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O cientista social e sanitarista Nelson Filice de Barros contou à Radis, durante o 2º Congresso Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (CongrePICS), que se interessou em investigar a formação médica para entender o que levava os profissionais de saúde a exercerem práticas como a homeopatia e acupuntura. “Eles falavam de um esgotamento de um modelo de cuidado”, resumiu. Nelson atua como coordenador do Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas em Saúde (Lapacis), na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e integra a diretoria do Consórcio Acadêmico Brasileiro para Saúde Integrativa, que envolve o Ministério da Saúde, o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme) e a Organização Pan-americana da Saúde (Opas). Durante a conversa, no agitado campus da Universidade Federal de Sergipe em Lagarto, o pesquisador destrinchou as diferenças entre os conceitos de alternativo, integrativo e complementar, e falou da importância da pesquisa em PICs na academia. “O primeiro e fundamental objetivo do laboratório em que trabalho é manter a possibilidade da diferença, de pensar outras práticas dentro de uma faculdade de medicina. De explorar outros modelos de cuidado além do biomédico tradicional dentro da escola médica”. 

Como surgiu seu interesse pelas práticas integrativas e complementares?

Estou neste campo da saúde coletiva desde 1991. Meu interesse começou na faculdade de Medicina. Naquele tempo, a minha linha de pesquisas era medicina alternativa. A questão que me intrigava era entender por que médicos se dispunham a trabalhar com outras formas de medicina que não a contemporânea ocidental na qual eles eram formados. Havia um estereótipo do profissional médico que só queria ganhar dinheiro, ter consultórios privados, e diziam que eles iam para essas práticas por motivos financeiros. Isso me incomodava, eu imaginava que não tem dinheiro que compense o profissional ficar fazendo regularmente aquilo em que não acredita. Observei que, na realidade, eles falavam de um esgotamento do modelo de cuidado, e buscavam outras formas de cuidar. E aí, eu descobri gente fazendo ao mesmo tempo homeopatia e alopatia, por exemplo, que têm preceitos lógicos opostos. Mas de fato, quando você põe a vida de uma pessoa na sua complexidade, ela pode precisar ao mesmo tempo de ambas as coisas. Esse foi o tema do meu doutorado. A conclusão foi de que é possível fazer uma complementação entre dois sistemas médicos ou de duas racionalidades médicas, conceito que a Madel Luz desenvolveu. 

A medicina tradicional tem brechas, lacunas e é aí que as práticas integrativas e complementares entram?

Quando você fala em medicina está falando da medicina convencional, do modelo biomédico ocidental contemporâneo. A medicina tradicional é aquela dos povos tradicionais. Algumas práticas foram incorporadas à medicina convencional, como a acupuntura, por exemplo. O modelo da medicina ocidental contemporânea é muito efetivo na ação e no cuidado de algumas coisas, mas é pouco efetivo em outras. Ele é pouco efetivo principalmente nas condições crônicas. As condições crônicas exigem muito mais do que só medicar, exigem uma noção de cuidado ampliado. Envolve outras formas de cuidar com menos medicamento, com mais autonomia da pessoa que vive aquela condição. Todos esses elementos vão convidando para trazer outras práticas para manejo desses problemas. 

Quais as diferenças entre os conceitos de integrativo, alternativo e complementar?

Alternativo está associado aos movimentos de contracultura dos anos 1960 e 70. Naquele momento, uma parte da sociedade, especialmente jovens de classe média, estavam fazendo rupturas do ponto de vista pedagógico, das relações amorosas, das relações econômicas. Mas na hora que eles adoeciam, viravam pacientes de uma forma de cuidar superinterventora e muito próxima da que eles estavam negando. Nessa perspectiva, eles criam a lógica de uma medicina alternativa àquela que existia. Eles estavam em busca de construir comunidades alternativas, pensamentos alternativos, práticas alternativas. Na metade dos anos 1990, desenvolve-se a noção de complementar. Hoje eu entendo que o conceito de práticas complementares de cuidado em saúde tem a ver com o projeto multiculturalista, [sintonizado com] o discurso da Unesco de aldeia global. Enquanto o alternativo substitui, pressupõe que a pessoa poderia deixar de usar a medicina tradicional alopática, o complementar acrescenta, com o discurso de que pôr junto as outras racionalidades é o suficiente. O que nós vemos hoje é que não é o suficiente. É preciso ir além, é preciso “inter”, quer dizer, precisamos aprender a fazer as coisas que a medicina ocidental contemporânea faz, ao mesmo tempo que temos muito a aprender com outros modelos de cuidado, outras culturas de cuidado. Então, a noção de integratividade está relacionada com o espaço para pensar pluralmente, o espaço para pensar na diferença. É um cuidado que integra mais de uma forma. Esse é o desafio ainda. Na literatura, há quem diga que isso é um novo paradigma. E há quem diga que é uma nova prática, apenas. 

Esse paradigma não está posto ainda?

Acredito que nós temos o desafio de construir um novo paradigma. Ele está posto em disputa. Ele está posto em experimentação. Todos nós estamos tentando experimentar como reunir diferentes formas de cuidar ao mesmo tempo. Sem excluir.

Em termos de evidências científicas, o que é possível dizer sobre as PICs hoje?

O que nós vivemos hoje é uma grande contradição. Do ponto de vista das evidências, a maior parte das práticas têm evidências científicas sobre seus resultados, mas evidências que são consideradas de baixo impacto. No entanto, o uso e o interesse por estas práticas só cresce. Você não tem a linguagem da ciência para explicar claramente como aquilo funciona, mas você tem o uso em permanente crescimento. Essa é uma contradição. Ou as pessoas não acreditam na ciência, e preferem usar uma prática mesmo com baixa evidência, ou as evidências são de fato um jogo político para ocultar outras formas de cuidar. 

E quanto aos fatores culturais?

Por exemplo, podemos considerar que ir a uma benzedeira é fazer uso de uma PIC? Esse tipo de cuidado também nunca deixou de ser utilizado... Sim. As benzedeiras são cuidadoras, como os raizeiros são cuidadores, ou seja, todos aqueles que têm competências e habilidades que não são as competências e habilidades acadêmicas, mas que são cuidadores, podem vir para dentro desse modelo de cuidado. 

A questão é como incorporar as práticas como política?

E também na prática. Como validar ao mesmo tempo o conhecimento de uma raizeira e de uma médica. Essas são as grandes questões em que a gente segue tentando avançar. Foi criada a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPICs) em 2006. Ela foi criada sem financiamento indutor. E desde que ela foi criada ela só cresce.

Como você avalia a ampliação da PNPICS, que aumenta o número de práticas incorporadas no sistema para um total de 29?

Essa é uma pergunta muito difícil. Implantou-se o que existia em maior frequência e uso na atenção primária no SUS. Essa é a justificativa para a implantação. Foi feita uma consulta aos municípios para a implantação da política em 2006, e naquele momento era fitoterapia, homeopatia, medicina tradicional chinesa, acupuntura e medicina antroposófica. Depois do PMAC teve-se evidência de que outras práticas deveriam ser incluídas em 2017. Em 2018, outras 14 práticas foram incluídas. A justificativa tem sido de que elas são as mais comuns já praticadas na atenção primária no SUS. Esse crescimento ainda precisa de muita investigação, pesquisa, para a gente identificar onde está sendo feito, como está sendo feito, e todos esses elementos que dão mais crédito — ou descrédito — às práticas. É uma questão muito complexa. Se você levar em consideração que, no Brasil, existem mais de duzentos povos indígenas, e cada povo tem um conjunto de práticas de cuidado próprio, só aí nós temos mais de duzentas formas diferentes para serem investigadas no Brasil. E tem o que vem da China, da Índia, de outros povos da Europa, da América do Norte... São muitas práticas e decidir quais delas implantar em uma política é difícil e causa muito debate. Mesmo as 29 que já foram implantadas precisam de muito mais investigação. 

As PICS são alvo de preconceito? De que forma?

Nós fizemos uma pesquisa sobre Medicina Baseada em Evidências em que 48% dos entrevistados, alunos de medicina, responderam que eram contra o ensino da homeopatia. Aí a gente foi fazer uma entrevista aberta com eles. Aquele que respondeu que era contra porque acreditava que não tinha evidência científica, a entrevistadora interrompia. Então ela perguntava: “Mas quais são as evidências que você conhece de que não existem evidências?” E não sabiam responder. “Mas você fez uma pesquisa? Uma busca?”, ela insistia. E aí a resposta era “não, não conheço a literatura”. Isso caracteriza o paradoxo e demonstra exatamente o preconceito. O preconceito é uma reprodução de um saber não investigado. 

Como o atual contexto de subfinanciamento do SUS interfere na consolidação da política de PICS e na incorporação das práticas na assistência?

Na medida em que se subfinancia o SUS, todas as práticas são subfinanciadas. Na medida em que mudam os sistemas de pagamento, a gente não sabe como vai ser feita a inserção dessas práticas nas equipes de saúde da família, nos Núcleos Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica (Nasfs-AB). Há uma incerteza sobre os sistemas de pagamento no SUS e a inserção dessas práticas nas equipes de Saúde da Família. À medida que está mudando a estrutura organizacional dos serviços, a gente ainda não sabe exatamente o que vai acontecer. O que a gente já sabe é que o subfinanciamento causa danos ao Direito Constitucional que é o SUS. O SUS é a política que operacionaliza o direito constitucional da universalidade. Quando a gente tem isso ameaçado todas as outras práticas estão ameaçadas.