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O grande desafio da pandemia é emocional, social e ético, aponta a psicóloga Alessandra Xavier

Sozinho, o humano não dá conta dos encargos de uma pandemia como a de covid-19. É tempo de fortalecer as redes de afeto, solidariedade e proteção social, com apoio das políticas públicas, para que os profissionais de saúde possam exercer seu trabalho e superar as pressões emocionais e no campo da saúde mental. Essa é a visão da psicóloga Alessandra Xavier, professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), com pesquisas e atuação na área de prevenção ao suicídio e sofrimento psíquico. O desafio inclui compreender que não basta enxergar os trabalhadores da saúde como heróis: é preciso garantir condições dignas de trabalho, além de respeito e apoio. “Eles são vistos como heróis, mas ao mesmo tempo temidos. Ter que lidar com um lado seu que cuida e outro que pode causar dano é complicado”, pontua. Cuidar da saúde mental, seja de quem está na linha de frente, seja da população em geral, deve ser uma das prioridades durante e depois da pandemia. “O grande rebote emocional vai vir ao longo dos meses e anos. O desafio para todos nós é construir um significado, pessoal e coletivo, a partir dessa pandemia”, ressalta.

Por que é preciso discutir a saúde mental dos trabalhadores da saúde?

Os quadros de saúde mental entre os profissionais de saúde já eram muito sérios antes da pandemia, principalmente entre médicos. Quando a gente vai avaliar estudos sobre uso abusivo de álcool e suicídio, a gente observa uma prevalência muito grande nessa categoria. Trabalha-se sob elevada tensão e estresse, muitas vezes sem condições adequadas. O profissional recebe uma formação e sabe o que fazer para ajudar, mas muitas vezes se vê em uma situação de impotência porque não tem os recursos hospitalares e a infraestrutura adequada. Isso acarreta um nível de sofrimento muito grande. Soma-se a isso as escalas de trabalho que os colocam em atividade ininterrupta: não têm tempo de descanso e para fazer uma higiene mental. Muitos profissionais abrem mão das atividades de lazer ou com a família. Quando aumenta o nível de estresse e de exigência, crescem as demandas sobre o sujeito e diminuem os recursos para dar conta, também se amplia a sobrecarga do aparelho psíquico. Sem uma contrapartida dos fatores de proteção, eles ficam mais vulneráveis.

Que tipos de desgastes emocionais são acarretados pela pandemia entre esses profissionais?

Muitas vezes os profissionais de saúde não foram preparados para lidar com perdas, emoções e limites — para lidar com o sofrimento. Eles não veem isso ao longo da formação. O aparato de formação na área da saúde é muitas vezes narcisista, de estímulo às vaidades e ao sucesso. Essas pessoas entram num modo de trabalhar quase automático, não dá para parar, mas quando a ficha cai, são pessoas que têm desabado. Existe ainda o medo de ser contaminado. Os profissionais precisam trabalhar com máscaras e óculos de proteção, com equipamentos em que têm que passar horas sem ir ao banheiro, porque é complicado para retirar. Muitos têm que ficar isolados em casa, sem contato com os filhos e os pais. Ficam na dúvida se foram contaminados ou não. E ainda temos relatos de profissionais que têm sofrido retaliação nos condomínios onde moram, porque alguns moradores não querem que eles frequentem os mesmos elevadores, por exemplo. A gente vê algo paradoxal. A saúde que é um campo de proteção e cuidado também passa a ser muito hostilizada.

Que tipo de suporte é necessário nesse momento aos trabalhadores?

Existem suportes que podem ser dados no próprio ambiente hospitalar ou de UPA, naqueles que têm equipes de psicologia. Para os que não contam com essas equipes, alguns cuidados podem ser feitos como, por exemplo, organizar as escalas de trabalho. A equipe precisa ter pequenos intervalos. As pesquisas de manejo de estresse no trabalho indicam a importância de se fazer pequenas quebras na rotina. A cada 50 minutos, ou depois de um procedimento muito difícil, fazer uma pequena pausa que retira o profissional ao menos por 5 minutos daquela situação de tensão, para dar uma aliviada e depois retomar. A qualidade das relações nas equipes de saúde também é muito valiosa. É importante que as chefias sejam qualificadas para avaliarem os níveis de estresse, fazerem os remanejamentos adequados, ver as escalas que precisam ser readequadas.

Como lidar com as mudanças de rotina?

Temos outro agravante porque trabalhar sob a tensão de uma pandemia é diferente. O profissional estava acostumado a levar o filho para a escola ou creche, mas a rotina foi alterada. Precisam tentar manter algum nível de atividade física e de bem-estar, além de suas agendas de conexões emocionais. Muitos ficam em um círculo vicioso porque todos os amigos são da área de saúde e conversam somente sobre as mesmas coisas. Para manter a saúde mental, é importante ter contato com amigos que você possa falar sobre outras coisas: sobre filmes, contar piadas, saber novidades, para poder se desconectar do trabalho. Também é importante um tempo de higiene mental ao chegar em casa, fazendo um esforço para se desligar das tensões. Existem canais online de suporte emocional, para que os profissionais possam falar das dificuldades que estão enfrentando, seus limites e suas dores. É preciso também uma mudança de cultura em relação à saúde mental. Porque as pessoas têm preconceito em relação à psicologia e a aceitar ajuda. Isso é consequência dos nossos tempos, da sociedade da eficiência e do mercado neoliberal.

Por que os profissionais de saúde têm dificuldade em aceitar ajuda?

As emoções parecem levar você a uma posição de fragilidade e esse é um lugar que muitas vezes os profissionais de saúde fogem léguas. O que é um grande equívoco, porque a fragilidade faz parte de nossa condição existencial. Não somos onipotentes. Muitos profissionais quando se deparam com a impotência, desabam. Eles são confrontados com os limites e não sabem lidar. A onipotência vem como defesa por não saber lidar com as impotências. Temos que construir recursos para lidar com nossas limitações. Quando a coisa fica muito grave — está sem dormir, com muita irritabilidade e choro fácil —, é importante procurar ajuda com outro ser humano. E ainda tem outro problema: como os profissionais de saúde têm acesso à medicação, existe o risco deles mesmo se automedicarem ou ainda fazer o uso abusivo de álcool e outras drogas. A recusa em procurar ajuda psicológica pode agravar e fazer com que o problema se torne crônico, em um quadro de depressão. Eles estão indo no automático. Existe o medo de contaminar os familiares, filhos, pais. São vistos como heróis, mas ao mesmo tempo temidos, porque podem contaminar. Ter que lidar com um lado seu que cuida e outro que pode causar dano é complicado.

Existe certa romantização dos profissionais de saúde, como se fossem heróis e estivessem fazendo um sacrifício. Essa fantasia pode gerar dificuldades em lidar com as limitações da realidade?

O mito do herói faz parte do inconsciente coletivo da humanidade. A gente sempre esteve em busca de heróis, como se eles pudessem dar conta de tudo, seriam imortais e resolveriam todos os problemas. Os profissionais de saúde são pessoas reais, seres humanos sujeitos a dores, desespero, dúvida, medo e colapso. Temos um ser humano com todas as suas dimensões, por mais que ele tenha um elaborado refinamento técnico — tem os limites da sua condição humana. Muitas vezes as idealizações fazem com que as pessoas esqueçam as condições existenciais da realidade. Pode ser um profissional bem preparado e competente, mas se não tiver os insumos adequados, o que precisa para operacionalizar seus conhecimentos, de nada ele vai servir. O problema é quando os profissionais se identificam com esse lugar do herói e passam a se cobrar para dar conta de tudo.

Quais os problemas em tratar o trabalho na saúde como sacrifício?

É importante que o profissional de saúde seja respeitado. Também precisamos questionar algo muito comum do contexto brasileiro que é o trabalho como benemerência, como se fosse feito por bondade. O trabalho é desqualificado de sua dimensão profissional. Eles precisam ser bem remunerados, ter as condições adequadas, precisam ter o apoio das políticas públicas. Não pode ser jogado somente para o humano dar conta de todo o problema. Se ele não tiver apoio do Estado, das políticas públicas, se não tiver uma estrutura adequada, ele fica muito limitado.

Quais os impactos da pandemia na saúde mental da população em geral?

O grande rebote emocional dessa pandemia vai vir ao longo dos meses e anos. Teremos muito trabalho, na área da saúde mental em geral, para lidar com as dores e os lutos quando eles forem descongelados. As experiências traumáticas que a gente está vivendo agora só poderão ser processadas daqui a muito tempo. Estamos vivenciando uma experiência traumática coletiva. É uma guerra contra um inimigo invisível, que é o vírus, além de outros visíveis. É preciso o tempo todo fazer uma campanha para que as pessoas fiquem em casa. É uma peleja contra o discurso de um governo que oscila e contribui para tornar a experiência ainda mais complicada e difícil. Ao vivenciar uma experiência traumática, ela nos impacta de um jeito que precisamos acionar recursos internos psíquicos muito potentes para absorver a situação nova.

Como os vínculos emocionais ajudam a vivenciar esse contexto?

Nem sempre os recursos emocionais estão disponíveis. Nem sempre temos uma boa auto estima, esperança e uma boa capacidade de lidar com problemas. Nem todo mundo tem esse universo interno rico para poder acionar e lidar com as experiências traumáticas. Nesse momento de desestabilização, precisamos dos recursos externos, como amigos, a rede de apoio social e de proteção do Estado. Quando passamos por uma experiência traumática que exige que todos fiquem em casa, várias coisas acontecem. A gente fica sujeito a um cenário de estresse agudo. Não é uma pausa voluntária para um período sabático ou de férias e descanso. É um estar em casa tenso, pois tem que higienizar compras e tomar todos os cuidados com a família e consigo. Isso já gera uma sobrecarga de tensão.

Uma das questões mais delicadas desse momento são as experiências de luto, por não poder velar os mortos pela covid-19, por exemplo. Como lidar com as perdas e o luto em uma pandemia?

Toda experiência traumática nos impõe algum tipo de luto. O luto não é só decorrente da perda de um ente querido. Freud já coloca isso em um texto ao afirmar que o luto está relacionado a algum tipo de perda. De alguma forma, todos nós estamos numa experiência de luto, pois o mundo como a gente o experimentava antes mudou. Nossas vidas estão mudadas, pessoas foram perdidas. Para elaborarmos o luto de uma maneira saudável, são necessárias algumas condições. Uma delas são os ritos sociais, como o velório. Toda a cultura tem ritos para ajudar as pessoas a elaborar suas perdas e construírem a certeza de que não perderam tudo. No momento em que não temos esses recursos sociais, a experiência de luto fica ainda mais difícil. Existe a fase da negação, em que a pessoa nega a dor, depois vem a raiva: “Por que eu? Por que isso tinha que acontecer comigo?” A fase mais complicada é a da tristeza, porque muita gente entra em um luto patológico e estaciona aí, o que pode deflagrar a depressão: a pessoa entende que aquela perda aconteceu, ela se lamenta profundamente, mas não se perdoa. É como se ela passasse a vida a prestar homenagem àquele que se foi. Ela fica viva, mas não se permite viver como punição para oferecer à vida àquela pessoa.

De que maneira é possível seguir adiante?

Quando a pessoa consegue passar pela fase da tristeza e entra na fase da aceitação, o luto começa a ser elaborado por meio de um significado, integrado à sua vida, para que possa viver sem que aquilo fique vivo como algo destrutivo e sim como uma experiência, permitindo-o seguir em frente. Esse é o desafio para todos nós: construir um significado, pessoal e coletivo, a partir dessa pandemia. Que significados produzimos em termos de empatia, solidariedade e indignação pelas questões sociais que deixam tantos nas periferias em situação de vulnerabilidade? De que forma eu posso reelaborar os vínculos com as pessoas que quero bem? Que aprendizado posso tirar em relação ao meu tempo, às minhas escolhas e aos cuidados comigo mesmo? O grande desafio dessa pandemia é emocional, social e ético, porque essas dimensões estão sendo reposicionadas. Toda vez diante de um período histórico catastrófico, a gente tem mudanças significativas, como as que ocorreram no campo dos direitos humanos depois da Segunda Guerra Mundial. E elas vão exigir mudanças internas e na forma das pessoas se relacionarem umas com as outras.

Quanto ao distanciamento social, que tipos de desafios surgem em relação à rotina de trabalho, principalmente com as crianças em casa?

Uma coisa é fazer um home office que já fazia parte da sua rotina. Outra coisa é isso ser implementado de forma abrupta, o que deixa as pessoas muito inseguras. É preciso ter estrutura tecnológica — um bom computador e boa internet — e dominar os recursos tecnológicos. Segundo, é preciso ter uma boa rede interpessoal, confiar nas suas relações de trabalho, ter um código de ética que funcione nessas novas modalidades de trabalho. E é necessário ainda que seja um trabalho que proporcione satisfação pessoal e engrandecimento. Veja que esses três elementos são muito difíceis de serem contemplados. A gente vê reuniões que não têm hora para terminar e não há acordo sobre o horário que o trabalho deve ser feito. Quando entra na intimidade das pessoas, parece que as fronteiras entre o público e o privado ficam dissolvidas. Todos nós precisamos preservar o espaço da nossa intimidade. Tem gente que manda mensagem de trabalho domingo, de noite, de madrugada. Precisa ser oferecida uma estrutura e entender que é um home office na pandemia.

Quais os riscos dessa nova rotina para a saúde mental dos trabalhadores?

A pessoa está em casa, mas tem que cuidar das atividades domésticas, cuidar da sua saúde e dos filhos, fazer a higienização dos alimentos. Não é uma situação comum. Aquela máxima de “dar a camisa pela empresa” e “faça o seu máximo”, dentro da lógica da eficiência, precisa ser repensada porque as pessoas estão adoecendo. Não tem como manter o mesmo nível de produtividade com a covid-19. Até porque esse nível de produtividade já foi ele mesmo um dos causadores da pandemia. A gente observa como essas questões precisam ser reposicionadas. Ambientes de trabalho adoecedores se tornam ainda mais difíceis para as pessoas nesse contexto. Um dos maiores problemas no campo das relações de trabalho está na comunicação. As comunicações vem de forma impositiva, unidirecional e autoritária. É o famoso “estou mandando e você se vire para obedecer”. Nesse contexto, isso mobiliza angústias, ansiedades e as pessoas não dão conta. Quanto mais duro o ambiente de trabalho, menos produtivo ele será.

Qual o papel dos afetos e dos vínculos nesse momento de distanciamento social?

A relação com o outro é um elemento constituinte da nossa própria subjetividade. Nós, seres humanos, nascemos num grande nível de desamparo. O bebê humano, se ficar entregue à própria sorte, morre. A necessidade de interação com o outro é a base constitutiva da nossa própria existência. Esse entrelaçamento com o outro, se for feito com cuidado e proteção, se o outro nos oferece estratégias de cuidado, de vínculo, de ajuda, isso vai constituir base interna de criatividade e de esperança, que são fundamentais para a vida. O problema é quando as interações com o outro são de desamparo e de violência, de desqualificação, construímos uma relação de desconfiança e de isolamento. Nesse momento de covid, a confiança no outro é um dos elementos mais necessários. Eu tenho que confiar que vou usar a máscara, mas o outro também vai usar. Tenho que cuidar de mim e confiar que o outro também vai ser capaz de cuidar dele e se preocupar comigo. Por isso as pessoas que vão para a rua se manifestar contra o isolamento quebram esse pacto de confiança. Elas quebram o lugar da empatia. Isso é muito grave.

Como estimular solidariedade e esperança no contexto da pandemia?

Quando vemos os coletivos comunitários atuando [nas favelas e periferias, por exemplo], isso tem um efeito valiosíssimo, pois potencializa esperança e confiança, potencializa vínculo. Para a questão da prevenção do suicídio, a perda da conectividade, aliada a uma dor avassaladora e à desesperança, é a conjunção mais elevada de risco. A conectividade social — a gente sentir que importa para o outro e ser alvo de cuidado —é um elemento de dignidade e cidadania. Na hora que tanto faz se você vive ou morre, isso deixa todos nós numa condição de muita vulnerabilidade e sofrimento. E contribui para ficarmos entristecidos e desesperançosos. Podemos estar distanciados fisicamente, mas os vínculos precisam ser fomentados em nossas relações interpessoais, manter contato com quem a gente ama, seja com os amigos e a família.

O que podemos fazer no nosso dia a dia para melhorar as condições de nossa saúde mental e emocional?

Manter contato com esses elementos simbólicos que são fundamentais, como a arte, a literatura, o cinema, a música. Tentar manter um cuidado com o corpo e uma boa noite de sono. E esse cuidado não é fazer dieta. É manter uma conexão da sua alma com o seu corpo, manter um cuidado consigo, com a sua higiene pessoal, manter o corpo ativo. É um momento também importante para as relações familiares: entender que o ambiente doméstico não é coisa somente de mulher. Vemos um aumento dos índices de violência doméstica. O ambiente doméstico é responsabilidade de todos. E esse é um momento valiosíssimo para os pais ensinarem aos filhos como lidamos com a dor, com o sofrimento, porque a gente vem de um contexto cultural em que a saída para lidar com a dor é o consumo — você compra as coisas para ficar feliz — ou o uso abusivo de álcool e outras drogas para se anestesiar. Esse é um momento excelente para descobrir recursos para lidar com as dores, por meio da proteção dos vínculos e da solidariedade. As conexões emocionais e a empatia precisam ser fortalecidas.

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