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Para Ana Maria Feijoo, da Uerj, a escuta é essencial para superar o sofrimento psíquico

Sísifo é um personagem da mitologia grega condenado pelos deuses a repetir a mesma tarefa por toda a eternidade: ele rola uma grande pedra de mármore com suas mãos até o alto de uma montanha, porém quando chega no topo, a pedra cai e retorna ao início anulando todo o esforço. O mito de Sísifo pode ajudar a entender como a sociedade contemporânea gera condições de sofrimento psíquico que provocam “vazios” na alma tão pesados quanto a pedra de mármore do personagem grego. Para Ana Maria Feijoo, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), mais importante do que chegar a um diagnóstico fechado de depressão, é entender as singularidades que geraram aquele sofrimento. “Em um mundo que tem tantas exigências, há a produção de um cansaço, uma tristeza, uma sensação de que nunca se realiza nada. Isso pra mim se chama tédio”, avalia.

Segundo a professora, especialista em luto e suicídio e coordenadora do Laboratório de Fenomenologia e Estudos em Psicologia da Existência (Lafepe/Uerj), as pressões do presente para que se produza de maneira incessante e sem medida, assim como os ideais inalcançáveis de felicidade, podem contribuir para gerar experiências de sofrimento. “O ser humano moderno é muito apressado. Nunca está onde está. E essa pressa o deixa cego e surdo. Eu diria que até sem olfato e degustação”, analisa.

Radis217 livro o suicidio ana feijooO sofrimento é parte da experiência humana? Para Ana, que é autora do livro “Suicídio: entre o viver e o morrer” (2017), é preciso lembrar que a vida não envolve só prazer. “A vida implica alegria e dor. Uma coisa não exclui a outra. Aliás, só temos a alegria, porque existe dor”, pontua. O tempo “apressado” que vivemos também não deixa espaço para ouvir o outro — quando a escuta pode ser um caminho essencial para superar sentimentos comuns na depressão. Ana ressalta o papel dos espaços informais de partilha dos sentimentos, entre amigos, família e pessoas próximas ou em grupos de apoio. “Escutar é não se preocupar com o que você tem a dizer, é recuar para poder ouvir. Normalmente quando alguém diz ‘estou triste’, nós respondemos: ‘Não fique assim. A vida é bela.’ Nada disso. Precisamos ser todo escuta ao outro”, assinala.

Leia a entrevista completa com Ana Maria Feijoo, que é parte da reportagem sobre depressão e sofrimento psíquico da Radis 217 (outubro).

Como podemos definir a depressão? Existe uma fronteira entre tristeza, sofrimento psíquico, desânimo, depressão?

O senso comum e talvez até os profissionais da área de psicologia, muitas vezes, têm dificuldade de ver qual é o limite entre um estado da alma e outro. Existem duas grandes tendências para pensar a depressão. De um lado, a tendência que eu chamo de biologizante, que coloca a depressão como uma doença do corpo, do cérebro, e aí existem sintomas, através desses manuais de transtornos de comportamento que falam dessa depressão: se a pessoa apresenta cinco ou mais sintomas, por exemplo, eu fecho o diagnóstico. A ideia é estabelecer o diagnóstico de uma doença a partir de critérios universais. Porém, existe outra tendência, muito forte na psicologia e na psicanálise, que é a perspectiva que eu assumo, de base fenomenológica-existencial, em que a gente já não tem tanta pressa em chegar a esse diagnóstico de forma tão objetiva. A gente se demora na compreensão da situação singular daquela pessoa.

E como essa segunda vertente enxerga a depressão e o sofrimento?

Na perspectiva que utilizo para pensar essa tristeza ou esse tédio que nos chegam nos consultórios, eu penso a tristeza como uma tonalidade afetiva do nosso tempo. Então eu saio dessa tendência biologizante — não nego, mas me desvio — de modo a poder pensar como o mundo de hoje acaba facilitando que comportamentos depressivos aconteçam, que eu chamo de tédio. Costumo dizer que o tédio é a tonalidade afetiva do nosso tempo. O nosso tempo que exige que a gente produza de maneira incessante e sem medida traz um cansaço, um desânimo. O Han [filósofo sul-coreano Byung-Chul Han] chama de sociedade do cansaço, para se referir àquilo que chega no nosso tempo com o diagnóstico de transtornos. Então, a minha compreensão é que pouquíssimos casos podemos diagnosticar como depressão de uma ordem biológica. Na maioria das vezes, o que aparece é um modo de se articular com mundo. Em um mundo que tem tantas exigências, há a produção de um cansaço, uma tristeza, uma sensação de que nunca se realiza nada. Isso pra mim é tédio. E o tédio não precisa ser medicado, ele precisa ser ouvido. A gente precisa saber o que o tédio tem a nos dizer. Se eu medico, ele não vai mais me dizer nada, ele vai ficar anestesiado. É preciso que eu dê voz ao tédio. E quando isso acontece, abro a possibilidade que a pessoa possa se articular de outro modo no mundo, para além do modo do cansaço.

O tédio não precisa ser medicado, ele precisa ser ouvido. Se eu medico, ele não vai mais me dizer nada, ele vai ficar anestesiado

Qual é o papel da terapia, da escuta e do apoio das redes afetivas, como família e amigos, para lidar com a depressão e o sofrimento psíquico?

Eu participei de uma live, com o Sindicato dos Bancários, e eles estavam preocupados que o índice de suicídio aumentou muito entre os bancários, o que eu acho extremamente compreensível que a tristeza e aquilo que a gente chama de depressão apareça em uma atividade em que não se realiza nada, em que você sempre está atrás de vender os seus produtos para assegurar o seu emprego. Se você não realiza, isso leva à tristeza. Isso estafa, cansa, entristece. Quando eu conversava com eles, alguém me perguntou sobre o que a gente faz se o nosso colega do lado está triste e pensa em suicídio. Você não pode fazer algo de forma iminente, mas o que você pode fazer de mais importante é escutar o que ele tem a dizer. Ou seja, não se preocupar com o que você tem a dizer, recuar para não falar e poder ouvir. Normalmente quando alguém diz “estou triste”, nós respondemos: “Não fique assim. A vida é bela.” Nada disso. Precisamos ser todo escuta ao outro. E é isso que a clínica faz: escuta para poder ver. Ver o que? Ver que aquilo que a pessoa traz não é tristeza. É projeto, é incômodo. E na medida que eu puxo esse fiozinho que está todo escondido, a pessoa pode descobrir outro modo de se articular com essas determinações hegemônicas do nosso mundo. Esse é o lugar da clínica, da escuta, em que você enxerga e vê esses acenos. Quando tomamos as coisas de modo universal, não vemos esses acenos.

A pressão social para que a gente seja feliz o todo tempo e a qualquer preço, que aparece muito nas redes sociais, pode desencadear processos de sofrimento?

O mundo diz que você tem que ser um monte de coisas: você tem que ser bem-sucedido, ter um casamento perfeito, ter muitos filhos ou poucos filhos, até porque as mensagens do mundo também são ambíguas, mas trazem a exigência de que a vida é uma só e você tem que ser feliz. Essa é uma máxima do nosso tempo. Como a vida é uma só, você tem que ter um prazer absoluto. Só que vida implica prazer e dor. Vida não implica só prazer. Mesmo que a pessoa queira, isso não vai acontecer, porque vida implica nas duas coisas. Então quando ela tem dor ou é infeliz por algum motivo, ela mesma se diagnostica com alguma patologia, com algum tipo de frustação ou inferioridade. Ela olha para o quintal do vizinho e acha que as flores são mais bonitas, porque ela só vê a aparência. Não importa o que o outro vive. Importa saber que a vida é isso: alegria e dor. Uma coisa não exclui a outra. Aliás, só temos a alegria, porque existe dor, porque sem a dor a gente não ia conhecer a alegria.

Sempre estamos com tanta pressa que não temos escuta à vida nem escuta ao outro

Quais os riscos da medicalização e do uso indiscriminado de antidepressivos?

Jamais vou negar a importância da psiquiatria e da medicina. O grande perigo é a falta de cautela. Temos que ter cuidado para não patologizar reações de tristeza e sofrimento normais, que são da vida. Em épocas de pandemia, é natural que a pessoa pense muito mais na morte do que em outras épocas, que sempre fique na eminência de perder alguém, sentir-se insegura, ansiosa, até lavar as mãos incessantemente. Isso é do modo como as coisas se dão num momento de pandemia. Se a gente pega todos esses elementos e vê pelos diferentes códigos de transtornos mentais, sem prestar atenção ao nosso horizonte histórico, nós vamos diagnosticar essas pessoas como carregando uma patologia e a gente vai medicar o que não precisa ser medicado, e sim precisa ser discutido. Por exemplo, ontem eu fiz um acolhimento de jovens que perderam amigos na pandemia. Eles estavam muito mal. Óbvio que eles estavam tristes, com medo e correram para fazer o exame, mas não porque carregassem uma patologia, e quando isso foi discutido e um espaço se abriu para que a tristeza fosse experimentada com toda sua força, eles não precisavam mais correr para um psiquiatra, pois experimentaram que a dor é real, ela tem a força da vida, até para poder sair da dor por eles próprios.

Quais as consequências da patologização da tristeza?

Esses diagnósticos podem ser muito apressados, porque há uma cegueira frente ao real, uma vez que a gente só enxerga o ideal, que são as normas, que levam ao diagnóstico. É o mesmo na psicologia: há muitas pessoas de luto, porque a covid está matando muita gente. Mas se eu medico o luto — e medicar não é só através de remédios, mas também de psicoterapias — eu não torno a situação de luto como algo da experiência. Quem perde uma pessoa vive a experiência de luto. O meu trabalho acontece com grupos de acolhimento para que as pessoas possam falar sobre seus lutos e compreender que o luto é da vida. Não se trata de psicoterapia, mas de um tipo de conversa que o mundo não sustenta mais. Por isso a gente precisa de profissionais que sustentem a possibilidade de falar. Se estivéssemos ouvindo uns aos outros, nem precisaria de um profissional. Eu preciso porque ninguém mais quer ouvir a dor do outro.

Isso significa não tratar como doença?

A ideia é que eu não tome tudo que vem acontecendo por uma perspectiva alarmista, achando que tudo é doença, nem negacionista, dizendo que nada é doença. Outra vez eu tenho que ter olhos para ver e ouvidos para escutar o que a situação tem a dizer. Essa situação que estamos vivendo hoje de excesso de medicalização, e aí eu incluo também o encaminhamento à psicoterapia, me lembra muito Machado de Assis em “O Alienista”, porque ali ele já faz uma crítica de tudo patologizar e diagnosticar. O persoangem vai botando todos na Casa Verde porque acha que todos têm traços de loucura, até que ele mesmo se coloca na Casa Verde, que era um tipo de hospício. Esse é o risco de tudo diagnosticar e do que está acontecendo hoje: as pessoas que estão muito ansiosas com a pandemia logo são medicadas ou indicadas para uma psicoterapia, porque qualquer sinal já alarma e já se indica um tratamento que seja rápido, eficiente e que leve outra vez para a rotina normal. Quando, na verdade, estamos em um momento em que a rotina não é normal.

Na pandemia, como podemos lidar com os processos de tristeza, dor, luto e perdas coletivas, nesse contexto em que estamos também vivendo o distanciamento social?

A forma como eu estou lidando — e isso diz respeito ao singular — é fazer esses atendimentos via conferência. Temos promovido grupos de acolhimento pela Uerj. Em caráter singular, é fácil: as pessoas nos procuram e fazemos o atendimento. Mas em um caráter público mais geral, era preciso que os meios de comunicação começassem a falar que é possível que nessa época esse tipo de emoção apareça e que isso não é patológico necessariamente. É preciso não ser alarmista, mas também não podemos ser negacionistas. Por isso precisamos ver: o que é alarme excessivo e o que é negação. Os grandes jornais gostam de alarmar, e se vamos contra a maré, isso não é publicado. A mídia tem um efeito muito forte sobre o modo de se comportar das pessoas, no autodiagnóstico. Do mesmo jeito que a mídia leva as pessoas a pensarem que elas carregam uma patologia, ela também pode levar as pessoas a pensarem que estar assustado, nesse momento, é proteção, e não patologia.

Precisamos parar com essa ideia de que é preciso produzir, produzir, produzir

Como são os grupos de acolhimento que coordena na Uerj para trabalhar a experiência do luto?

O trabalho que desenvolvemos na Uerj é de acolhimento a pessoas em situação de luto. Inicialmente trabalhávamos com o luto no suicídio, mas com a pandemia começamos a trabalhar com luto e covid. Na perspectiva da fenomenologia-existencial, a primeira coisa que a gente faz é sair dessas polaridades, em que ou a gente abandona totalmente o orgânico ou abandona totalmente o existencial. É feito um trabalho com os voluntários e os estagiários para que eles possam ver o fenômeno tal qual ele se apresenta. Depois partimos para os atendimentos, que são individuais ou em grupo. Por exemplo, na pandemia, a gente está trabalhando por videoconferência. Fizemos recentemente o acolhimento com um grupo de jovens que havia perdido uma amiga. A escola nos chamou e fomos fazer o atendimento. Primeiro, o trabalho implica em deixar que eles falem sobre o luto, a raiva. Há muita indignação com o governo, com a escola. Há um processo de culpabilização que é muito característico da nossa época, em que a gente sempre tem que encontrar um culpado. Deixamos que eles coloquem para fora todas essas indignações, de modo que eles possam “cauterizar” essas emoções exacerbadas e compreender a situação em que se encontram. Eles começam a entender que o luto faz parte da vida. Independente do que eles façam, as pessoas morrem. Nós trabalhamos com todos os envolvidos — e no caso do suicídio, nós chamamos de sobrevivemos — para que eles possam ter outra perspectiva da perda e da morte, uma perspectiva não preconceituosa do suicídio. Meu projeto é trabalhar com o luto em contexto escolar.

Como a sociedade lida com o processo do sofrimento e da dor?

O ser humano moderno é muito apressado. Nunca está onde está. E essa pressa o deixa cego e surdo. Diria que até sem olfato e degustação. Ele não experimenta mais a vida, porque está sempre onde não está. Um exemplo: eu estou aqui com você, mas pensando no que tenho para fazer depois, então não estou com você. É isso que dificulta que a gente veja e ouça o que está acontecendo. Sempre estamos com tanta pressa que não temos escuta à vida, então não temos escuta ao outro. Essa é uma questão difícil, pois é preciso não ser apressado, e você vai me perguntar: Como não serei apressado em um mundo que exige tantas tarefas de mim? Como vou dar conta de tantas tarefas se não for apressado? Esse é o mal da nossa época. Como a gente muda isso? A gente teria que mudar o capitalismo. Precisamos parar com essa ideia de que é preciso produzir, produzir, produzir. Deixar de tomar o ser humano como máquina, tomar a existência a partir dos seus mecanismos. Somos formiguinhas tentando fazer algo, em um sistema muito mais forte. Eu costumo dizer que a gente consegue fazer algo nas singularidades. A gente pensava que tudo ia mudar com a pandemia, assim como aconteceu quando derrubaram as Torres Gêmeas [em 2001]. Mas a gente volta rapidamente a uma produção incessante que desconhece limites e o ser humano perde sua existência, perde sua alma, porque para ganhar a alma precisa de paciência.

Sofrimentos na pandemia

Ana Maria Feijoo coordena um projeto de suporte psicológico em contexto escolar nos temas de luto e suicídio, com apoio do programa Cientista do Nosso Estado (Faperj). O grupo de psicólogos e voluntários desenvolve dinâmicas e atividades de grupo com os chamados sobreviventes de suicídio — pessoas que tiveram alguém próxima que se matou, principalmente jovens. A ideia é romper a barreira do silêncio e compartilhar os sentimentos. Com a pandemia, o projeto foi adaptado para trabalhar com situações de luto pela covid-19. A professora destaca que o acolhimento é essencial para compreender que as etapas do luto. “Primeiro deixamos eles colocarem para fora todas as indignações, de modo que possam ‘cauterizar’ essas emoções exacerbadas, para compreender a situação em que se encontram”, conta. Segundo ela, se o luto é simplesmente “medicado”, ele não é vivenciado e, consequentemente, superado como algo da experiência humana.