Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Acervo pessoal.

Tempo de leitura: 8 - 15 minutos

Entrevista com Pauliran Freitas

As lentes da câmera de Pauliran Freitas acompanham o Sistema Único de Saúde desde antes de sua criação. O trabalho voltado para registrar em imagens a força e a potência do SUS fez dele uma figura conhecida no campo da comunicação e saúde. Dono de uma personalidade marcante, ele esbanja alegria no dia a dia, seja no trabalho interno ou em campo, quando participa de eventos ou mostras de vídeo promovidas em diversas cidades pelo Brasil. Casado com Angela há 38 anos, pai de Rafael (34), avô de Eduardo (6) e Bernardo (5), Pauliran dedicou 47 anos de seus 65 de vida ao serviço público. Carioca, nascido em Santa Cruz, o filho de paraibanos viveu a infância e a juventude no bairro de Sepetiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Depois disso, caiu no mundo: cedo começou a trabalhar e assim encontrou na linguagem audiovisual um caminho para a defesa do direito à saúde.

Formado em contabilidade, Pauliran iniciou sua carreira no setor administrativo e, aos poucos, migrou para a área de foto e imagem. A profissionalização foi um caminho inevitável e ele se fez cinegrafista. Integrante da equipe que criou a VideoSaúde Distribuidora (produtora da Fiocruz), Pauliran reconhece a importância do trabalho desse setor da Fiocruz que popularizou o debate sobre saúde pública, por meio do audiovisual, numa época em que a comunicação era ainda difícil, especialmente para populações que viviam em regiões mais remotas.

Foi atrás de tantas histórias que ele percorreu boa parte do país. Sem saber quantos quilômetros rodou, e com o bom humor que é sua marca registrada, ele brinca: “Quem sabe eu dei duas voltas na Terra”, revelando o tanto de chão que cabe na sua tela. Nessas voltas todas, não só registrou imagens, mas encontrou pessoas pelos caminhos e fez amigos que falam, não sem emoção, de sua importância profissional e pessoal. Nessa entrevista, Radis apresenta a trajetória singular de Pauliran Freitas, um nome que vai muito além da Fiocruz e que, fazendo parte de um corpo técnico, atua para afirmar a identidade do Sistema Único de Saúde por meio do audiovisual.

Que SUS foi revelado para você a partir de sua experiência de campo?

O SUS que funciona, e muito. Estou cansado de ouvir o contrário. Tem gente que acha que não necessita do SUS e esquece tudo o que ele representa. Não dá para pensar na saúde com a cabeça de quem vive na cidade e tem outra condição. Em muitos lugares só existe o sistema público para dar assistência. Nas minhas viagens, vi muita coisa bacana, aprendi bastante. Lembro que em Juazeiro do Norte, no Ceará, um médico comentou que os pacientes perguntavam se podiam benzer o comprimido antes de tomar porque assim fazia mais efeito. É legal essa ligação entre a religião e a medicina. É esse SUS que aparece na ponta

Quais temas estão presentes nos seus trabalhos?

A maioria dos vídeos é ligada ao SUS. O nosso trabalho consiste em mostrar o Sistema Único para informar sobre tudo o que afeta a saúde e a vida das pessoas. Aids, sexo, drogas, meio ambiente, doenças em geral, agroecologia, violência, agrotóxicos e muito mais. A gente mostra, por exemplo, que uma contaminação por açaí não envolve só a indústria, mas atinge o usuário que está na ponta: ele vai comer o açaí que não passou pelo branqueamento e ficar doente. Isso tem a ver com o SUS e o SUS não sobrevive sem o audiovisual. Isso tem a ver com o SUS, precisa ser mostrado e é por essa razão que o SUS não sobrevive sem o audiovisual.

Como foi que você entrou na área do audiovisual na saúde?

Sou técnico em contabilidade e entrei na Fundação das Pioneiras Sociais, em 1980. Trabalhava com o faturamento de convênios e depois fui transferido para o setor de foto e imagem. Já tinha feito um curso de cameraman [operador de câmera] e fui projetar slides e vídeos de saúde nas aulas para médicos residentes. Sempre tive interesse nessa área e notei que as TVs das salas de espera lá da Pioneiras eram ligadas na TV aberta. Então, propus que a gente fizesse a conexão dos monitores com os videocassetes para que, quem estivesse esperando consulta, também visse os vídeos. A Pioneiras foi extinta em 1992, no governo Collor, e vim para o núcleo de vídeo da Fiocruz. Eu trabalhava com o equipamento de U-matic antigo do lado e pensava que um dia iria operar aquilo. E operei.

Como você se especializou em vídeo?

Eu tinha feito um curso de rádio e TV. Depois, fiz uma oficina de cinegrafista, financiada pela Fiocruz, e tirei meu registro como repórter cinematográfico no Sindicato dos Jornalistas. Foi aí que me tornei de fato cinegrafista. Foi bom porque passei a ter liberdade para gravar e seguir as mesmas regras de um jornalista. Fui gravando, tenho várias assinaturas em vídeos de direção de fotografia e câmera. Em 1999, começamos a gravar um programa semanal, o VideoSaúde, feito em parceria com a UTV [canal universitário do Rio de Janeiro]. Tinha 29 minutos no total, sendo que ele era dividido em três blocos com uma chamada da apresentadora. E tinham também as gravações na rua para complementar os vídeos.

Quais foram os seus primeiros trabalhos na Fiocruz?

Em 1995, o Luís Carlos Bonella me convidou para ser assistente de direção no vídeo “A revolta da vacina”. Eu gravava com uma câmera grande e a ilha de edição tinha muito equipamento, já que a gente comprava cada parte e montava. Era grande, bruta mesmo, e bem complicado montar um vídeo com esse equipamento. Depois, compraram uma câmera VHS, ficou mais fácil de transportar, e passei a gravar eventos não só no Rio. A primeira viagem que eu fiz foi em 1996 para fazer uma mostra de vídeos na X Conferência Nacional de Saúde, em Brasília. Fui com a Áurea Pitta [hoje, pesquisadora colaboradora da Fiocruz]. Ficamos no estande do Ministério da Saúde e, apesar do improviso, foi um sucesso. A gente não tinha recursos e abusava da criatividade para dar tudo certo.

Como foi o início da VideoSaúde?

Começamos a VideoSaúde com um acervo de vídeos bem pequeno. Primeiro as fitas, depois vieram as mostras de vídeo, recebemos mais vídeos e aí vieram os pedidos de outros estados, escolas, universidades e pessoas que queriam exibir esse material. Não dava mais para mandar pelo correio. Com o convênio da Fiocruz com a UTV [canal universitário do Rio de Janeiro], criamos programas facilitando a difusão de informação em saúde. Um dos programas era o VideoSaúde, um semanal com 29 minutos, com reprise duas vezes por semana, em horários diferentes. E a gente complementava os vídeos com gravações na rua e montava tudo aqui. Não era só uma distribuidora de vídeo, era uma escola.

Qual o diferencial daquela equipe?

Era uma equipe perfeita, entrosada, multitarefa, onde cada um fazia de tudo. Trabalhamos juntos por mais de 15 anos. Começamos a fazer institucionais, mostrando as unidades da Fiocruz, depois a cobrir conferências nacionais, congressos, e fomos chamados para produzir documentários em parceria com universidades e o Ministério da Saúde.

As TVs abertas deveriam ter de duas a três horas de sua programação diária para falar sobre saúde. Pauliran Freitas, VídeoSaúde/Fiocruz

Tem algum vídeo que marcou a sua trajetória?

Teve um sobre cirurgia segura gravado em 2011 no Hospital da Força Aérea do Galeão, no Rio. Ele tem 154 mil visualizações no YouTube. Essa gravação foi uma experiência bem rica e de bastante aprendizado e mostra bem que o audiovisual é importante para o SUS. Tem demanda para essa informação mais qualificada. As pessoas querem isso. Eu defendo que as TVs abertas deveriam ter de duas a três horas de sua programação diária para falar sobre saúde. E as salas de espera de hospitais públicos, clínicas e postos de saúde deveriam ter um sistema audiovisual para informar a população sobre cuidados em saúde.

Você disse que viajou muito. Conhece todos os estados do país?

Só falta Sergipe, Tocantins, Alagoas e Maranhão. Fui muito para o interior e rodei tanto que acho que dei duas voltas na Terra. Eu me tornei um mestre em açaí. Aliás, vivi uma história engraçada em Belém do Pará num vídeo sobre a doença de Chagas dirigido por Eduardo Thielen. Fomos gravar a dissecação de um açaizeiro para ver a movimentação dos barbeiros embaixo da casca. Coloquei a câmera para o lado onde disseram que a árvore iria cair. Bom, cortaram o açaí, apertei o rec, gritei vem, vem, só que ela caiu para o outro lado. Meu cartão de vacina é atualizado, estava de calça jeans, meião, camisa fechada e repelente, mas era barbeiro voando para tudo que é lado. E para ele não tem vacina nem nada.

Quais foram os presentes que o trabalho lhe deu?

Muitos. Um deles foi o de presenciar um casamento numa aldeia indígena. O noivo com 13 anos e a noiva, 11. Eles ficaram deitados, sem comer, até que os pais conseguissem caça para a aldeia inteira. Acompanhamos tudo e é um ritual lindo. Não é loucura, como dizem, eu acho que é cultura. Aliás, aprendi muito trabalhando com os indígenas. O primeiro contato que tive com eles foi em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Viajei com a Stella Oswaldo Cruz [pesquisadora da COC-Fiocruz] para apresentar o vídeo “Baniwa, uma história de plantas e curas”. Fomos de voadeira e chegamos de noite na aldeia. O vídeo foi exibido na escola Pamáali [Escola Indígena Baniwa e Coripaco — Eibc Pamáali], onde a Fiocruz era uma das parceiras. Faz mais de 20 anos e não esqueci da imagem dos índios brincando e olhando para a tela improvisada. Os índios conversavam, riam, só prestavam atenção no filme.

E que história é essa de que há um Pauliran Xikrin?

Eu fui convidado para fazer uma oficina de vídeo para os Xikrins no Pará. A viagem é bem longa, vai para Parauapebas, passa pela Transamazônica... Os Xikrins são muito receptivos e alegres e virei amigo de um dos alunos, o Ngoijre. Ele fez um vídeo de denúncia da contaminação do Rio Catete pela Usina de Belo Monte que até foi inscrito no Abrascão de 2018 [Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, no Rio de Janeiro]. Continuamos a conversa no Facebook e um dia ele disse: “Mulher teve neném e o nome é Pauliran Xikrin”. Vi a foto do garoto, bem bonito. Acho que daqui a alguns anos vai ter um cacique Pauliran.

O que você gostaria de gravar que ainda não gravou?

Eu quero fazer uma imagem do espaço só para gravar a Terra e provar que ela é redonda. Nunca gravei em alto-mar. A Fiocruz tem um projeto na Antártida. Depois de 47 anos de serviço, quem sabe? Agora eu estou muito interessado no celular. Tenho ministrado oficinas para quem quer gravar no celular e ensino iluminação, enquadramento, posicionamento, cuidado com os eixos. Dá para produzir tranquilo com celular, mas tem que ter qualidade e conteúdo bacana.

E o streaming? Você acha que ele é também um caminho para o audiovisual no SUS?

Para quem trabalha com e no SUS, esse é um bom meio para divulgar eventos, produzir programas e muito mais. O streaming é mais fácil já que permite fazer uma transmissão com equipamento perfeito e segurança da internet. Facilita muito porque as pessoas podem mostrar como as coisas acontecem na ponta, como é o atendimento num posto, por exemplo. E acho que ele é mais democrático. Porque é só fazer o streaming e um minuto depois ele está no Youtube, uma plataforma gratuita, e qualquer um pode acessar esse conteúdo com um link.

Você acha que as novas tecnologias são instrumentos de resistência?

Sim. Antes tinha que gravar para exibir, agora já mostra. É ao vivo, online, na hora, sem edição. Claro que há equipamentos que podem sofisticar o trabalho. Aqui na Videosaúde nós fazemos streaming com três câmeras, uma de corte, para o plano geral, uma para o palestrante e a outra para Libras. E há um canal do equipamento que usamos para passar algum slide, se for o caso. Mas duas câmeras são suficientes para fazer um streaming em qualquer lugar.

Indo além da imagem, você também é poeta e cordelista. Como isso entrou na sua vida?

A primeira poesia foi feita para uma amiga e, a partir daí, passei a escrever. Tenho poesias publicadas em dois livros. Eu gosto de escrever sextilho, aquelas frases que rimam. Meu primeiro cordel foi uma brincadeira sobre as peculiaridades dos colegas da VideoSaúde. Depois escrevi “Do analógico ao digital” que é a história da VideoSaúde em cordel.

Para você, o que é ser um servidor público?

Trago comigo o motivo de servir o público. Outro dia uma pessoa falou: “Com esse tempo todo de casa, você vem trabalhar e parece que está começando hoje...” Isso é um agradecimento. Eu sou servidor público e tenho uma carreira para mostrar serviço prestado a uma quantidade enorme de pessoas que precisam do conteúdo que a gente produz. Servir ao público não é servir apenas a meia dúzia de pessoas.

Qual a importância do bom humor?

Eu amo o que faço. Quem faz o que gosta não trabalha, se diverte. Sempre fiz o que gostei e me divirto. Sempre tive bom humor. Eu acho que a vida não é para ser sacrificada, mas para viver. Nunca consegui usar a palavra não, pois tudo é possível. Quando você escolhe uma profissão, tem que fazer com amor, porque quando a gente faz o que quer, se diverte. Apesar de eu sempre estar brincando, o trabalho é sério. Mas, no geral, o bom é viver, ter bons amigos, não consigo me sentir triste. Só fico triste quando eu meto a mão na carteira e não tenho dinheiro. Mas até nisso tem solução porque, nesse caso, busco os amigos.