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Importância do SUS, leitos de UTI e curva epidemiológica: um panorama principais discussões relacionadas à pandemia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o estágio de preocupação e declarou, em 11 de março, que está em curso uma pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) que provoca a doença nomeada Covid-19. Desde 31 de dezembro, quando a China comunicou a circulação de um vírus de novo tipo, os casos já alcançaram 156 países ou territórios, segundo levantamento da Universidade John Hopkins (18/3). O termo “pandemia” significa que a circulação ocorre em todo o mundo ao mesmo tempo — e não está mais localizada em uma única região do globo. Em novo alerta, dois dias depois, a organização destacou que a Europa é o novo epicentro do coronavírus, com mais casos sendo registrados todos os dias do que a China no auge da epidemia.

O Brasil registrou a primeira ocorrência em 26 de fevereiro. Em meados de março, até o fechamento desta edição, já eram 291 casos confirmados e a primeira morte, um homem de 62 anos em São Paulo, de acordo com o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde (17/3). Os governos de São Paulo e Rio de Janeiro — estados em que até então se concentram o maior número de casos — decretaram situação de emergência. Medidas como suspensão das aulas, fechamento de estabelecimentos comerciais e órgãos públicos e recomendação para as pessoas ficarem em casa já foram adotadas em vários estados. Radis reuniu um panorama das principais discussões relacionadas à pandemia.

SUS É ESSENCIAL

Ainda bem que temos o SUS, pois os sistemas nacionais e universais compreendem de maneira mais completa os fenômenos em saúde (Gastão Wagner, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, em entrevista ao site da Abrasco, em 12/3)

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Divulgação.

Como retardar o pico da epidemia

Leitos de UTI: Como dar conta?

A OMS recomenda a relação de 1 a 3 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) a cada 10 mil habitantes e o novo coronavírus acendeu um alerta em relação ao Brasil. O El País (17/3) destacou que estimativas de epidemiologistas apontam que 5% dos infectados pela Covid-19 poderão precisar de internação em UTI. Entretanto, a maioria dos leitos para adultos (mais de 80%) já estavam ocupados antes da pandemia. O jornal também destacou que o governo considera a possibilidade de usar leitos de hospitais privados para atender pacientes do SUS caso a demanda aumente de maneira exponencial. O Ministério da Saúde (MS) anunciou ainda R$ 656 milhões para a instalação de dois mil leitos de UTIs previstos (19/3). Os estados deverão oferecer os espaços físicos e as equipes de saúde.


Por que “achatar a curva”?

A preocupação das autoridades sanitárias no mundo todo é com a capacidade de dar atenção a todos os doentes, no momento em que eles precisam. Para isso, os esforços são para “achatar a curva” de contágio: o vírus se espalha muito rapidamente, o que vai contribuir para que mais doentes procurem os serviços de saúde, que não darão conta de atender toda a demanda. É o que mostra um gráfico publicado (5/3) pela jornalista visual da revista The Economist, Rosamund Pearce, e modificado com informações do especialista em saúde pública Drew Harris — a imagem ganhou grande repercussão nas redes sociais. O crucial não é a gravidade da doença em si, afirmou o G1 (12/3), mas o fato de que não há leitos, máscaras, respiradores e outros equipamentos para quem precisa. Por isso, medidas como a quarentena, evitar aglomerações e as condutas de prevenção recomendadas são fundamentais para desacelerar o ritmo de transmissão.

Proteger, identificar e cuidar

“Não podemos achar que esse vírus vai se instalar entre nós e ser apenas mais um responsável pela gripe, pois ele tem taxas de transmissibilidade muito elevadas e sua letalidade não é baixa”, afirma editorial da Revista Brasileira de Epidemiologia (16/3), assinado por Antônio Augusto Moura da Silva, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Para o pesquisador, a epidemia está se espalhando no mundo em parte pela demora em testar os suspeitos, dar os resultados e isolá-los, e pela falha na proteção dos profissionais de saúde, o que está gerando disseminação também a partir dos serviços de saúde. Por isso, ele propõe três medidas efetivas de acordo com as evidências científicas: 1) proteger os profissionais com equipamentos adequados; 2) realizar testes para identificar os sintomáticos; e 3) colocar os comunicantes (pessoas que tiveram contato próximo com caso suspeito ou confirmado) em quarentena.

Hora de revogar o teto

Para o Conselho Nacional de Saúde (CNS), é necessária a revogação imediata da “Emenda do Teto dos Gastos” (EC 95), que congelou os investimentos públicos por 20 anos, a partir de 2016: mesmo que ocorra um cenário de crise sanitária, o Estado fica impedido de ampliar os recursos para áreas como a saúde. “A autoproibição orçamentária que foi criada em 2016 é um suicídio econômico, político e social”, afirma nota do CNS (14/3). Esse também é o entendimento de Victor Grabois, presidente da Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (Sobrasp). “Como responder a uma pandemia em um país como o Brasil, demandando leitos de terapia intensiva e ampliação da atenção básica, em mais de 6 mil municípios e 26 estados e no DF, sem o aporte de novos recursos?”, questionou em entrevista ao site da Abrasco (12/3).

Sempre os mais vulneráveis

“As classes médias podem se isolar, usar álcool em gel, fazer coisas pela internet. Os pobres, não. Quando a epidemia explodir, ela vai dizimar os pobres desse país. Podemos retardar a explosão dessa epidemia. Mas, quando ela explodir, vai flagelar especialmente a população pobre. As condições de vida dessa população favorecem o coronavírus. Nas casas onde moram vivem muitas pessoas, há poluição ambiental, é preciso trabalhar o tempo todo. Essa precariedade não está sendo objeto de políticas públicas no Brasil” (Lígia Bahia, médica sanitarista e professora da UFRJ, em entrevista à TV Tutameia, em 16/3).

Vacina à vista?

A estimativa é que dentro de um ano e meio uma vacina contra o Covid-19 possa ser disponibilizada no mercado, o que já é considerado um tempo recorde, na avaliação do professor Helder Nakaya, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, em entrevista ao Jornal da USP (11/3). Segundo ele, as vacinas estão no começo da fase de testes em humanos, para averiguar questões de segurança. O presidente norte-americano, Donald Trump, pediu “pressa” dos pesquisadores e afirmou que a vacina pode sair “em alguns meses”, mas foi desmentido pelo diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, Anthony Fauci. Outro pesquisador norte-americano, H. Holden Thorp, editor da revista Science, rebateu a “pressa” de Trump lembrando os cortes e os ataques feitos anteriormente pelo presidente às instituições científicas.

Testes: como saber?

A OMS fez um apelo (16/3) para que os países apliquem testes em massa para isolar quem está infectado. O diretorgeral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reforçou que a forma mais eficaz de salvar vidas é quebrar a cadeia de transmissão. No entanto, a estratégia inicialmente adotada no Brasil — e mantida até o fechamento desta edição — foi testar apenas casos mais graves. O critério do Ministério da Saúde não seria mudado na fase de mitigação, noticiou o G1 (16/3). Em coletiva de imprensa (17/3), o órgão reconheceu a falta de testes no Brasil e informou que a Fiocruz entregaria 5,5 mil kits diagnóstico, além de outros 30 mil disponibilizados no início de março, prometendo mais 40 mil extras em abril.

A estratégia da Coreia do Sul em oferecer teste para todos os casos suspeitos tem sido apontada como um exemplo de como lidar com a pandemia. Segundo a BBC Brasil (16/3), tanto o país asiático quanto os Estados Unidos anunciaram o primeiro caso de Covid-19 no mesmo dia, 20 de janeiro; mas até meados de março, os americanos tinham feito teste em 4,3 mil pessoas em seu território e a Coreia do Sul chegou a 196 mil no mesmo período. O resultado é que, apesar do alto número de casos (8.162), o número de mortes no país foi de 75 até 16/3.