Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Adriano De Lavor.

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Entrevista com Eymard Vasconcelos

“Deixa eu aproveitar e fazer uma foto aqui na sala de aula”, peço, no fim da conversa, a um dos grandes homenageados do 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, que aconteceu em setembro no campus da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Reservado e gentil, o médico mineiro de 67 anos, 45 deles dedicados ao movimento sanitário e à formação de novos quadros, se acomoda tímido, admitindo que se sente mais à vontade no trabalho nas comunidades. Volto a ligar o gravador quando ele abre um sorriso ao reforçar seu compromisso e sua paixão pela educação popular e recorda as primeiras experiências, que o fizeram deixar de lado o desejo de ser cientista de bancada. Na entrevista que concedeu à Radis, Eymard comemorou a realização do evento na UFPB, sua casa desde 1978, e avaliou que a escolha pelo Nordeste tem ligação com os novos rumos que se apresentam ao movimento sanitário. Resistência, compromisso com a sociedade e com os anseios dos profissionais que estão no cotidiano dos serviços são essenciais nestes novos tempos, orienta o professor. “Temos que ouvir as necessidades de quem está no cotidiano do serviço, no cotidiano da luta”, ensina.

 

Como o senhor recebeu a homenagem no 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde?

Na verdade, nós tínhamos organizado uma homenagem à Palmira [Palmira Lopes é educadora popular e liderança comunitária na Paraíba, uma das coordenadoras do Movimento Popular de Saúde, também homenageada no evento], uma pessoa que acompanho há muito tempo, cada geração de estudantes a tem como referência. De repente a diretoria resolve me fazer uma surpresa. Eu estou com 67 anos e vamos acumulando algumas cicatrizes e perdendo um pouco do ânimo. Isso é uma coisa que reforça e nos anima. Mas principalmente porque se percebe, com essa homenagem, uma mudança de postura da Abrasco e da saúde coletiva. Antes éramos tratados de forma marginal, só entrávamos na programação dos eventos porque tinha o Victor Valla [pesquisador americano que atuou na Ensp/Fiocruz e é referência na educação popular] abria as portas para a gente. Sempre era uma entrada difícil. Talvez não seja uma homenagem só para mim. Há muitos profissionais que têm dedicado sua vida a essa mediação com a sociedade civil e com os movimentos. Antes de abrirmos espaço para as lideranças, eles já estavam nas comunidades, discutindo práticas de saúde alternativa, serviços de saúde comunitária. Eles nunca são lembrados. Esta é uma homenagem a essa legião de vários profissionais e até militantes que se engajaram, como a dona Palmira, na luta pela saúde da população.

Como surgiu o interesse de trabalhar com educação popular e saúde?

Em 1974 eu ainda era estudante e participava de um evento de extensão. Quando eu fiz Medicina, queria ser cientista de laboratório. Depois de entrar no curso, fiz um estágio no departamento de Fisiologia no centro de pesquisas da UFMG, que era o mais estruturado na época, mas me decepcionei muito. Tinha um protocolo de pesquisa que dava vontade de largar o curso. Naquele ano teve a primeira semana de Saúde Comunitária, em Belo Horizonte. Eu sempre falo que foi o primeiro evento nacional do movimento sanitário, e eu tinha alguns amigos que estavam na organização, foi o movimento estudantil que organizou. Depois disso fiz um estágio no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, onde eu participava de grupos de jovens de igreja. Eu já havia lido Paulo Freire, e quando chegamos a um povoado bem triste, bem feio e que tinha alguns problemas, lembrei da frase do Freire: “Diante dos grandes problemas não procure dar resposta, faça roda de escuta”. Depois que fizemos isso, aquele povoado que parecia feio tomou um dinamismo que me encantou. Eu nunca pensei que o trabalho em saúde pudesse ter esse dinamismo tão apaixonante, eu digo que foi minha experiência fundante. A partir daí todas as férias eu seguia para uma comunidade e comecei a ler sobre isso. Não foi algo planejado, foi algo que aconteceu a partir dessa primeira experiência.

E como avalia essa experiência hoje?

Hoje eu sinto que quando as pessoas me homenageiam como professor não é pelas coisas que eu ensino. Quando eu faço entrevista com os estudantes que participaram de um projeto, nenhum se refere às coisas que aprenderam comigo, eles se referem às oportunidades que os projetos de extensão possibilitaram, às experiências semelhantes a que eu tive em 1974. A oportunidade de criar espaços de contato. Uma coisa é ir à comunidade, outra coisa é ir com olhar acolhedor e respeitador do outro. É preciso termos esse preparo. Porque ao chegar lá eles vão se deparar com coisas que dão raiva, nojo, e precisamos criar espaços de acolhimento para estes sentimentos, fazendo dinâmicas, já que esses sentimentos são imprecisos, vagos e inesperados. A educação popular ajuda a fazer dinâmicas de problematização. As pessoas pensam que educação popular é discutir grandes problemas, mas na verdade não é. É principalmente discutir as questões que o educando está sofrendo, abrir espaço para que ele possa compartilhar isso e trocar. Às vezes aprendo muito mais com os outros estudantes do que com o professor. O professor costuma cuidar do espaço. Eu senti muita potência desta pedagogia freireana na formação universitária. Eu gostava de um aluno ou outro enquanto eu estava só em sala de aula. Porém, quando eu me dediquei a essa pedagogia, eu assisti à transformação de muitos estudantes, como o Pedro Cruz, que está na coordenação local do congresso. Assim como o Pedro, havia vários outros estudantes tímidos, que antes de se formar já participavam de congressos e enfrentavam grandes debates. Uma pedagogia que valoriza a busca de ser mais, que já está em todo estudante, isso cria um espaço de problematização compartilhada. É por isso que eu fui homenageado, não foi pelas coisas que repassei pelo meu saber.

Como o senhor avalia a diversidade de temas presentes no 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde?

Ela é resultado da maneira como definimos os temas. Por meio de editais, nós criamos condições de ter um caráter inter-regional, participação de movimentos sociais, de trabalhadores e não só cientistas sociais e de humanas. Recebemos quase 100 propostas de grupos temáticos, que saíram dos temas usuais da saúde pública, destacando campos temáticos emergentes. Nós sempre tivemos grupos de trabalho sobre saúde mental, mas aqui aparece a saúde mental e o protagonismo de usuários e familiares, por exemplo. É uma perspectiva nova pensar a partir do olhar dos usuários e seus familiares sobre o que pensam sobre espiritualidade e saúde, por exemplo. Aprender com a dona Maria a ver a espiritualidade da perspectiva da população, no momento em que a discussão de espiritualidade na saúde está ficando muito técnica. Então, no congresso apareceram muitas inversões deste tipo e muitos temas novos — ou então nuances de temas que já eram tradicionais. Para mim, essa foi uma grande surpresa: a emergência de lutas novas, grupos de estudos trazendo temas diferentes.

Quais são os grandes desafios propostos aos pesquisadores de saúde e de educação comprometidos com os ideais da Reforma Sanitária?

Essa é uma pergunta de muitas respostas. São muitos desafios. Uma das respostas é construir pesquisas mais orientadas pela demanda social do que uma necessidade dos grupos de pesquisa. Às vezes, nós que trabalhamos com pesquisa, criamos uma tradição, conhecemos autores e nossos temas seguem a dinâmica mais acadêmica. Por isso houve um grande afastamento da elite do movimento sanitário do cotidiano dos civis, do cotidiano da luta sanitária, da vida comunitária. Há muitos temas de pesquisa importantes hoje, mas eles devem ser construídos a partir do pulsar da prática local, da luta social, da angústia dos profissionais. Esse tem que ser o grande eixo, nós conseguimos manter a unidade do movimento sanitário. As pessoas que vêm de fora vêem nosso congresso tão grande e ficam espantadas, mas isso tem a ver com uma tradição de participação. Lembro de uma orientanda que cobrava uma dinâmica mais participativa nos congressos de saúde coletiva, que dizia que eles estavam iguais aos congressos tradicionais. Se o trabalhador não vir seus temas contemplados, ele se afasta, a pesquisa perde a aliança com a vida social, perde o saber que vem da luta.