Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Global Science Collaboration.

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O biólogo Octavio Presgrave trabalha para que os animais um dia sejam desnecessários na pesquisa científica. Ele coordena o Centro Brasileiro para a Validação de métodos alternativos (BraCVAM). Criado em 2012, o Centro é o primeiro da América Latina e reúne grupos de pesquisadores com objetivo de comparar métodos inovadores, com intuito de validar estudos de substituição, redução ou refinamento do emprego de cobaias. Uma das metodologias, o HET-CAM, que está sendo o primeiro método a passar por um processo de validação no Brasil permite substituir etapas que usam coelhos para testar se um produto que vai ser lançado pode causar irritação ocular. “Ninguém sente prazer em utilizar o animal em nenhum experimento. São seres sencientes com os quais deve-se lidar com ética e responsabilidade”, afirma ele, que conversou sobre ética no uso dos animais com a Radis. Ele não arrisca uma previsão de quando será possível prescindir totalmente dos bichos, mas, enquanto isso não acontece, o pesquisador coordena a Comissão de Ética no Uso de Animais (Ceua) da Fiocruz, instância que avalia e licencia os procedimentos em que serão utilizados animais no sentido de preservar o bem estar e o cumprimento das normas legais nas pesquisas.

 

Você acredita que um dia os animais possam ser totalmente substituídos nas pesquisas científicas?

É o que buscamos, mas não sei quanto tempo isso vai demorar. Há 30 anos não podíamos imaginar determinadas ações que vemos hoje em dia. Tudo depende do avanço tecnológico e é claro que esse avanço é diretamente proporcional ao aporte financeiro que se tem na pesquisa em métodos de substituição. Já existe tecnologia avançada para algumas aplicações, por exemplo, o Human on a chip, uma placa onde se coloca tecido humano em cada compartimento, que simula corrente sanguínea e que ela passa por um sistema de células de órgãos do corpo humano. Isso poderá diminuir o número de animais na pesquisa, e, quem sabe, até de pessoas na pesquisa com humanos, porque vai se poder fazer uma triagem antes do estudo farmacocinético, por exemplo.

O pesquisador, em modo geral, vê o animal como um insumo? É por esse motivo que a Ceua deve ter uma preocupação especial?

Hoje, essa visão mudou muito, e mesmo antes da lei [Lei Arouca, ver matéria na pág. 21], alguns pesquisadores já começavam a ver o animal como um ser senciente e a tratá-lo com respeito. A lei só criou determinados parâmetros para uniformizar o tratamento ético dos animais. Os pesquisadores apresentam uma postura de respeito com os animais no sentido de que não são só seres vivos e sencientes, mas que são seres que estão contribuindo para o avanço científico.

Quais são os animais sencientes? Por que a legislação só cobre os vertebrados?

Toda legislação que normatiza uso de animais em pesquisa, não só a brasileira, é aplicável à proteção de vertebrados. A ideia de senciência é a de que o animal consegue perceber o que acontece ao redor dele, demonstrando angústia, ansiedade e dor. Muitas vezes o animal demonstra a dor de forma diferente do humano, podendo acontecer com o próprio vertebrado. O porquinho da índia, por exemplo, grita quando entra alguém na sala onde ficam as gaiolas de criação, mas isso não significa que esteja com dor. Essa vocalização não é um sinal de dor nem de estresse. Estudos mais recentes têm mostrado que um invertebrado, o polvo, tem terminações nervosas, e que consegue ter uma noção do que acontece ao redor dele, e reagir de uma determinada maneira que pode ser similar a uma percepção ou inteligência, então o uso de alguns animais está sendo incluído como tendo necessidade de serem submetidos a comissões de ética para avaliar os protocolos de experimentos. Na Europa, isso já é feito com o polvo e a lula, e alguns experimentos com outros invertebrados também estão sendo submetidos às Ceuas.

Qual é o limite do equilíbrio entre o mérito científico de uma pesquisa versus o grau de sofrimento por que o animal vai passar?

Quando se fala no mérito científico, pensamos no benefício que a pesquisa irá trazer para o futuro, seja para o homem ou para a saúde animal. Quando se induz no animal uma determinada doença para poder desenvolver e entender a fisiopatologia daquela doença de uma forma responsável, ética e não prejudicial, se tem o mérito científico nisso. Agora, repetir um experimento que já foi feito, ou simplesmente induzir alguma doença já conhecida sem um propósito específico, então não há mérito científico nesse tipo de desenvolvimento de pesquisa. Não se pode admitir um sofrimento extremo ao animal, não se pode por exemplo deixar o animal se queimar em uma placa quente. Mesmo que a pesquisa precise avaliar dor ou reação, quando ele der o primeiro sinal, se interrompe o procedimento.

O que acontece com o animal ao término de uma pesquisa? Pela lei todo animal ao fim da pesquisa deve ser submetido a eutanásia, que é uma forma de “morte responsável”, uma morte sem sofrimento. Em geral se faz uma anestesia no animal e depois se administra uma sobredose dessa anestesia. O termo “ponto final humanitário” diz respeito ao momento durante o processo de pesquisa em que antes mesmo que o animal desenvolva determinado efeito mais grave de doença, dor, ou venha a morrer, a pesquisa precisa ser interrompida ou o animal deve ser submetido à eutanásia. Ou seja, o ponto final humanitário é um desfecho, uma interrupção da sua experiência, antes que o animal venha a sofrer.

Qual o argumento que você utiliza com pessoas que são totalmente contra a utilização de animais na pesquisa?

Em geral o que eu costumo dizer é que o homem também é um animal de experimentação; ele é um ser que experimenta em outro animal e experimenta em si próprio. A pesquisa de medicamentos, por exemplo, tem uma fase pré-clínica onde se tem todo um desenvolvimento por meio de simulação por computação, depois passa-se para os métodos in vitro em seguida, se houver necessidade, usa o animal. Esse conjunto de resultados é que vai subsidiar a fase clínica onde, então, será usado o homem em todas as fases do estudo clínico. A utilização do animal é uma fase que antecede a utilização do homem enquanto animal de experimentação, a única diferença é que o animal não é um voluntário para a pesquisa, o homem é. A outra argumentação que costumo dar é que na verdade todos nós buscamos deixar de usar os animais. Ninguém sente prazer em utilizar o animal em nenhum experimento.

Você lida diretamente com o animal?

E qual é a responsabilidade de quem trabalha com essas vidas? Eu ainda lido com o animal. A primeira responsabilidade é ter respeito em relação ao ser vivo que está diante de você. A segunda responsabilidade é a de não fazê-lo sofrer, e a terceira é a de não utilizá-lo de uma forma irresponsável.