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Foto: Clemente Coelho Junior

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Desde 30 de agosto, as praias do Nordeste vêm sendo castigadas pelo vazamento de petróleo que atingiu em cheio a costa brasileira e já provocou uma crise ambiental de enormes proporções. Segundo comunicado da Marinha do Brasil, até o dia 22 de outubro, mais de mil toneladas de resíduos de óleo cru haviam sido coletadas. No dia 30, o balanço do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) dava conta de que o óleo já havia atingido 268 localidades, de 94 municípios, nos noves estados nordestinos. Para am- bientalistas ouvidos pela imprensa, o impacto ambiental e socioeconômico é incalculável, mas já se sabe que o Nordeste levará décadas para repor os danos. O biólogo e professor da Universidade de Pernambuco (UPE), Clemente Coelho Júnior, foi mais longe. Em entrevista ao Jornal do Commercio (20/10), ele falou sobre os riscos de parte desse petróleo se solidificar, ficando incorporado à paisagem para sempre.

Dois meses depois do vazamento, as causas ainda não eram conhecidas. O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar: “Não é do Brasil, não é responsabilidade nossa” (O Globo, 7/10). Ele insinuava que o material encontrado na costa nordestina tinha origem venezuelana. Mas em reporta- gem no Uol (25/10), a PDVSA, empresa estatal de petróleo da Venezuela, criticou a “certeza” do governo brasileiro e cobrou a identificação do petroleiro que teria vazado o produto. As hipóteses sobre as causas do vazamento vão desde naufrágios e derramamentos acidentais até a suspeição de transferência de petróleo de um navio para outro em alto mar. Em uma audiência pública na Comissão do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara, o diretor do Ibama, Olivaldi Alves Borges Oliveira, disse que que há uma possibilidade de que o vazamento tenha ocorrido “em de- corrência de perfuração de área de pré-sal”, como mostrou o portal Terra (30/10). Imagens coletadas por um laboratório de análise de satélites vinculado à Universidade Federal do Alagoas (UFAL) corroboraram essa hipótese ao detectar uma enorme mancha abaixo da superfície do mar em região da Bahia próxima à exploração do pré-sal. A Marinha nega que tenha relação com a tragédia nas praias nordestinas, segundo o portal G1 (30/10).

Independente das causas que devem de fato ser inves- tigadas, especialistas questionaram na imprensa por que as autoridades brasileira demoraram a agir diante da contami- nação. Até meados de outubro, o governo federal seguia sem explicar por que não acionou formalmente o Plano de
Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional, instituído por decreto ainda no primeiro mandato de Dilma Rousseff, em 2013, exatamente para casos como esse.

Em entrevista ao El País Brasil (21/10), a urbanista, ad- vogada e ambientalista Suely Vaz de Araújo, que presidiu o Ibama entre 2016 e janeiro de 2019, criticou o governo federal por agir de forma lenta. Segundo ela, o Plano de Contingência prevê uma estrutura organizacional, comitê executivo, grupo de acompanhamento e avaliação, para uma resposta coordenada e em rede — algo que não vinha acontecendo. A morosidade do governo fez com que o Ministério Público Federal ajuizasse ação (18/10) obrigando a União a acionar o Plano.

Questionada pela revista Piauí (21/10), a assessoria de imprensa do Ministério do Meio Ambiente afirmou em nota que “os procedimentos previstos no Plano Nacional de Contingência estão em curso desde o início de setembro”. Não informou, no entanto, quais procedimentos foram ado- tados e quando, nem esclareceu se os comitês executivo e de suporte do plano se reuniram em resposta aquele considerado pelo MPF como o maior acidente ambiental da história no litoral brasileiro em termos de extensão. Somente em 22 de outubro — isto é, 50 dias após os primeiros sinais de óleo despontarem na costa —, o governo federal começou a tratar a emergência ambiental no litoral da região com a gravidade que a situação exigia, pontuou reportagem no projeto #Colabora (22/10).

O derramamento no Nordeste é atípico porque o óleo está se espalhando sob a superfície do mar e só vem à tona quando chega às praias, o que dificulta seu monitoramento e sua contenção — as barreiras mais comuns disponíveis só são capazes de segurar os vazamentos superficiais, como explicou reportagem da Piauí. Desde o começo de setembro, equipes do Ibama foram mobilizadas para ajudar a recolher as manchas que chegam à praia. Mas o que vem chamando a atenção da imprensa no mundo inteiro é a verdadeira legião de voluntários que passou a organizar mutirões de limpeza, inclusive expondo-se a riscos uma vez que há compostos encontrados no óleo combustível, a exemplo do benzeno, que são altamente cancerígenos, como alertaram especialistas em matéria no G1 (24/10). A Fiocruz divulgou nota (30/10) reafirmando o compromisso de integrar a rede colaborativa institucional de resposta ao derrame de petróleo.

NAS PRAIAS E NAS REDES

O ruído das redes contrastava com o relativo silêncio das autoridades ou a cobertura muitas vezes burocrática da imprensa sobre o episódio. Por meio de redes sociais e grupos de Whatsapp, comunidades se articulavam para aju- dar, como voluntários, a conter o óleo que castiga a costa nordestina, pediam ajuda para equipamentos de proteção e davam dicas de saúde para quem se arriscava em contato com o material tóxico. Das praias de Pernambuco, vieram imagens, vídeos e áudios impac- tantes. A corrente solidária se alastrou pelo litoral. Na Bahia, houve mutirão organizado por surfistas. Em dois dias, os voluntários retiraram o equivalente a 3 mil litros de óleo de dentro dos man- guezais do rio Pojuca (PE), informou o portal G1 (22/10). “É um dos maiores desastres ambientais do mundo. Eu vi os estuários dos rios afetados. E, infelizmente, essa recuperação é muito lenta. Acho que vou morrer e não vou ver meio ambiente livre desse óleo”, disse o eletricista Jaílson da Silva, que ajudou a tirar petróleo do estuário do Rio Mamucabas, entre Tamandaré e Barreiros (PE).

O SERMÃO DO PESCADOR

Em quase desespero, o pescador Vandércio Sebastião de Santana, um desses voluntários, falou para uma câmera de celular durante um mutirão de limpeza. Morador da Praia de Suape (PE), uma das atingidas pelo óleo, ele parecia exausto depois de um dia inteiro retirando o 'piche' de uma bancada de arrecifes que protege a praia. Dal, como é conhecido, lembrou ter participado de uma simulação de acidente ainda em 2012, no Arquipélago de Abrolhos, na Bahia. “E agora, que é real, o que vocês estão fazendo?”, dizia ele, chamando à responsabilidade os órgãos oficiais e repetindo que o trabalho dos voluntários era apenas um paliativo. “Ajudem a natureza!” Veja o vídeo em https://bit.ly/2JhhdCF.

SALLES X GREENPEACE

Diante da crise ambiental, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entrou em discussão com ambientalistas e ONGs. Em Porto Alegre, foi recebido por um protesto em que manifestantes pintaram o rosto de preto numa referência ao petróleo derramado. Em uma dessas querelas, bateu de frente com o Greenpeace. Por meio das redes sociais, o ministro ironizou (21/10) o que chamou de ausência do Greenpeace entre os grupos de limpeza organizados por voluntários nas praias. Para isso, Salles utilizou um vídeo da própria entidade de proteção ambiental. O problema é que o ministro resolveu editar o material do Greenpeace publicado originalmente no dia 18/10, excluindo trechos e retirando de contexto algumas frases, como mostrou matéria da Folha de S.Paulo (21/10). A ONG contra-atacou: “O ministro mente e espalha falácias sobre a atuação de ONGs, como vimos nas queimadas na Amazônia, como forma de desviar a atenção da sua própria inação e incompetência.”