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Em meio à corrida para conter o avanço da covid-19 no Brasil, o conflito entre o presidente Jair Bolsonaro e o Ministério da Saúde sobre a manutenção do distanciamento social como medida para a propagação da doença levou à demissão do ministro, Luiz Henrique Mandetta. A troca já era esperada desde o início de abril, como noticiado pela imprensa, e o anúncio de que havia sido dispensado pelo presidente foi feito pelo próprio ministro, em uma rede social (16/4). Em seu lugar, Bolsonaro nomeou o oncologista Nelson Teich, com experiência na gestão privada da saúde.

O novo ministro tomou posse (17/4) e defendeu os testes em massa para conhecer melhor a propagação do vírus no país, o monitoramento de casos e a adoção de medicamentos e vacinas. Já Bolsonaro voltou a se posicionar a favor da reabertura do comércio, criticou mais uma vez os governadores pela adoção de medidas de distanciamento social e pediu a “volta à normalidade” para mitigar o impacto econômico das medidas restritivas, como salientou o Nexo Jornal (17/4). Desde março, o presidente defende o que tem sido chamado de “isolamento vertical”, em que somente idosos e pessoas com doenças crônicas ficariam em casa, como fez em um pronunciamento em rede nacional, em 24/3.

Teich assume o lugar do médico ortopedista e ex-deputado federal (DEM-MS), Luiz Henrique Mandetta, que chegou ao ministério em janeiro de 2019 substituindo o engenheiro Ricardo Barros (PP-PR). Titular da pasta desde o início do governo Bolsonaro, em janeiro de 2019, Mandetta enfrentou um processo de desgaste por divergências com o presidente desde a chegada do novo coronavírus no país: na cronologia da demissão divulgada pelo site da BBC Brasil (16/4), a crise começou com a saída do presidente à rua, em 15/3, quando desconsiderou as recomendações de distanciamento social e cumprimentou manifestantes. Se no início Mandetta ganhou espaço com a condução das medidas e estratégias de contenção, aos poucos foi perdendo esse protagonismo. A relação de ambos, que já estava ruim, tornou-se insustentável com a entrevista do ex-ministro da Saúde para o Fantástico, da TV Globo (12/4). Na conversa, Mandetta criticou as propostas para relaxar o isolamento e também o uso da cloroquina no início do tratamento de pessoas infectadas, principais ações defendidas por Bolsonaro. Por falta de evidências científicas, o Ministério da Saúde recomenda o uso apenas em casos graves e em pacientes internados (leia mais na página 6).

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) considerou “irresponsável”, em nota (16/4), a decisão do governo federal de demitir o ministro frente ao agravamento da pandemia. “A decisão reafirma que o governo sobrepõe o discurso econômico diante da vida da população, no momento em que se aprofundam as contradições da sociedade já marcada pela desigualdade e pela exploração humana, em especial para as populações mais vulnerabilizadas, que podem ter aumento exponencial em número de óbitos por serem as que mais sofrem os efeitos desta conjuntura”, afirma. Anteriormente, o CNS já havia criticado as medidas anunciadas pelo Ministério da Saúde, em 13/4, de flexibilizar normas em algumas cidades para que apenas grupos de risco permanecessem em distanciamento, contrariando o que recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS) no momento.

A imprensa internacional repercutiu a saída dando destaque à troca feita na pandemia e aos desentendimentos com o presidente Jair Bolsonaro. A Rádio França Internacional salientou (17/3) que a saída de Mandetta abriu um “período de incertezas no Brasil”. Quatro dias após a posse, Teich não tinha falado com a imprensa e dispensou a coletiva diária com a atualização das informações sobre o avanço do novo coronavírus, como observou o Jornal Nacional (20/4). Ele é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e especialista em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca). Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018 e foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência, chegando a ser cotado para ministro, como destacou o Estado de S. Paulo (16/4).