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De volta ao passado. É o que indica a série histórica do orçamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) entre 2001 e 2017: o valor previsto para 2017 — R$ 523 milhões — está abaixo dos R$ 552 milhões que representavam o orçamento da instituição no início dos anos 2000, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso. O atual momento enfrentado pela instituição contrasta com o período de 2007 a 2016, em que o volume de recursos destinados ao CNPq permaneceu acima de 1 bilhão de reais, tendo chegado a R$ 2,7 bilhões em 2014. Tais números compõem um painel alarmante vivido pela ciência brasileira no presente, com cortes de recursos, ameaça de fechamento de universidades públicas e interrupção de pesquisas estratégicas — que incluiu o corte de 44% no orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) realizado em março.

Os dados referentes ao CNPq foram divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo (17/8) e acompanham entrevista concedida por Jailson de Andrade, secretário de políticas e programas de desenvolvimento do MCTI, que afirmou que “não existe o risco do atraso” nas bolsas, para em seguida dizer que “o risco não é zero”. Segundo ele, a pasta está tentando “manejar” a ameaça de corte no pagamento de bolsistas. “Quando falamos ‘bolsas’ são indivíduos. Qualquer atraso que ocorra, é um desastre para o estudante ou para o cientista”, admitiu. Segundo o site de Carta Capital (21/8), o CNPq divulgou recentemente que só conseguirá manter o financiamento de pesquisas no país até setembro, pois atingiu o teto orçamentário. De acordo com o presidente da instituição, Mario Neto Borges, em entrevista ao veículo, como não é considerada um valor, a ciência é a primeira a ser cortada.

A palavra atraso passou a ser recorrente no cotidiano dos servidores estaduais do Rio de Janeiro, entre eles professores e técnicos-administrativos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Até meados de agosto, os servidores da instituição estavam com três meses de salários atrasados e a Uerj ainda não havia começado o ano letivo de 2017 por falta de recursos. Como publicou o movimento #Uerjresiste (17/8), formado por professores, técnicos e alunos da universidade, embora o governo tenha divulgado que quitou seus débitos com servidores, “essa não é bem a verdade”, pois há servidores que não recebem desde janeiro. “O décimo terceiro relativo ao ano passado não foi pago, assim como também não foi paga a primeira parcela do décimo terceiro de 2017 (que deveria ter sido quitada até o final de julho deste ano). Muitos servidores também não receberam seu adicional de férias”, declarou o movimento, ao apontar ainda que é mais dramática a situação dos professores contratados, que não recebem desde janeiro.

A crise, com ameaça de fechamento e interrupção de pesquisas, é vivida por outras universidades públicas. Como noticiou o Estado de Minas (7/8), diante de cortes de verbas pelo quarto ano consecutivo, várias universidades mineiras foram surpreendidas em seu processo de expansão e temem parar de funcionar até o fim do ano. O estado tem a maior concentração de universidades federais (ao todo são 11) e, segundo a notícia, todas agonizam com atrasos e bloqueios de recursos. De acordo com o levantamento do veículo feito em sete das federais mineiras, 23,7% dos R$ 754 milhões previstos na lei orçamentária deste ano (R$ 179 milhões) ainda não foram liberados ou estão contingenciados. Também na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os alunos de iniciação científica podem ficar sem bolsas do CNPq a partir de setembro, segundo comunicado da Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa aos docentes da universidade, como noticiou O Globo (3/8).

Em contrapartida, os cientistas brasileiros mantêm o alerta sobre cortes na área de ciência e tecnologia. Segundo a campanha “Conhecimento sem cortes”, a tesourada no orçamento das universidades públicas e da ciência e tecnologia já chegou a mais de R$ 11 bilhões de reais desde 2015, como Radis publicou em julho (178). Uma nova edição da Marcha pela Ciência está marcada para 2 de setembro, no Rio de Janeiro, em frente ao Museu do Amanhã — a primeira edição ocorreu em abril, em defesa da valorização do trabalho dos cientistas e contra as medidas que prejudicam a pesquisa, como o corte de verbas e decisões políticas conservadoras (Radis 176). Já os estudantes da Fiocruz fizeram uma paralisação no dia 22 de agosto contra o possível corte de bolsas do CNPq. Como noticiou O Globo (23/8), sem os alunos de pós-graduação, alguns projetos estratégicos podem ficar inviáveis, afirmou o vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da instituição, Manoel Barral Netto.