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Entrevista com Mirian Béccheri Cortez

De acordo com os rótulos do machismo, quanto mais o homem se afasta do universo feminino, “mais homem” ele será. Isso implica abrir mão dos sentimentos, como ressalta Mirian Béccheri, psicóloga judiciária no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que trabalha com casos de violência de gênero e estudou o tema em seu doutorado na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Além do apoio especializado para as mulheres que sofreram agressão, Mirian aponta que é necessário promover iniciativas de ressocialização e reeducação com os homens autores de violência doméstica e familiar. “Homens que são abusivos e violentos em relacionamentos afetivos precisam, do ponto de vista da psicologia, receber suporte para que não reproduzam tal comportamento seja no relacionamento corrente, seja em outro que venha a estabelecer e, desse modo consigam construir relações mais saudáveis e de qualidade”, pontua. Como psicóloga, ela trabalhou no Núcleo de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), e como gerente de Proteção à Mulher no estado. Atualmente, atua em Caraguatatuba, no litoral paulista. Em entrevista à Radis, ela abordou o tema da masculinidade tóxica, seus reflexos para a saúde do homem e a busca por outras expressões de masculinidade que superem o machismo. “Uma masculinidade saudável passa por uma revisão do que de fato pode somar para o homem enquanto pessoa, cidadão, parceiro e pai, em termos de qualidade de vida, sem que isso prejudique o outro ou a outra”, comenta.

A expressão “masculinidade tóxica” tem ganhado destaque no debate sobre equidade de gênero. Na sua visão, o que ela significa? Ela diz alguma coisa além de “machismo”?

De início tive certa dificuldade com essa expressão pois me soava como algo muito comercializável e pouco aprofundado em termos do que são e de que modo as expressões de masculinidades e as expectativas em torno do masculino impactam o cotidiano social. Hoje em dia gosto da expressão exatamente por seu impacto positivo na discussão da fragilização masculina provocada pelo machismo. Quando me refiro a machismo, entendo esse termo como um conjunto de atitudes, práticas e valores tradicionalistas, sexistas e misóginos, que se criou e se estabeleceu como uma de nossas bases culturais em decorrência de nossa base histórica patriarcal. Esse conjunto conduz comportamentos e expectativas em nosso dia-a-dia — de homens e mulheres. O machismo traz prejuízos individuais e sociais para a mulher (assédios, menosprezo do feminino, violências em relacionamentos afetivos e outras relações sociais), e impacta negativamente também o homem e esse fato precisa ser falado e compreendido nos mais diversos espaços. Importantíssimo destacar aqui que, ao discutirmos masculinidades, estamos no campo de estudos, discussões e práticas baseadas em uma perspectiva de gênero e em uma perspectiva feminista.

A expressão ‘masculinidade tóxica’ é simples e direta e o senso comum conseguiu se apropriar dela com facilidade, abrindo espaço para que o debate crítico feito no campo das políticas públicas sobre os prejuízos individuais e sociais causados pelo machismo alcance a população que é de fato afetada e que, diante dessa última expressão (machismo), muitas vezes fica defensiva devido a compreensões enrijecidas sobre o termo.

Como a masculinidade pode ser tóxica no cotidiano e para a saúde das pessoas?

Entendo que o termo “masculinidade tóxica” contextualiza impactos perversos do machismo e da busca de um ideal de masculino que se estabeleceu e se fortaleceu ao longo dessa nossa história. Nossa cultura machista vai delimitar que quanto mais o homem se afasta do universo feminino, “mais homem” ele será. É uma lógica binária simplista que, em termos práticos, inibe ou constrange o homem de usufruir ou desenvolver potenciais sensíveis e práticos que nossa sociedade estimulou nas mulheres. Nesse sentido, as discussões sobre masculinidade tóxica trazem o foco para as consequências negativas trazidas aos homens e também às mulheres causadas: em primeiro lugar, pelo afastamento dos homens de práticas e comportamentos relacionados ao sexo e ao gênero feminino; e segundo, pelo engajamento dos homens em comportamentos cultural e socialmente definidores do “ser homem”.

Por que é importante discutir o tema na área da saúde?

A inserção do tema masculinidade tóxica em intervenções na área da saúde e da assistência hoje em dia é um meio para alcançar debates que possibilitem aos homens maior engajamento no autocuidado, uma vez que eles são minoria nos serviços, entre outros motivos devido à problemática trazida pela socialização de gênero tradicional, machista. No processo de socialização das mulheres são valorizados e estimulados a identificação e expressões de afetos e sentimentos, o autocuidado e cuidado com o outro de modo afetivo e não apenas materialmente, a valorização da intimidade, o reconhecimento do próprio organismo como vulnerável e merecedor de cuidados, por exemplo. Quão benéficas, em termos de saúde, seriam essas características para os homens? Hoje, na área da saúde, homens são comprovadamente os que menos se cuidam em casos de sintomas leves ou moderados de doença; são os que menos buscam por cuidados preventivos. A toxicidade da masculinidade, ou seja, o prejuízo que ela traz aos homens, está, por exemplo, no fato de ela tirar os homens de espaços de cuidado e autocuidados, de inibi-los de reconhecer e expressar tristezas, sofrimentos, medos, frustrações e dificuldades, de constrangê-los para a busca de suporte médico, psicológico em situações já identificadas como críticas.

Que outras características desse tipo de masculinidade podem ser prejudiciais aos homens?

Outros aspectos negativos do processo de socialização masculina são o estímulo a comportamentos de risco como prova de masculinidade, o afastamento das práticas de cuidado e convivência no ambiente familiar e doméstico, a ausência de contato ou negação de emoções que conotem fraqueza ou fragilidade (pois “homem não chora”) e a supervalorização da honra masculina. Práticas de masculinidade baseadas em tais preceitos possuem, de fato, implicações prejudiciais na relação do homem consigo próprio e com o outro.

Quais as origens dos comportamentos de “masculinidade tóxica”?

A histórica patriarcal e colonialista que embasou e ainda embasa nossa organização de gênero e, com isso, muitas práticas e valores culturais são base do que hoje temos como aspectos tóxicos da masculinidade. Interessante pensar que a toxicidade, ou seja, o prejuízo trazido por esse padrão de masculinidade, pode vir tanto do cumprimento de algumas práticas e valores (agressividade, impulsividade, comportamentos de risco), como também pela impossibilidade de o homem cumprir com um ou mais dos padrões inflexíveis estabelecidos (provedor principal, heterossexualidade, virilidade, autocontrole contínuo).

É possível modificar esse tipo de comportamento baseado em padrões de masculinidade hegemônica?

Penso ser possível modificar ou dar alternativas às pressões exercidas pela masculinidade tóxica discutindo-se e desmistificando aspectos da masculinidade hegemônica que são ou podem ser prejudiciais aos homens. Com base no conceito trabalhado por Raewyn Connell [cientista social australiana, referência nos estudos de gênero], podemos dizer, grosso modo, que a masculinidade hegemônica em nossa cultura possui recorte racial, econômico, etário e de orientação sexual. Isso faz nossa compreensão de homem hegemônico ser composta pela figura do homem adulto jovem, branco, financeiramente independente, heterossexual. Outros aspectos também podem emergir como reguladores da hierarquia entre homens, a depender dos grupos ou indivíduos com que o homem entre em contato e das subculturas em que está inserido: renda financeira, cargo no trabalho, escolaridade, ter ou não filhos, frequência da atividade sexual, aparência física, exibição de certa agressividade.

Como os padrões de masculinidade hegemônica reagem ao empoderamento feminino?

As conquistas e os questionamentos trazidos pelo movimento feminista e a inserção das mulheres em espaços públicos, de liderança e de poder abalam a lógica binária de organização dos sexos e gêneros, uma vez que a subvertem. A inserção da mulher no mercado de trabalho, sua autonomia reprodutiva e sexual, seu posicionamento em termos políticos ameaçam a polaridade imaginária e relativamente ‘segura’ que separaria as práticas masculinas daquelas consideradas femininas. A ascensão da mulher, por exemplo, a espaços públicos de trabalho, como chefia ou parte de uma equipe, é compreendida por muitos como uma ameaça ao domínio masculino dos espaços de poder, ou mesmo como um fator prejudicial para o desempenho profissional. No contexto laboral, ainda que não necessariamente como regra, situações de intolerância, assédio e desrespeito configuram-se como violências de gênero que objetificam a mulher e menosprezam sua competência enquanto trabalhadora.

Como a masculinidade hegemônica impacta sobre a violência doméstica e de gênero?

Da mesma forma que a perspectiva de “transgressão às regras” advinda de novos posicionamentos e posições da mulher nos espaços públicos de poder pode incorrer respostas violentas, em um contexto doméstico, posicionamentos da mulher, como esposa ou mãe, que não cumpram com os desempenhos de gênero tradicionalmente esperados podem também implicar em conflitos e violência. Apesar de parecerem extremamente banais, é muito comum as explicações trazidas por autores de agressões contra parceiras e mesmo feminicídios englobarem ponderações sobre “desobediência”, “descumprimento de regras”, “incompetência” com as tarefas doméstica ou na maternagem, “ciúmes” (romantização do sentimento de posse e controle), descontentamento com o “rompimento da relação” ou com o novo relacionamento da “ex-parceira”. Nesse sentido, mulheres que desafiam os preceitos tradicionais de gênero que regem normas culturais de casamento ou outras formas de relacionamento tendem a ser percebidas como descumpridoras e mesmo ameaças para os homens que têm seu “ser homem” definido em oposição ao “ser mulher”: “se agora elas ocupam lugares como o meu, quão homem sou eu?”; “se eu aceito que ela termine a relação comigo ou fale desse jeito comigo, que tipo de homem vão achar que eu sou?”. Para alguns homens, tais questões são insuportáveis.

Como perceber que um relacionamento no cotidiano é atravessado por padrões de masculinidade tóxica? Quais os sinais?

Relacionamentos abusivos geralmente estão associados com padrões enrijecidos e machistas de gênero, muitas vezes por parte dos autores de violência e das próprias mulheres que estão em situação de violência. Relacionamentos abusivos são comumente descritos como aqueles que em que não ocorreram (ainda) violências físicas, mas a violência psicológica, moral e mesmo patrimonial ocorre e traz graves danos emocionais e socias à pessoa exposta. Entre os sinais mais comuns de relacionamentos abusivos estão comportamentos do abusador como: controle excessivo de comportamentos (senhas de redes virtuais e celular, locais que frequenta e companhias); normas rígidas sobre roupas, restrições de contatos sociais, de atividades em grupo e individuais; críticas e menosprezo de habilidades e aparência, ameaças contra a parceira (de morte, agressões) e chantagens emocionais (suicídio, abandono). Diante dos efeitos perversos do relacionamento, a pessoa vítima desse tipo de violência muitas vezes está esgotada emocionalmente, podendo desenvolver distúrbios emocionais e mesmos fisiológicos devido ao estado de estresse, tristeza e ansiedade gerados. Por essa razão, importante conseguir suporte terapêutico profissional visando fortalecimento pessoal, da autoestima, construção de mecanismos de proteção individuais, sociais (suporte familiar e de amigos) e da rede local (contato de delegacias e serviços de proteção).

Profissionalmente você já atuou em iniciativas que buscavam desenvolver terapias com agressores. Na sua visão, como esse tipo de ação de enfrentamento da violência de gênero pode contribuir também para superar padrões de masculinidade hegemônica e “tóxica”?

Já tive oportunidade de conduzir um grupo com autores de violência conjugal e percebi a experiência como muito positiva para os participantes e também para as parceiras. Tive, mais recentemente, a experiência de acompanhar equipe de profissionais técnicas da Polícia Civil do Espírito Santo em um projeto com grupos reflexivos para homens denunciados por esse mesmo motivo. Acho um trabalho essencial. É preciso pensar que todos tendemos a reproduzir nossos padrões de relacionamento e que isso também ocorre em pessoas que se envolvem em relacionamentos abusivos e violentos. Mesmo que uma mulher sobreviva a um relacionamento desses, precisa ser cuidada, orientada e fortalecida, para reconhecer que não possui culpa ou responsabilidade pela violência sofrida, que pode ter um relacionamento com respeito, afeto e livre de violência.

Por que é preciso ofertar serviços de reeducação e ressocialização para homens que praticaram agressão?

Da mesma forma, homens que são abusivos e violentos em relacionamentos afetivos precisam, do ponto de vista da psicologia, receber suporte para que não reproduzam tal comportamento seja no relacionamento corrente, seja em outro que venha a estabelecer e, desse modo consigam estabelecer relações mais saudáveis e de qualidade. Nesse sentido, é comum que os trabalhos com grupos busquem favorecer que seus participantes reconheçam seus comportamentos como violência e se responsabilizem por isso. Procura-se trabalhar para que identifiquem o que é violência (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral), que comportamentos violentos geram sofrimento diversos e que minimizações ou romantizações não cabem nesse contexto (violência não é “direito do marido”, não é “corretivo”, nem “modo de cuidar ou educar”, nem de “mostrar quem manda”). A violência de gênero entre parceiros íntimos configura-se como modo de imposição de poder e controle.

Quais os benefícios dos grupos de discussão com homens que cometeram agressão?

Outro aspecto dos grupos com homens é seu potencial de favorecer aos membros reflexões sobre os padrões hegemônicos da masculinidade e sobre os benefícios e prejuízos desses padrões. Discutir a problemática da masculinidade tóxica, a meu ver, abre espaço para a ressignificação da masculinidade em termos do que pode ser alterado nas práticas cotidianas e expectativas consigo próprio visando maior bem-estar, autoestima e qualidade de vida pessoal e social. Nesse contexto, diversos temas podem ser abordados visando-se conjugar elementos para a reconceituação do masculino: discussões sobre sua educação familiar, pressões sobre papéis tradicionais masculinos (provedor, pai), educação e socialização de homens ao longo da vida, desafios e impactos da inserção da mulher no mundo público (trabalho), mulheres e homens como pessoas de direito.

Que balanço você faz da legislação que protege a mulher contra a violência?

Existe uma responsabilidade criminal com relação à violência doméstica contra a mulher que não posso deixar de ressaltar. Antes da Lei Maria da Penha, essa violência era considerada crime de menos potencial ofensivo, mas hoje há previsão de maior penalidade além de outras ações que procuram garantir a segurança das mulheres, como as Medidas Protetivas de Urgência e a possibilidade de inclusão do homem em “programas de recuperação e reeducação”. Com relação a esses programas, os grupos com homens, a depender das temáticas que adotarem, podem trazer trocas, reflexões e conhecimentos que beneficiem seus participantes como pessoas, cidadãos, pais e parceiros, além de maior segurança para as mulheres — por favorecerem a redução de comportamentos violentos dos participantes. Reconhecer que a masculinidade tóxica favorece o comportamento de violência dos homens não retira a responsabilidade deles sobre agressões e violências cometidas. Porém, é um meio para que se responsabilizem pelos atos violentos cometidos e pelo protagonismo nas mudanças de atitude sobre exercício de masculinidades e relações de gênero.

Como podemos construir masculinidades mais saudáveis?

O machismo fragiliza todo mundo. Coloca o homem mais em risco, faz com que ele não se cuide e o trava na hora de se expressar. Quando o homem se permite a isso, ele percebe que tem benefícios e consegue se dar ao direito de exercer e se apropriar de lugares e comportamentos que, pelo machismo, seriam “femininos” e por isso ruins. O mais bacana é isso: conseguir se apropriar do que as pessoas falam que é masculino ou feminino, sendo homem ou mulher, porque isso não faz diferença nenhuma, desde que seja um valor bom e positivo para você. As discussões sobre paternidade são o que temos hoje mais perto do que seria uma masculinidade saudável. É onde o homem vai ser confrontado com a necessidade de ser afetivo e se expressar de um modo amoroso. O processo de socialização do menino e do adolescente não pede isso. Ele tem que “caçar”: caçar o que fazer, caçar mulher, caçar briga. A amorosidade não está ali. Aparece um pouco no contato com a mãe, menos com o pai, e pode surgir se ele se colocar no lugar de um pai afetivo quando ele for pai. Eu acredito que uma masculinidade saudável passa por uma revisão do que de fato pode somar para o homem enquanto pessoa, cidadão, parceiro e pai, em termos de qualidade de vida, sem que isso prejudique o outro ou a outra.