Radis Comunicação e Saúde

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Destaque na imprensa mundial em novembro, a morte do jogador de futebol argentino Diego Maradona expôs a dificuldade que ainda persiste em se tratar a dependência química como uma questão de saúde. Se por um lado os meios de comunicação dedicaram preciosos minutos e páginas às homenagens ao ídolo dos gramados, reafirmando suas habilidades em campo e sua capacidade de “superação” diante da origem humilde, por outro não foram poucas as menções aos inúmeros problemas enfrentados pelo jogador com as drogas e o crime organizado, além de sua incapacidade em superá-los. Enquadrado por jornalistas e comentaristas como “o gênio derrotado pela droga”, refirmou-se, sem cessar, a imagem da adicção como falha de caráter, sem que fossem questionados os seus contextos ou apresentadas alternativas ao problema, que atinge pessoas em todo o mundo, a maioria delas invisíveis para as câmeras de TV ou manchetes de jornal. Nas redes sociais, a situação não foi muito diferente, embora algumas vozes tenham se destacado por fugir do julgamento moral a que foi submetido o ídolo, destacando seu lado humano. “É impossível ficar indiferente a quem nos mostrou com a sua vida tudo aquilo que podemos ser com tanta intensidade. A história é escrita por pessoas assim: humanos demasiadamente para se tornarem deuses e deuses em demasia para serem simples viventes”, escreveu o psiquiatra e escritor Fernando Tenório, em seu perfil, no Facebook (25/11). No texto “Maradona e as drogas”, também postado no Facebook (26/11), o psiquiatra Luís Fernando Tófoli também criticou a tônica geral do que se ouvia naquele momento nas mídias: “Julgar Maradona por sua dependência química é medi-lo somente pelo estigma”. Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e cofundador do Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Leipsi), ele lembrou que, mesmo admitindo a possibilidade de que os excessos pudessem ter encurtado a vida do craque, julgá-lo “pelas hipotéticas limitações causadas por seu envolvimento com drogas” seria excluir de sua biografia “cenas memoráveis com a bola: sua origem nas favelas de Buenos Aires, a ausência de receio em se posicionar politicamente e até outras polêmicas”. Por fim, o especialista recomendou: “Nenhum dos supostos pecados de Maradona tornam menor quem ele foi e o que ele fez. E nem maior. Celebremos seu gênio, lamentemos sua falta, mas não deixemos o discurso moralista desmerecer o brilho de Dieguito. Ele fez o que fez, e viveu o que pôde. E não foi pouca coisa”.