente a experiência com o grupo, fui provocado pelo Fábio Barros a realizarmos algo semelhante no Brasil. Ao retornar à Brasília, convoquei uma reunião para sondar a possibilidade de realizarmos um encontro semelhante ao Menergy (que acontece durante 3 noites e 4 dias). Após algumas reuniões, formamos o que ficou conhecido como a primeira Comissão Organizadora, um grupo de 9 homens que estavam comprometidos a realizar um encontro de homens em Brasília a partir da inspiração do Menergy.

O grupo “Homens em Conexão”, de Brasília (DF), promove encontros entre homens de todas as idades, credos, orientações sexuais, classes sociais e visões de mundo.

Fotografia: Divulgação.

E qual é a proposta do grupo?

Um encontro de final de semana inteiro parecia um tanto ousado, então decidimos fazer inicialmente encontros menores, para sondar se havia demanda de fato. Fizemos um primeiro encontro em abril de 2018, que durou um dia inteiro, e cujo objetivo foi conectar os diferentes grupos de homens que já aconteciam em Brasília. Tivemos 55 participantes, alguns deles participando pela primeira vez de um encontro de homens. Nesse momento ficou claro que poderíamos sim seguir adiante com a proposta do que seria o Primeiro Grande Encontro. Nesse processo o Homens em Conexão foi se estruturando, e estabelecemos uma proposta de realizar dois encontros abertos (com duração de 4 a 6 horas) e um Grande Encontro (que começa sexta às 17h e termina domingo às 17h) por ano.

Atualmente somos um projeto dentro da Ludocriarte, uma associação sem fins lucrativos que atua na periferia de Brasília. A Ludocriarte nos dá o apoio administrativo para que seja possível realizar um evento dessa magnitude. Estamos caminhando na direção de instituir uma associação sem fins lucrativos com o mesmo nome, Homens em Conexão. A proposta é incentivar a conexão consciente entre homens, através de uma linguagem nova e espontânea, criando espaços de confiança, força e amorosidade masculina. Todos os envolvidos no movimento são voluntários e atualmente temos o Conselho Diretor, órgão colegiado que governa o Homens em Conexão.

Quem são os homens que participam dos encontros?

Acreditamos que todo homem atua de maneira machista, misógina e violenta porque não teve a oportunidade de vivenciar outras possibilidades do que é ser homem. Estão todos, em primeiro lugar, se violentando, negando sua vulnerabilidade, sentimentos, força e outros aspectos de si mesmo para tentar se conformar a uma identidade masculina bem limitada e limitante; e essa violência se espalha para todos os lados e todas as pessoas. Os homens que participam são os mais diversos, desde jovens de 20 anos até idosos de 70, independente da orientação sexual, crença, raça e situação socioeconômica. Todos que se identificam como homens são bem-vindos.

Poderia nos contar episódios ou experiências de transformação na atitude e no modo como os homens encaram a si mesmos, suas relações, a paternidade e sua saúde?

Temos muitas histórias incríveis para contar. Existem homens que sempre se esforçaram tremendamente para se encaixarem nos padrões de masculinidade pregados pela cultura, ou seja, tornando-se aquele cara rígido, que não demonstra medo, fragilidade, sentimento; que dá conta de tudo sozinho, não pede ajuda e por aí vai. A primeira coisa que acontece com os participantes é começarem a jogar esse estereótipo fora. Eles começam a se permitir serem os homens que são, descobrem que os outros homens também têm suas vulnerabilidades, então se abrem pra pedir e receber ajuda. As muralhas de isolamento no qual os homens vivem são as primeiras estruturas a caírem.

A partir daí tem homem que relata a transformação na relação com a esposa, de estar mais atento, cuidadoso, questionando suas próprias atitudes machistas. Pais que não sabiam como se aproximar dos filhos e que descobriram um meio de se reconectar com eles, abrindo-se para brincar e dedicar tempo de qualidade com as crianças. Homens homoafetivos ou trans que sempre se sentiram excluídos dos meios cis e heterossexuais, que se sentiram bem recebidos, aceitos e validados enquanto homens. Homens héteros que tinham muitos preconceitos com homens não héteros e que quebram esses preconceitos, reconhecendo no outro um amigo e irmão de caminhada.

Os encontros do grupo Homens em Conexão (Brasília) promovem masculinidades saudáveis e o reencontro com os afetos.

Fotografia: Divulgação.

E quais os benefícios desse diálogo para os homens?

Ouvimos dos homens mais velhos, de 60 anos ou mais, que esperaram a vida inteira por um encontro como aquele, em que homens de todas as idades e caminhos de vida pudessem estar juntos, mãos dadas, em prol de um masculino mais integrado, harmônico, honesto e aberto. Há homens que, no encontro, partilham histórias e conteúdos de suas vidas que nunca partilharam com ninguém, que carregaram com eles todos esses anos, sofrendo em silêncio. Muitos relatam o alívio e a paz encontradas. Os homens encontram a possibilidade de pedir ajuda em momentos difíceis, ao invés de sofrer e adoecer em silêncio. Pedem ajuda sobre como lidar com o relacionamento, os filhos, o trabalho, consigo mesmo, com a sexualidade, com a raiva, com as inseguranças e por aí vai.

O que é ser homem para vocês? É possível ser homem de diferentes maneiras em uma sociedade com padrões patriarcais e machistas?

Pra gente ser homem é ser humano. Não temos uma resposta do que define um homem. Sabemos que essa é uma convicção interna, e que pode mudar. Um homem é uma pessoa em busca de integrar um ou mais dos seus aspectos masculinos (ação, assertividade, objetividade, foco, resultado) e dos seus aspectos femininos (cuidados, receptividade, fluidez, sensualidade, processo). Alguns homens vão expressar aspectos mais femininos e outros, mais masculinos, são todos homens se assim se identificam. Pegamos um dos aspectos de ser homem, que é ser pai, mesmo que nem todo homem queira ser pai. Tem pai que é mais brincalhão, pai que é mais durão, pai que é mais filósofo, pai que é mais mão na massa; e é claro que todo pai é uma mistura em diferentes proporções dessas e outras coisas mais. Independente do mix, são todos pais. Temos no grupos homens que carregam muitos preconceitos e atitudes machistas (basicamente todos nós), não negamos isso. Sabemos que o machismo e o patriarcado estão lá e tem raízes profundas, a diferença é que estamos fazendo um movimento para mudar isso, o machismo e o patriarcado estão matando homens, mulheres e todo o planeta — estamos dando os passos possíveis para construir uma nova maneira de estar no mundo que seja mais respeitosa com todos os envolvidos, inclusive os homens.

Recentemente, o conceito de “masculinidade tóxica” teve um “boom” em seu uso no debate público. Para vocês, o que esse conceito significa?

A gente não concorda e desaprova o uso do termo “masculinidade tóxica”. Em um artigo recente, um professor na Universidade de Nova Gales do Sul em Sydney [Austrália], explicava que o termo surgiu a partir de um grupo que oferecia retiros para homens que estavam perdendo suas “qualidades masculinas”. Tinham, portanto, uma proposta alternativa e xamânica, e partiam do pressuposto que algumas características eram de homens e outras não. As características que não eram, entravam no rol da masculinidade tóxica. Depois, o conceito foi revisto pela sociologia e ficou mais parecido com o que é hoje. O problema dele é que tira o foco de problemas realmente importantes, como a violência contra mulher e contra os homens. O foco recai completamente nos homens e fica parecendo que o homem tem que deixar de ser homem, porque afinal, sua masculinidade é tóxica.

Falar de masculinidade tóxica parece que o cara comeu uma fruta tratada com os 300 agrotóxicos liberados pelo governo e agora está doente e tem que fazer um “detox”. É um conceito superficial, pobre e limitado. É melhor mantermos os termos machismo e patriarcado; e assumir que todo mundo participa, mantém e sustenta essas lógicas violentas: sejam mulheres, homens, empresas, família ou igreja... Pra mudar essa história cada um tem que assumir a sua parte.

Então no fundo estamos falando de machismo?

Essa história da masculinidade tóxica pode ter trazido alguma visibilidade para a mudança que está acontecendo, ou não, nos homens. Mas tem um ponto muito importante, nenhum homem é duro e insensível porque quer, ele foi treinado desde bebê. Historicamente, aos meninos só foi permitida a emoção da raiva, é a única via de expressão. Todo menino e homem vive em constante estado de terror e necessita se defender, pois a família, a escola, os amigos e as instituições sociais vão atacar suas vulnerabilidades. É uma lógica de formação de soldados de guerra, não de seres humanos. O que esperar desse homem que aprendeu que a violência é a única coisa que o legitima enquanto homem e é a única maneira dele ocupar espaço na sociedade? Como esperar que ele vá baixar a guarda e ficar vulnerável? 

Então, falar de masculinidade tóxica é semelhante a culpar o morango ou o tomate pela quantidade de agrotóxico que carregam, quando de fato temos que olhar para os valores que a sociedade cultiva. Portanto, é essa cultura que se apoia nos valores do machismo e patriarcado que é tóxica no cotidiano para a saúde e a vida das pessoas. É a mãe que desqualifica o medo do menino, é o chefe que não dá folga para o homem que precisa ir na escola dos filhos, é o agropecuarista ou qualquer outro que destrói o meio ambiente para ter mais lucro, é a igreja que diz que homem tem que ser desse jeito e mulher tem que ser daquele jeito. É ainda a cultura que diz que temos que trabalhar e produzir 14 horas por dia, que temos que consumir mais e mais. É um ciclo incessante de violência, que começa desde a gravidez e não para mais. Daí nos perguntamos: por que os homens são tão violentos? Porque essa sociedade é extremamente violenta, e é muito mais fácil culpar alguém por toda essa violência do que assumir responsabilidade pela sua parte nela.

Radis206 entrevista fernando aguiar 4

Fotografia: Divulgação.

Como os padrões de masculinidade hegemônica (o modo tradicional de ser homem, como o afastamento da emoção, que diz “homem não chora”, “homem tem que ser forte”) trazem prejuízos para a saúde do homem e de suas relações?

Para cumprir os ditames da masculinidade hegemônica e o estereótipo do que é ser homem, o homem precisa vestir uma armadura. Ele se endurece emocionalmente, psicologicamente, corporalmente e aguenta. Aguenta em silêncio. Não chora, não mostra fraqueza, não leva desaforo pra casa. Ele trabalha e aguenta, e faz tudo que precisar fazer para aguentar. E quando ele não aguenta mais, ele se mata. Os homens se suicidam quatro vezes mais que as mulheres, segundo dados apresentados no documentário o “Silêncio dos Homens”. Essa é a máquina de guerra que a cultura cria. Um homem desconectado da sua sensibilidade, autocentrado e criado para ser forte, vai cumprir o seu script. Então ele mata e morre. Esse estereótipo de homem ainda é preconizado e disseminado abertamente nos vários níveis das esferas sociais e em várias instituições.

É possível mudar os padrões baseados na masculinidade hegemônica? Como fazer isso no cotidiano?

Na verdade, o que chamamos masculinidade hegemônica é uma estratégia para violentar garotos para que eles nunca se tornem homens de fato. O que mais vemos pela sociedade são, de fato, meninos assustados em corpos de adultos. Porém existem alguns homens que percorreram esse caminho de reconexão com o masculino em si e com outros homens. Muitos deles correram e correm o risco cotidiano de olhar para seus medos e vulnerabilidades, sem negá-los. Eles pedem ajuda para outros homens e mulheres. Para mudar essa lamentável condição na qual muitos homens se encontram, precisamos, primeiro de tudo, reconhecer o tamanho do buraco no qual nos enfiamos nessa tentativa de ser esse estereótipo de homem. Isso dá medo, porque significa abrir mão da única identidade, ainda que bem frágil, que a maioria de nós desenvolveu como homem. A partir daí, podemos buscar ajuda. Pode ser na terapia individual, nos vários grupos de homens que existem pelo Brasil, em livros como “João de Ferro” ou “Sob a Sombra de Saturno”. A mudança é lenta e gradual, mas totalmente possível.

Como a masculinidade pode ser saudável e mais fraterna?

Nós vemos isso acontecer em todos os encontros. Muitos homens chegam desconfiados, céticos, na defensiva. Fazemos algumas atividades de quebra-gelo, algumas partilhas, e logo os homens estão se abrindo e confiando mais uns nos outros. Os homens precisam uns dos outros para serem homens, assim como as mulheres precisam uma das outras para serem mulheres. Uma mulher não ensina um homem a ser homem e vice-versa. São nesses encontros, nessas partilhas, que nos conectamos com um sentimento profundo, não verbal, orgânico, do que é ser homem. É muito difícil colocá-lo em palavras, mas vemos o impacto que ele tem nas nossas vidas e de outros homens.

Entendo que a única maneira dos homens abandonarem as lógicas machistas e patriarcais é descobrindo outras formas de ser, e isso é uma construção coletiva que acontece quando estamos em conexão. Muitas pessoas falam do pacto nocivo entre os homens, em que eles protegem uns aos outros em seus comportamentos misóginos e violento. Isso é que soldados fazem, eles se defendem. Esse é um pacto de homens-garotos assustados e ameaçados. O que vemos repetidamente é que se ao homem for dada a oportunidade de largar a armadura, e se ele se sentir seguro para tal, ele o fará por vontade própria e começara a se reconstruir como homem.

Por que a afetividade e conversar com outros homens é importante?

A afetividade e a conversa com outros homens são dois elementos que foram perdidos na formação dos homens. Poucos homens relatam terem conversas íntimas ou momentos afetivos com seus pais. Entre amigos isso também foi negado, já parte daquela estratégia para formar soldados e meninos assustados que não podem sentir. Os homens anseiam pela afetividade masculina — e não estou falando de sexo, mas de abraço, carinho, cuidado e acolhimento. A homofobia é uma reação a esse desejo negado: quanto mais forte ela é, mais profundo e intenso é o desejo. Quando posso partilhar afeto e conversas íntimas com outros homens, e percebo que isso não me faz menos homem, pelo contrário, me faz mais homem, então a mudança profunda começou a acontecer. Os homens se tornam homens com outros homens. Muitos homens relatam que, depois que começaram a participar desses grupos de homens, a esposa começou a admirá-los mais, reconhecê-los mais como homens e os acharem mais bonitos e atraentes, inclusive sexualmente.

A maioria dos homens, os garotos assustados, fazem um esforço danado para serem homens e para que ninguém veja que, de fato, eles estão aterrorizados. Nos encontros de homens, cada homem pode ser tornar o homem que é, sem máscaras e sem esforço. Mas esse homem livre não será um soldado, uma máquina de guerra, passará a consumir menos pornografia, adoecerá menos e consumirá menos remédios. O homem não dá lucro para a nossa sociedade tóxica; ela precisa de garotos assustados consumindo qualquer que seja a promessa para ser homem.