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O 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira indica não haver uma epidemia de drogas ilícitas no país e aponta o álcool como a substância de maior uso entre os brasileiros. O levantamento, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ouviu cerca de 17 mil pessoas com idades entre 12 e 65 anos em todo o Brasil, entre maio e outubro de 2015. Foi concluído em 2016, mas em dezembro de 2017 o governo federal embargou a divulgação dos dados, sob o argumento de que discordava da metodologia empregada. A Fiocruz afirmou que usou a mesma metodologia da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar, a Pnad, do IBGE.

Segundo os números divulgados (8/8), mais da metade da população entre 12 a 65 anos declarou ter consumido pelo menos uma vez bebida alcoólica no período estudado, enquanto 7,7% dos brasileiros usaram maconha, e 3,1% consumiram cocaína em pó. O levantamento revela o tamanho do problema a ser enfrentado pelas políticas de saúde em relação ao uso de álcool: cerca de 46 milhões (30,1%) de pessoas tinham consumido ao menos uma dose nos 30 dias anteriores à pesquisa e aproximadamente 2,3 milhões de pessoas apresentaram critérios de dependência, como registrou o Portal Fiocruz (8/8).

O estudo ainda registra que 3,2% dos brasileiros usaram drogas ilegais nos 12 meses anteriores à pesquisa (4,9 milhões de pessoas). Homens (5%) e jovens entre 18 e 24 anos (7,4%) foram os maiores usuários. Em relação ao crack, cerca de 1,4 milhão de pessoas entre 12 e 65 anos, em sua maior parte homens, relataram o uso da droga (ou similares) alguma vez na vida (0,9%).

O levantamento também avalia a percepção dos brasileiros sobre o uso de drogas. Para 44,5% das pessoas ouvidas, o crack é o maior responsável pelas mortes no país, e não o álcool (26,7%). “Os principais estudos sobre o tema, como a pesquisa de cargas de doenças da Organização Mundial da Saúde, não deixam dúvidas: o álcool é a substância mais associada, direta ou indiretamente, a danos à saúde que levam à morte”, ponderou Francisco Bastos, coordenador do levantamento e pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz), ao Portal Fiocruz.

A relação entre álcool e diferentes formas de violência também foi abordada pelo estudo, apresentando um panorama contundente. Aproximadamente 14% dos homens brasileiros de 12 a 65 anos e 1,8% das mulheres dirigiram após consumir bebida alcoólica, nos 12 meses anteriores à entrevista. A percentagem de pessoas que estiveram envolvidas em acidentes de trânsito enquanto estavam sob o efeito de álcool foi de 0,7%. O levantamento mostra que os brasileiros são favoráveis a medidas de controle para diminuir o uso e os problemas decorrentes do álcool (ver quadro).

A pesquisa também informa que medicamentos de uso controlado, conhecidos como “tarja preta”, foram consumidos de forma não prescrita ou de modo diferente ao recomendado pelo médico por 0,6% e 0,4% da população brasileira, respectivamente. “É um número que revela um padrão muito preocupante, e que faz lembrar o problema norte-americano de uma década atrás, em termos de classe de substâncias”, alerta o coordenador.

Ao Portal Fiocruz, Francisco Bastos observou que os jovens brasileiros estão consumindo drogas com mais potencial de provocar danos e riscos, como o próprio crack, e que há uma tendência ao uso simultâneo de drogas diferentes. “Por isso é tão importante atualizar os dados epidemiológicos disponíveis no país, para responder às perguntas de um tema como o consumo de drogas, que se torna ainda mais complexo num país tão heterogêneo quanto o Brasil”, observou. O levantamento pode ser acessado em: https://bit.ly/344qbMr

O que os brasileiros pensam sobre o controle do álcool

• Aumento de impostos para pagar por saúde, educação e os custos de tratamento de problemas relacionados ao álcool (65%)

• Controle da propaganda de álcool (65%)

• Proibição do patrocínio de eventos esportivos por marcas de bebidas alcoólicas (60%)

• Implementação de alvará/licença para permitir a venda de bebidas alcoólicas (62%)

• Redução do horário de funcionamento de bares e casas noturnas (60%)

• Redução do número de estabelecimentos que vendem álcool (52%)

• Aumento do preço das bebidas alcoólicas (44%)