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Ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos: "Por mais de 30 anos a ciência foi clara. Como ousam seguir ignorando os alertas e vir aqui para dizer que estão fazendo o bastante?". Fotografia: UN Photo/CIA PAK.

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O grito de jovens, militantes, ambientalistas, estudantes, professores e organizações sociais e a convocação de uma greve (20/9) pelo clima em mais de 150 países aumentaram ainda mais a pressão sobre lideranças mundiais reunidas na 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU 74), que ocorreu entre 24 de setembro e 4 de outubro, na sede da organização, em Nova York. A reunião incluiu temas de relevância para o futuro do desenvolvimento sustentável, do clima e da cobertura universal em saúde, e foi antecedida por pré-eventos, como a Cúpula do Clima (21/9).

A Cúpula do Clima trouxe inicialmente um tom de esperança da organização frente ao enorme desafio de combater o aquecimento global. Cooperação e mais envolvimento entre os países membros foi o pedido da ONU antes, durante e depois do evento. Ativistas aproveitaram o momento para cobrar mais envolvimento das 60 lideranças presentes. Em discurso pronunciado na abertura do evento — e replicado à exaustão nas redes sociais —, a ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, afirmou que sua infância “foi roubada por palavras vazias”, frase que também estampou manchetes do mundo inteiro. O que a imprensa em geral deixou de lado foi o questionamento feito por Greta sobre o modelo de desenvolvimento que gera problemas como o aquecimento global. “Estamos no início de uma extinção em massa e tudo o que vocês fazem é falar de dinheiro e contos de fada sobre um eterno crescimento econômico. Como se atrevem?”, questionou.

Greta e mais 15 jovens ativistas protocolaram uma queixa ao Comitê dos Direitos da Criança da ONU contra cinco países, entre eles o Brasil, por violarem os direitos infantis ao não fazerem o suficiente para impedir o aquecimento global, e pediram medidas urgentes contra as mudanças climáticas. O jornal O Globo (23/9) destacou a exclusão do Brasil nas discussões da Cúpula do Clima e também no debate sobre a Amazônia, organizado pelo presidente francês Emmanuel Macron — quando doadores se comprometeram a destinar US$ 500 milhões a mais para florestas tropicais.

A ativista Sônia Guajajara também esteve na Cúpula do Clima: "Nos unimos às vozes do mundo para denunciar o genocídio no Brasil e também para falar do papel dos povos indígenas e dos seus territórios em manter o equilíbrio do clima"

Fotografia: UN Photo/Ariana Lindquist.

Os resultados da Cúpula ficaram aquém das expectativas iniciais de Antonio Guterres, secretário geral da ONU. Segundo o site da Revista Exame (23/9), ele trabalhava para garantir que líderes ao redor do globo adotassem estratégias e compromissos mais concretos que os assumidos em 2015 durante a assinatura do Acordo de Paris, sobre redução das emissões de gases do efeito-estufa. O Globo (23/9) registrou que 66 países se comprometeram a alcançar a neutralidade do carbono até 2050, meta estabelecida pelos cientistas para conter o aquecimento da Terra em +1,5°C, em relação ao século 19 — a temperatura média na Terra já é de + 1ºC em relação ao período. A ONU anunciou também a criação de uma “Aliança de ambição pelo clima”, que abrange 59 países.

Em entrevista (24/9) ao jornal carioca, Paloma Costa, jovem brasileira que participou da Cúpula da Juventude para o Clima, que precedeu a Cúpula, se mostrou decepcionada com o que viu e ouviu em Nova York. “Não tem nenhum comprometimento. Fica claro que a gente está vivendo uma crise climática, e o resultado [do evento] foi muito pouco para o que a gente está precisando”, disse. A comprovação de que há uma mudança climática em curso foi dada pela própria organização que divulgou (25/9) um relatório que aponta que o aquecimento global pode afetar o oceano, as calotas polares e as áreas congeladas em montanhas e vai elevar o nível do mar em até 1 metro em 8 décadas.

A Cúpula do Clima acabou e logo depois foi iniciada (24/9) a Assembleia Geral da ONU que, por tradição, é aberta pelo Brasil. O G1 (24/9) avaliou que o presidente Jair Bolsonaro não adotou um tom conciliador em seu discurso, como prometido. O site registrou que sua fala “foi agressiva e de ataques a países, ONGs e lideranças indígenas, sem autocríticas à sua política ambiental e de reafirmação da soberania nacional para cuidar da região amazônica”. Para o G1, o presidente se dirigiu a seus próprios eleitores, a despeito de estar diante de chefes de Estado do mundo todo. O site afirmou também que Bolsonaro estaria em “cruzada para convencer a comunidade internacional sobre sua política ambiental” e levou a Nova York a indígena Ysani Kalapalo — atitude repudiada em documento assinado por caciques de 14 povos indígenas da região. O cacique Tafukuma Kalapalo, líder da tribo indígena da qual Ysani faz parte, foi o primeiro a assinar o protesto contra ela, observou o site da revista Época (24/9).