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Comunicação contribui para gerar invisibilidade, diz Sully Sampaio, do QualificaSUS

Poucas pessoas conhecem tão bem o interior do Amazonas como o cientista social Sully Sampaio. Atual coordenador da área dos cursos de atualização do QualificaSUS, projeto da Fiocruz Amazônia que tem o objetivo de oferecer cursos gratuitos em todos os níveis de capacitação e formação a mais de 5 mil profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) no Amazonas, ele desempenha seu trabalho com a desenvoltura de quem conhece pelo menos 45 dos 62 municípios do estado.

Vinculado ao Laboratório de Situação de Saúde e Gestão do Cuidado de Populações Indígenas e Outros Grupos Vulneráveis (Sagespi) na instituição, Sully participou da coordenação do curso técnico de formação profissional de agentes comunitários indígenas de saúde do Alto Rio Negro, no Amazonas, tema de reportagens nas edições 80 e 153 da Radis. A experiência também está registrada no livro “Atenção diferenciada: a formação técnica de agentes indígenas de saúde do Alto Rio Negro” (Editora Fiocruz), lançado em 2020, obra escrita em co-autoria com as pesquisadoras Luiza Garnelo (Fiocruz Amazônia) e Ana Lúcia Pontes (Ensp/Fiocruz).

Nesta entrevista, o pesquisador, que acumula experiências nas áreas de controle social, saúde indígena, representações sociais, educação em saúde, formação profissional, movimentos etno-políticos, pesquisa-ação e elaboração de materiais didáticos etnicamente adaptados à realidade indígena rionegrina, refletiu sobre o desconhecimento que ainda existe no país sobre a Região Norte, chamou atenção para aspectos invisíveis e para a romantização da vida na Amazônia, ressaltou a importância da comunicação neste cenário e deu exemplos de estratégias de resistência às dificuldades enfrentadas por quem vive a realidade de longas distâncias, falta de acesso aos serviços de saúde e poucas oportunidades de formação profissional. “Sem uma comunicação eficiente, as pessoas ficam cada vez e sempre mais esquecidas e invisibilizadas”.

[A entrevista é parte da reportagem que estará na edição de maio sobre a Região Norte do país. Aqui, você confere a conversa na íntegra]

Você considera que há uma certa invisibilidade da região Norte no restante do país? Que estratégias são possíveis para reverter esta situação?

Sem dúvida! A gente ouve isso desde que o mundo é mundo. Tanto que tem até piadinha: “E o Acre existe?” As pessoas, a imprensa e os meios de comunicação sudestinos fazem o possível para tornar essa invisibilidade permanente. Por outro lado, também existe um esforço enorme para diminuição dessa invisibilidade, estratégias para o aparecimento, que se não aparecem na mídia nacional, pelo menos repercutem na vida das pessoas. Uma destas estratégias é o projeto QualificaSUS. Os profissionais de saúde que atuam no interior não têm alternativas de estudo, de aperfeiçoamento, já que tudo acontece na capital. Também não existe conexão à internet eficiente nos interiores, é uma luta até para fazer curso a distância. Eu lembro de pessoas da área de Saúde Indígena de São Gabriel da Cachoeira, quando faziam curso na Escola Paulista de Medicina, desesperadas quando tinham que baixar algum vídeo para discussão em sala de aula, por exemplo. Elas não conseguiam baixar nunca. O QualificaSUS possibilita que estas pessoas sejam vistas e consigam se aperfeiçoar.

Há outras estratégias?

Hoje em dia as mídias sociais ajudam na construção dessa visibilidade, mas há muito tempo as pessoas que vivem nos interiores utilizam outros recursos, como a radiofonia. Eu acredito que o uso do rádio nas comunidades seja uma forma de diminuir a invisibilidade, já que possibilita a comunicação entre as pessoas. Você vivenciou isso em São Gabriel da Cachoeira [no Noroeste do estado], quando acompanhou o pedido de resgate de um doente em Cucuí [Distrito de São Gabriel da Cachoeira que fica na fronteira do Amazonas com a Colômbia e Venezuela. Leia essa história na Radis 80]. As pessoas criam estratégias para diminuir as distâncias. Claro que umas com sucesso; outras, nem tanto. Na maioria das vezes, essas estratégias existem no plano local. A radiofonia, por exemplo, funciona em São Gabriel, naquele contexto. Quem mora lá sabe a luta que é se comunicar com os interiores, já que a telefonia celular no interior do Amazonas é sofrida. Houve um episódio em Lábrea [no Sul do Amazonas] que ilustra bem essa realidade. Roubaram a bateria da antena de uma operadora de telefonia móvel. Todas as pessoas começaram a comprar chip da operadora concorrente, que continuava funcionando. O que foi que aconteceu? Sobrecarregou o sistema e ninguém mais conseguiu se comunicar na cidade. A questão da comunicação é fundamental nesse processo de invisibilidade. Sem uma comunicação eficiente, as pessoas ficam cada vez e sempre mais esquecidas e invisibilizadas.

Você considera que há interesse em manter esta invisibilidade?

Eu acho que é parecido com o que acontece com a seca, no Nordeste. Todo mundo diz que vai resolver, mas ninguém resolve porque alguém ganha com isso. Mesmo com as tentativas de irrigação, quantos governos nós já tivemos que ganharam muito dinheiro e que não conseguiram resolver? O raciocínio é o mesmo. Falta interesse do poder público para resolver. Existe legislação, por exemplo, que obriga a empresa a instalar orelhões em aldeias indígenas com um número “x” de habitantes. Então eles vão e instalam. Mas a manutenção, esqueça. Isso em uma região onde caem muitos raios — e onde as antenas passam a servir como para-raios. Caiu um, acabou-se! A manutenção disso é caríssima, porque depende de pessoas de outros lugares, que não são nem de Manaus, muitas vezes. Ou então eles contratam algum barqueiro para transportar os técnicos que vão avaliar o problema. No caso de ser algo simples de resolver, eles resolvem; se não, espera-se a próxima viagem. Eu fico na dúvida se é algo proposital, se é falta de interesse ou se alguém está ganhando com isso. Eu não sei te dizer exatamente.

É possível identificar problemas relacionados à saúde decorrentes da precariedade da comunicação?

Não é consequência exclusiva da precariedade da comunicação, mas o que fica extremamente clara é a desigualdade que existe entre as capitais e as cidades do interior. Pode-se ver isso na distribuição de recursos, por exemplo, comparativamente com outras regiões do país. Manaus é o único lugar onde existe UTI no estado. Então, quando estourou a pandemia de covid-19, e pacientes do interior precisaram ser encaminhados para UTIs, foi um grande escândalo. Porque a desigualdade de condições ficou evidente. Não importa quem mora lá nos interiores, todos os recursos vão direto para a capital. Nos interiores, morreu muita gente de covid-19 porque não havia estrutura física, e ao vir para a capital, não havia capacidade instalada para receber toda a população do estado, porque todo mundo era encaminhado para cá. O maior impacto é exatamente este. As ações de alta e média complexidade, por exemplo, são ausentes nos municípios.

Sem uma regionalização estruturada, sobrecarrega-se o atendimento...

Exatamente. Existe Atenção Básica instalada em todos os municípios — não estou questionando se funciona bem ou mal — mas está presente. Agora, alta e média complexidade não tem. A relação da população do estado do Amazonas com o interior, principalmente das pessoas de Manaus, não é próxima. Diz-se que a cidade Manaus vira as costas para o rio e sua população. São poucos os que conhecem os municípios e mantém uma boa relação com eles. As pessoas ficam assustadas e admiradas quando eu digo que eu conheço aproximadamente 45 dos 62 municípios amazonenses. Eu trabalho viajando pelo interior, então, sei do que eu estou falando. Eu conheço as pessoas, eu conheço os lugares, e sei das dificuldades que enfrentam.

Por exemplo?

Tenho exemplos muito práticos de perdas. Um rapaz sofreu um acidente de moto na cidade de Japurá [no Noroeste do Amazonas]. Ele precisou ser levado a Maraã, porque em Japurá não havia como ajudá-lo, e ele sentia muitas dores. De Japurá para Maraã são sete horas de viagem em uma “lancha rápida”. Quando chegou a Maraã, que foram examinar o rapaz em um pequeno hospital, viram que ele estava completamente estourado. Ao bater a moto em uma vaca e cair, ele perfurou alguns órgãos e estava com hemorragia interna. Ele ainda foi levado a Tefé, mas não aguentou, morreu no meio do caminho. De Japurá, onde ele morava, até Tefé são 13 a 14 horas de viagem. São distâncias que são invisíveis para quem não conhece o interior. Então, até para pensar em oferecer qualquer oportunidade de acesso a políticas públicas, as distâncias são uma informação importantíssima, sem contar com o movimento das águas de cheias e secas de rios, que torna alguns lugares ainda mais inacessíveis.

Pensando nos 50 municípios que você já visitou, que experiência positiva você destacaria?

A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) é um bom exemplo de sucesso. Porque eles estabeleceram um sistema de cotas (para indígenas, pessoas dos interiores, entre outros) que está conseguindo capilarizar a formação profissional. Na maioria das vezes, os profissionais graduados pela UEA voltam aos seus municípios para trabalhar. Isso é uma coisa que eu acho que é bem legal. Um outro exemplo seria a própria história do QualificaSUS, já que não traz as pessoas para Manaus, leva uma formação até onde elas estão.

Como funciona o QualificaSUS?

Ele se divide em três frentes: os cursos de atualização, feitos para os agentes comunitários de saúde e de endemias — profissionais que muitas vezes são contratados sem nenhuma e/ou pouca formação, sem saber a importância do seu papel na equipe da atenção básica e do seu papel político, inclusive; os cursos de especialização, que são direcionados aos profissionais de nível superior que não conseguem vir à capital estudar porque são atarefadíssimos nos seus municípios — ou que não conseguem fazer cursos à distância porque não têm uma internet operante, por exemplo; e também existe um curso de mestrado profissional. São três frentes de trabalho, cujo objetivo principal é o fortalecimento dos sistemas municipais de saúde. Você capacita as pessoas nos municípios para fortalecer e melhorar o serviço que é oferecido à população daquele lugar.

Quais os principais estereótipos relacionados à vida no Amazonas?

Lembro de algo que aconteceu certa vez em São Gabriel, quando a esposa de um militar postou no Facebook que estava cansada de viver lá, porque o lugar mais próximo para se ter uma conversa, uma interlocução inteligente, ficava a mais de 800 quilômetros, que era a capital, Manaus. Dizia que lá só havia um bando de índios ignorantes e feios, reclamava que tudo era muito caro e difícil, e que não tinha comunicação com outros lugares. Isso é discurso recorrente entre as pessoas que vem de fora. O esposo fora transferido às pressas do município porque os munícipes ficaram revoltados quando a postagem foi amplamente compartilhada e impressa e distribuída em comércios.

Como você lida com isso?

Quando eu viajo, eu costumo dizer: “vou bem ali, conhecer lugares, pessoas e suas histórias”. Porque se você não se dispuser a ouvir quem está na ponta, conhecer as suas histórias, conhecer o lugar, qualquer iniciativa sua está fadada ao insucesso. Existem discursos preconceituosos e etnocêntricos em todos os campos, em todos os lugares, eu sei que é difícil “limpar” isso completamente, porque a gente é fruto dessa sociedade. Mas se você se despir disso, você tem uma probabilidade maior de sucesso. Quando você resolve realmente conhecer e ouvir as pessoas e quais são as suas experiências e estratégias para lidar com os problemas do cotidiano, você cresce, aprende e deixa de ser o dono da verdade. Você não pode ir a lugares remotos como o dono da verdade, porque lá existe uma tradição, tem uma história e um modo de viver que não dá para desconsiderar.

Como os profissionais que vêm de outras regiões encaram o trabalho na Amazônia?

As primeiras pessoas que vieram trabalhar no Distrito Sanitário Indígena (DSEI), no Alto Rio Negro, vieram seduzidas pela oportunidade financeira. Naquele momento, elas não recebiam, nas grandes capitais, um salário para início de carreira no mesmo valor que a Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena] pagava. Mas também havia, entre elas, um comprometimento, a compreensão de que trabalhavam com uma população vulnerável, que não tinha acesso à saúde de qualidade. Isso talvez por conta da formação preparatória que tinham, entendendo a cultura da região e as especificidades das pessoas que viviam nela. Não era apenas uma visão técnica de prestação de serviço. Por outro lado, também havia, entre elas, as que vieram pra cá com a visão romântica de “ah, eu vou morar na Amazônia, viver na floresta, viver do que eu produzo...”. Isso não existe.

Você percebe que existe romantização sobre o que é viver na Amazônia?

Não sei se usaria a palavra romantização, mas existe, sim. Essa visão, no entanto, se desmonta com o tempo. Viver na Amazônia não é romântico. É sofrido. Em determinadas épocas do ano, dependendo do lugar onde esteja, você fica isolado, porque não tem rio para você navegar. Aqui não há estradas acessíveis de um município para o outro, são pouquíssimos os lugares que têm estradas. Essa romantização vai acabando e aí, dependendo da pessoa, pode até gerar um outro sentimento, que é de revolta. “Esses índios são todos preguiçosos, não fazem nada, não lutam pela construção de estrada, porque isso, porque aquilo”, entendeu? Mas isso depende muito da trajetória de vida das pessoas e da sua visão de mundo.

Já vi pessoas defendendo a visão de que a precariedade de condições seria parte da formação dos profissionais de saúde...

Isso acaba justificando muito a falta de investimento em estrutura, em equipamentos. Eles dizem: “Quero ver é vir trabalhar aqui, com os recursos que temos!” Eu lembro de um caso, logo quando foram implantados os DSEI, quando ainda havia cursos de formação antropológica — acho que era chamado assim, ou introdução à etnologia indígena, não lembro, depois acabaram, por conta da enorme rotatividade de profissionais — que ilustra isso. Neste tempo, o chefe de um DSEI me contou que havia mandado um grupo de novatos para uma região conhecida pelo difícil acesso, com um rio com muitas cachoeiras. Para se ter uma ideia de como era difícil chegar lá, um agente de saúde dizia que “se foi Deus que criou as cachoeiras, ele colocou todas naquele rio”. O que o chefe do DSEI pensava era que se o profissional aguentasse ficar lá, era bom de trabalho. Questões técnicas eram deixadas de lado. Não importava se ele tinha capacidade técnica ou não, mas sim menor potencial para reclamar, vamos dizer assim.

Por outro lado, isso reforça a ideia de que a população tem que se conformar com qualquer serviço...

É, sem dúvida. Olha, eu lembro de uma ocasião, eu fui para o encerramento de um curso em uma das cidades do interior, e o chefe da Endemias fez um discurso de agradecimento em que falou algo que eu não havia pensado ainda. Ele agradeceu à Fiocruz, por levar o curso ao município e explicou: “Os cursos são oferecidos na capital, para os 62 municípios do Amazonas; são geralmente uma ou duas vagas por município, o que afunila a participação e a possibilidade de formação desses profissionais. Vocês estão nadando contra a corrente, fazendo o inverso. Ao oferecer o curso no próprio município, ofertando por exemplo 50 vagas nos cursos de atualização, você capacita 50 pessoas no município, em uma única turma. Se vocês oferecerem quatro, cinco turmas, é possível capacitar 100% dos profissionais”. O que ele queria dizer é que ao retornar aos seus municípios estes poucos trabalhadores capacitados se veem impossibilitados de colocar em prática o que aprenderam, por conta da organização do processo de trabalho, da sobrecarga de tarefas que decorrem do seu afastamento, inclusive inviabilizando a discussão com seus pares. Eu achei interessante esse ponto de vista.