Radis Comunicação e Saúde

Consultorio de rua em Curitiba

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Defendam, protejam e valorizem as trabalhadoras e trabalhadores da saúde. Defendam o SUS. Ele é do povo. É ele que vai salvar nossa gente.

Eu estava em casa em meio às tarefas do dia, quando tocou a campainha. Do outro lado do portão, três mulheres paramentadas com máscaras, toucas e capotes aguardavam alguém nosso atender ao chamado. Eram profissionais de saúde da unidade de saúde da família aqui da nossa área, bairro de Fátima, em Santarém, estado do Pará. As três buscavam por idosas e idosos para vacinar contra a gripe. Estavam em carro próprio com um isopor cheio de vacinas, a cuidar de casa em casa, independente da pessoa ser cadastrada no SUS ou não, de ser brasileira ou não, de ter documentos de identificação em dia, de ter carteira assinada ou ser aposentada, de ter contribuído com a previdência pública ou privada, de estar quite com suas obrigações eleitorais. Elas chegaram e perguntaram: “Tem algum idoso ou idosa, na tua casa, que ainda não conseguiu se vacinar?”

Temos dois idosos em casa. “Meu pai e minha mãe”, disse às profissionais. Mas meu pai já havia se vacinado, na semana anterior, em uma das unidades móveis de vacinação instaladas pela cidade. Essa unidade foi uma proposta de facilitar o acesso, buscando prevenir a aglomeração de pessoas do grupo de risco para o novo coronavírus nos postos de saúde e, em consequência, evitar a propagação da infecção nesses serviços. Meu pai podia se deslocar até lá. Assim que ficou sabendo, ele foi. Já minha mãe, disse a elas, por conta da vigência de um tratamento clínico específico, estava contra-indicada à vacinação, nesse momento. Prontas para se despedir, informei que ainda havia meu caso. Profissional de saúde também, como elas. Grupo prioritário na campanha. Num primeiro momento e por algumas razões pessoais, hesitei em perguntar se elas poderiam me vacinar. A principal: fiquei com receio do julgamento. “Uma profissional de saúde que ainda não havia se vacinado?”, pensei.

Recentemente, eu assumi a responsabilidade do cuidado de uma questão de saúde familiar complexa. Por isso, eu não estou a atuar na linha de frente contra a covid-19 em nenhum serviço, nesse exato momento. Ainda assim, desde que a campanha vacinal começara, eu tentava me organizar para ir à unidade de saúde em busca da tal vacina. O que se revelou impraticável, diante das tarefas de cuidado com meus pais, com a casa. Minha mãe havia recebido alta hospitalar há poucos dias, e eu e meu irmão - ambos recém-chegados das cidades onde residimos e da quarentena-pós viagem, especialmente para cuidar dela e de meu pai – nos desdobrávamos em casa nas tarefas do cuidado deles e do lar, enquanto nos readaptávamos a esse particular momento das nossas vidas.

Além disso, havia ainda o esforço quase hercúleo de convencer meu pai a ficar em casa, frente ao avanço da pandemia. Fato é que, até aquele instante, eu não havia encontrado um intervalo de tempo para buscar, no horário de funcionamento da unidade, a minha própria vacinação. Situação comum quando se fala em saúde de cuidadores. Revela o quanto o autocuidado faz parte dos desafios intrínsecos do cotidiano de quem cuida, no mundo todo. Trata-se das práticas mais difíceis de exercer, frente às responsabilidades de cuidado com o outro. Num exercício rotineiro de prioridades, a gente simplesmente esquece de cuidar de nós mesmos.

Entretanto, as três trabalhadoras da saúde estavam ali, no meu portão, indiferentes aos motivos particulares para uma ainda-não-vacina. Não havia espaço para o questionamento diante da desatualização do calendário vacinal dos usuários e consequente culpabilização por isso. Quando expliquei meu caso, com a voz meio constrangida, a resposta foi instantânea e unânime: elas acolheram afetuosamente meu pedido. Vacinavam a quem fosse dos grupos prioritários ali mesmo, no portão, ou dentro de casa, em caso de mobilidade reduzida ou de restrição ao leito. O nome disso é acolhimento e acesso à saúde.

Radis213 Luciana Cajado

Corri para pegar a chave e abrir o portão. Quando retornei, uma delas perguntou se eu era a filha mais velha da dona Irany. “Sim”, respondi. Ela falou que lembrava do dia em que saiu o meu resultado de aprovação na universidade. Isso foi há cerca de catorze anos… Na ocasião da notícia, ela trabalhava com minha mãe, e recordou, ali na calçada, entre o preparo da vacina, do braço, da agulhada e do algodão, a comemoração de um dos dias mais felizes das nossas vidas. Atualmente, ela era técnica de enfermagem da nossa área adscrita.

Disse-lhe que hoje eu era médica de família e comunidade, e que tinha muito orgulho de trabalhar nos “postinhos” brasileiros, como ela. A despeito da máscara, vi o sorriso das três profissionais através dos seus olhos. Eu sabia bem o que representava aquilo que faziam e valorizava muito. Vacinar contra a gripe, sobretudo os grupos de risco, é prevenir que outro surto de doenças nos leve com quadros respiratórios graves aos hospitais e ao óbito, num contexto que já apresenta-se em colapso por conta da covid-19. A busca ativa para vacinação desses grupos é uma ferramenta importante para garantir a mais ampla cobertura de proteção possível. E é laborioso realizá-lo em uma conjuntura pandêmica, com crescente escassez de profissionais de saúde afastados por conta da infecção.

No caso da Amazônia, há também um histórico de descompromisso dos governos com as questões de saúde da população, de difícil acesso aos serviços de saúde principalmente em função das características territoriais, de insuficiente rede de atenção à saúde, de uma ainda incipiente distribuição da cobertura de equipes da Estratégia Saúde da Família, consultórios na rua e equipes fluviais. O que anuncia o tamanho do desafio que temos por aqui, num estado de emergência, muito distante da “normalidade” a que se está habituado. Normalidade esta que não deixa de ser cotidianamente árdua, no que tange à saúde, principalmente para das populações mais vulneráveis – nas periferias, zonas rurais, florestas, beiras de rio, e comunidades quilombolas e indígenas.

Ao nos despedirmos, queria ter dado um abraço em cada uma, mas frente às circunstâncias pandêmicas que nos situam neste tempo e espaço, coube-me apenas palavras sinceras. Disse a elas que aquele trabalho era demasiado importante e que não estavam sós. Que a nossa luta era coletiva e aquilo que estavam a fazer ali significava muito para todas e todos na nossa rua, na nossa área. Elas seguiram sorrindo. E eu voltei para dentro de casa com os olhos cheios d’água.

Isso ocorreu há cerca de duas semanas. Quando paro e reflito sobre o tempo, parece que se passou um ano desde então. As notícias e a atualização da pandemia têm acelerado os dias, as horas. Da ocasião dessas lembranças ao presente instante, os números de casos de infecção pelo novo coronavírus, em Santarém, só aumentaram. O Norte do país, neste exato momento (6/5), contabiliza 15.662 casos. Os dados oficiais do município, por sua vez, de longe representam a realidade. Até pouco tempo, sequer haviam testes disponíveis por aqui. Frente aos sintomas, as pessoas eram orientadas a isolar-se de acordo com sua história clínica e de exposição; os casos mais graves, absorvidos pelos hospitais. Mas praticamente ninguém era testado. Com a ampliação recente, mas ainda limitada, de acesso aos testes, houve também aumento das notificações de casos confirmados e óbitos.

A rede de saúde do município é também a referência para oferecer suporte a uma região maior, com vinte e nove municípios, e que abrange o oeste do Pará, Baixo Amazonas, Xingu e Tapajós. Para chegar até aqui, a maior parte dos deslocamentos são através das águas (durando horas, ou até dias) ou pelo sistema aéreo, o que configura outro desafio, ainda mais nessas circunstâncias. Há leitos de enfermaria e UTI destinados a pessoas com covid 19 em dois hospitais públicos principais (já em uso), construíram um hospital de campanha com 120 leitos, e foi divulgado que há um helicóptero à disposição para deslocar os pacientes mais distantes, a fim de garantir esse suporte.

Todavia, ninguém sabe se será suficiente. Enquanto a cidade, já declarada em estado de calamidade pública, segue com uso obrigatório de máscaras de proteção, mas com circulação quase normal de pessoas, comércios abertos e moderada adesão ao distanciamento social, observo com angústia e medo o avanço de um agente invisível. Desconhece-se como irá evoluir exatamente, se será uma questão de tempo a cidade tornar-se um cenário como o de Manaus ou de Belém, as duas grandes cidades mais próximas e dentre as mais afetadas no Norte do país.

O que se constata, porém, é que a principal frente de atuação, tanto para contenção emergencial da pandemia, quanto nas construções cotidianas de cuidado, continua a ser o SUS. Seu desmonte é crescente, os retrocessos políticos contemporâneos lutam para derrubá-lo, mas ele resiste. E tem muita gente construindo e lutando por ele todo dia, como as três trabalhadoras que tocaram nossa campainha naquela tarde. Defendam, protejam e valorizem as trabalhadoras e trabalhadores da saúde. Defendam o SUS. Ele é do povo. É ele que vai salvar nossa gente.

  • Luciana Cajado é médica de Família e Comunidade

 

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