Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters.

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Em meio a mais de 530 mil mortos e mais de 19 milhões de infectados, o kit para prevenção e tratamento da covid-19, com uso de hidroxicloroquina, cloroquina e ivermectina, entre outras drogas, ainda causa polêmica no Brasil, sendo inclusive um dos assuntos investigados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura a atuação do governo diante da pandemia. Para a maioria dos parlamentares membros da CPI, é evidente o quadro de negligência do governo, que se empenhou pelo chamado “kit covid”, mas não se empenhou para comprar doses de vacinas já autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

As críticas alcançam também algumas entidades médicas, inclusive o Conselho Federal de Medicina (CFM), que se posicionou em defesa de medicamentos sem efetividade comprovada pela ciência e sem ouvir toda a classe que representa, em nome da liberdade para prescrição médica. Essas críticas vêm de centenas de médicos, pesquisadores e outras associações médicas que questionam se a tal “liberdade de prescrição” pode se sobrepor ao risco à vida de pacientes.

Para os críticos do posicionamento do CFM, tal atitude pode confundir a população com falsas expectativas de prevenção e cura, facilitando a propagação da doença, ao desconsiderar as recomendações baseadas na ciência ao invés de defender as medidas não farmacológicas e as vacinas.

Nesta edição, Radis aborda a realidade daqueles que perderam uma parte de sua família, como a professora Tallyta Cerqueira, que ao se vacinar, chamou a atenção para o atraso das “doses de esperança” que, se tivessem chegado no momento certo, teriam salvo milhares de vidas: mais de 530 mil brasileiros e brasileiras que “não são só números e estatísticas” — são entes queridos de alguém, com muitos anos de vida pela frente e com histórias que não serão mais contadas.

Quando um povo manipula sua história, ele perde o medo de repeti-la. Marcelo Serpa

Muitos dos que ficaram perderam a sintonia com a alegria do conviver e precisarão aprender a se encaixar no sofrer. Infelizmente para muitos destes que sequer tiveram oportunidade de velar seus mortos, a pandemia deixará como herança o estresse gerado pela incerteza, traumas, confinamento e imprevisibilidade do futuro.

A reportagem de capa também traz as falas dos médicos Pedro Hallal e Jurema Werneck, que indicam o resultado de seus estudos e as dificuldades e perseguições que sofreram ao divulgar o número de mortes que poderiam ser evitadas, assim como a desigualdade social e seus desdobramentos que acompanham a pandemia.

Assusta os números identificados nas pesquisas que revelam as milhares de vidas que poderiam ser poupadas ainda neste ano, quando o mundo já iniciava a imunização, caso não houvesse atraso na aquisição de vacinas. Um atraso que escancarou a indiferença pelo direito à vida humana, esquecido num cenário político não só de negacionismo, mas também de corrupção e desordem, conforme agora mostrado pela CPI.

No Brasil, autoridades de segurança e órgãos de inteligência têm conhecimento que as favelas não produzem cocaína e nem fabricam armas. Por isso, inteligente é a apreensão de drogas e armas antes que cheguem às favelas. A finalidade da atuação com inteligência na polícia e de autoridades de segurança não é matar. Justiça não é vingança, mas aqui assassinatos são consentidos, praticados e justificados, desde que os “bandidos” sejam pretos, pardos e pobres periféricos, como os 27 mortos na favela do Jacarezinho — outro morto foi um agente de segurança: um lugar com um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Rio, onde não há cinema, área de lazer e esporte, saneamento e acesso a recursos tecnológicos e que foi palco da pior chacina já praticada pelo poder público no estado.
A vida de negros e pobres periféricos parece ter menos valor que a vida de brancos e bem nascidos. No Jacarezinho e em outras favelas, quem é encontrado com arma na mão é bandido que deve morrer como medida de “faxina”, mas como tratar quem é pego com caneta na mão, como indagou a jornalista Luana Génot, e “decide desviar milhões da saúde, reduzir investimentos em educação ou negligenciar os efeitos da covid-19 e os milhares de mortos pelo vírus?” Uma contradição que deve provocar reflexão num país que não consegue se enxergar como hierárquico, autoritário
e preconceituoso.