Foto: Ricardo Stuckert.

Tempo de leitura: 2 - 4 minutos

Enfim novos ares de democracia chegam para alimentar a esperança em um Brasil que pede urgência para dar certo. Com o espírito de que é preciso arregaçar as mangas para resgatar o que foi perdido nos últimos quatro anos, aconteceu o 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrasco). Radis acompanhou a efervescência desse encontro que reuniu uma gama diversificada de instituições, especialidades e representações dos movimentos sociais com atuações na área da saúde para trocar e discutir ideias, experiências e reflexões, registradas numa carta ao fim do evento.

Debates ricos e desafiadores marcaram as mesas redondas, rodas de conversas, apresentações de trabalhos e conferências, em que o campo da saúde e a defesa da democracia brasileira foram o destaque que movimentou as discussões entre os participantes. Temas como o financiamento do Sistema Único de Saúde, a política e as alterações no seu modelo de gestão, a distribuição dos recursos arrecadados pelo governo com a definição de áreas prioritárias para o país, justiça social, terceirização, participação social, além de outras agendas e demandas igualmente importantes para a saúde do povo brasileiro, estiveram presentes em muitos debates e serão tratados em outras edições da revista Radis nos próximos meses.

A solidão da pessoa negra que envelhece é tratada de forma sensível nesta edição, com a entrevista do professor e pesquisador Alexandre da Silva, um estudioso do envelhecimento da população negra que, em 2 de janeiro, foi nomeado Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idoso, no Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. A conversa traz algumas respostas do que é necessário rever nas práticas e saberes, para entendimento sobre essa parcela da população (de negros e pardos) que já é maioria no Brasil, e são “constantemente invadidas” por estresse em razão da cor e da discriminação que sofrem ao longo da vida e que geralmente são acompanhados de outras desigualdades acumuladas nesse período, como as relacionadas a gênero, classe social, à orientação sexual, religião, entre outras,  que se somam cobrando um alto preço principalmente no etarismo, com as alterações fisiológicas que deveriam ser comuns à faixa etária, mas não são as mesmas na população branca.

É preciso entender os caminhos difíceis por que passaram e passam os idosos negros, com perdas, violência, ausência de cuidados, a vivência com incapacidades funcionais, para que iniquidades e discriminações, principalmente nas atividades de assistência e no dia a dia, sejam evitadas. O racismo estrutural, institucionalizado, por vezes prega peça no inconsciente e leva ao esquecimento de as pessoas são diferentes, mas esta diferença não pode admitir a desigualdade. Todos, absolutamente todos, independentemente de cor, etnia, classe social, orientação sexual e idade, têm direito ao respeito, aos cuidados e ao acolhimento às suas necessidades.    

Com ajuda e diálogos constantes, é possível incluir as práticas para a equidade nas nossas atividades, reduzindo iniquidades e discriminações já institucionalizadas ou inconscientes que muitas pessoas ainda têm, além compreender que não somos iguais: somos diferentes — e somente com políticas, serviços e atividades orientadas para o enfrentamento do racismo, sexismo e outros determinantes estruturantes que teremos sucesso.

Um homem negro, analfabeto que passou de servente a destacado auxiliar de pesquisa, ao lado de figuras importantes como Carlos Chagas, Adolpho e Bertha Lutz, dá nome à Escola Politécnica de Saúde de uma das maiores instituições de pesquisa do Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).  Joaquim Venâncio, cuja vida foi motivo de pesquisa e um dos personagens da tese de doutorado da professora Renata Reis, representa um símbolo da pesquisa para jovens do ensino médio.

No fechamento desta edição, a comunidade Fiocruz recebeu com alegria e orgulho a nomeação da pesquisadora Nísia Trindade Lima para comandar o Ministério da Saúde (MS). Nísia foi a primeira mulher a presidir a Fiocruz, eleita por seus trabalhadores e trabalhadoras, e agora é a primeira mulher a comandar o MS.

Uma escolha não partidária, mas por reconhecimento à competência e envolvimento com a saúde dos brasileiros, demonstrada num dos piores momentos vividos pela população com a pandemia de covid.

Boa sorte, ministra Nísia!

* Justa Helena Franco, Subcoordenadora do Programa Radis