Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Saulo Angelo/AM Press & Images/Folhapress.

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A água barrenta e com cheiro de terra que saiu das torneiras das casas de nove milhões de cariocas e fluminenses no início de janeiro é resultado da falta de saneamento que atinge a grande maioria das comunidades da Baixada Fluminense, concluíram pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em nota técnica divulgada em 16/1, eles alertaram a Companhia de Águas e Esgotos (Cedae) para uma ameaça real à segurança hídrica no estado e recomendaram que investir na solução do problema é urgente e estratégico.

A Cedae, por outro lado, a princípio creditou a presença de geosmina, substância orgânica produzida por algas, como responsável pela alteração na qualidade da água. Os pesquisadores da UFRJ discordaram: “Lançam toda essa sujeira no rio Guandu antes da captação da água para tratamento. Essa água precisa ser extremamente tratada para se tornar potável”, explicou a professora Sandra Azevedo ao jornal Extra (17/1).

O professor de biologia Francisco Esteves destacou a ligação entre a crise hídrica no Rio com o desrespeito ao direito humano à agua e ao saneamento — “Os mananciais recebem poluição doméstica e industrial”, afirmou à Record News — enquanto o engenheiro químico Gandhi Giordano alertou para a falta de saneamento: “Sem resolver a emissão de esgoto, o problema não terá solução”, declarou ao site UOL (16/1).

A Cedae insistiu na afirmação de que a geosmina não oferecia riscos à saúde e apostou na melhoria da qualidade da água com a introdução de carvão ativado nos reservatórios. A solução, classificada de “quebra-galho” pelo biólogo Mário Moscatelli, não funcionou. “A geosmina é a ponta do iceberg da falta de saneamento”, declarou ao G1 (16/1).

As críticas continuaram: “O descalabro do fornecimento de água suja e contaminada é resultado da negligência dos poderes públicos”, acusou Iene Figueiredo, da Escola Politécnica da UFRJ, ao site IHU On-Line. Para ela, faltaram fiscalização e cumprimento da lei, além de investimentos na gestão dos recursos hídricos. A professora lembrou que apenas 46,3% dos esgotos gerados no Brasil em 2018 foram conduzidos ao tratamento e pediu a aplicação das leis e das políticas públicas já existentes.

O site The Intercept chegou a classificar a desigualdade no acesso à água no Rio de Janeiro como um caso de racismo ambiental, já que o Estado é quem determina quais regiões vão receber tratamento de esgoto e água encanada e quais vão estar expostas a rejeitos tóxicos ou aos efeitos diretos de indústrias poluidoras. A UFRJ também listou a insuficiência da rede de saneamento básico, o crescimento populacional e a ocupação urbana desordenada como principais motivadores da crise. “Essa degradação compromete a qualidade da água, dificulta seu tratamento e pode colocar em risco a saúde pública”, advertiu a universidade na nota divulgada, que prevê crises semelhantes em um futuro próximo. Não precisaram esperar muito. Um mês após o início da crise (3/2), a Cedae identificou detergente na água captada no rio Guandu.