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“As mulheres do zika foram esquecidas”, denunciou Debora Diniz, em artigo publicado na revista Carta Capital (6/2). Pesquisadora do Instituto de Bioética (Anis) e integrante da Rede Nacional de Especialistas em Zika e Doenças Correlatas, do Ministério da Saúde, ela escreveu sobre as mães e crianças “abandonadas pela política pública, que sobrevivem como podem a uma das maiores tragédias já vistas no Brasil”. Debora, que é autora do livro “Zika — Do Sertão Nordestino à Ameaça Global”, lançado em 2016 pela editora Civilização Brasileira (Radis 169), lamentou que, passados o alarme inicial em torno da doença, as eleições e as promessas feitas, o medo tenha se tornado realidade para as famílias vítimas do vírus.

“Não há mais candidato a vereador levando e trazendo as mulheres e crianças para os exames”, registrou a pesquisadora, lembrando que, um ano após a Organização Mundial da Saúde ter anunciado emergência global por conta da doença, os benefícios especiais, os centros de referência, os cuidados precoces se tornaram apenas promessa por conta da crise econômica. “O governo federal prometeu que toda criança seria feliz. Felicidade é promessa gigante para política pública; exige mais do que primeira dama de azul”, criticou a pesquisadora, referindo-se ao discurso pronunciado em agosto de 2016 por Marcela Temer, designada embaixadora do programa Criança Feliz, do governo federal, quando a primeira dama declarou que se sentia feliz por “colaborar com as causas sociais”.

Debora narrou as condições em que vivem as mães de filhos vítimas da zika, no sertão de Alagoas — sem alimentação ideal e sem condições de transporte para atendimento — e fala de uma segunda geração de mulheres que se infectou com o vírus na gravidez, cujos filhos nasceram afetados pela síndrome neurológica. “Não sei se há alguém feliz nesta tragédia humanitária”, questiona Debora, advertindo que muito ainda há por se fazer. “Talvez, haja gente aliviada pelo silêncio. Se não houve pressão pública pelo anúncio do primeiro ano da epidemia global, é porque o problema não mais existe: zika acabou no Brasil, dizem alguns”.

Opinião semelhante foi manifestada pela primeira médica a detectar a ligação entre o zika vírus e os fetos com má formação. Em entrevista à Agência Reuters (7/2), Adriana Melo, do Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (Isea), em Campina Grande (PB), disse que o Brasil esqueceu rápido demais a tragédia das mães e dos dois mil bebês nascidos com microcefalia e corre o risco de uma segunda onda de infecções, caso o vírus sofra mutação. Ela disse temer que a assistência de longo prazo “esteja começando a falhar agora que a crise passou e o interesse pelo assunto diminuiu”, e estimou que em aproximadamente uma década o Brasil terá uma nova geração de mães em potencial que não são imunes e, portanto, estarão vulneráveis, caso o vírus comece a circular novamente.

Na entrevista, ela atribuiu a diminuição do número de casos de microcefalia em recém-nascidos como resultado à imunidade adquirida pela população do Nordeste, região do país mais atingida pelo zika, mas advertiu que a doença vai seguir seu curso: “O que vai acontecer é que o vírus não vai desaparecer, ele veio para ficar e vamos ter casos esporádicos, vai ficar como qualquer megalovírus”, declarou. “Eu tenho medo de toda essa calma e de a gente baixar a guarda”, alertou, lembrando que não se deve relaxar na proteção contra o mosquito Aedes, que dissemina o vírus.