Radis Comunicação e Saúde

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Nesta edição, a repórter Liseane Morosini escreve sobre o cotidiano de pessoas com diagnóstico da doença de Alzheimer, que afeta mais de 1,2 milhão de brasileiros e cerca de 47 milhões no mundo. É importante que familiares e as pessoas dedicadas a cuidar dos que são acometidos por esta doença neurovegetativa, progressiva e sem perspectiva de cura contem com redes de proteção social emocional e de cuidados de saúde.

No contexto das demais matérias desta edição, o apagamento de memória e a desorientação presentes entre os sintomas de Alzheimer evocam uma metáfora para os tempos atuais. Vivemos no Brasil a celebração do esquecimento e a licença para falsear a memória e manipular a história. Para suprimir direitos civis e sociais, a mídia e outras forças conservadoras engendram a deturpação e desvalorização dos processos que levaram à conquista desses direitos.

A visão universalista e equitativa da saúde como direito de todos e dever do Estado, assegurada na Constituição de 1988, foi uma construção teórica e política de acadêmicos, profissionais de saúde e movimentos sociais nos anos 1970 e 1980, em oposição à visão da atenção à saúde como mercadoria a ser consumida por quem puder pagar. Adotada pela ditadura civil-militar de 1964, esta visão é novamente defendida hoje, sem reservas, nos poderes Executivo e Legislativo.

Para destruir o SUS e entregar a saúde ao mercado com o apoio desinformado de parte da população, muita desinformação é necessária. Mas o preço dessa ilusão é alto. A desestruturação do Programa Nacional de Imunizações e da Atenção Básica do SUS provocou, por exemplo, a redução da cobertura vacinal e o crescimento do número de casos de sarampo. Além de retirar do Brasil o certificado de eliminação da doença, concedido em 2016 pela Organização Panamericana da Saúde, esta ação deliberada trouxe de volta para as crianças um risco que se julgava superado. A proposta do governo de desvincular o orçamento da saúde tende a acelerar este desmonte.

Políticas de austeridade e ultraliberais na segunda metade desta década prejudicam áreas com reflexo direto nos processos de determinação da saúde, como tem noticiado a revista Radis: pesquisa científica, educação pública, emprego, direitos dos trabalhadores e a proteção social das populações mais vulneráveis, transporte, habitação e desenvolvimento urbano, produção no campo e nas áreas de florestas. A opção de intensificar o modelo exportador de matérias-primas segue elevando o desmatamento das florestas e transformando os rios brasileiros em veias envenenadas por agrotóxicos e pelos resíduos tóxicos de mineração.

À revelia de seus direitos reconhecidos na Constituição, indígenas brasileiros sofrem hoje um enorme risco de expropriação territorial e cultural. A maior ameaça de exterminação desde a ditadura civil-militar de 1964. Para avaliar a questão indígena neste momento crítico, o editor Adriano De Lavor entrevistou Joênia Wapichana (REDE/RR), a primeira mulher indígena a ser eleita deputada federal.

A violência contra a população pobre no campo e na cidade se eleva, movimentos sociais são criminalizados e suas lideranças assassinadas, enquanto as políticas públicas de segurança da maioria dos estados e da União enveredam pelo caminho da violência sistemática de Estado contra as populações pobres e negras das favelas e periferias.

Em meio ao clima de esquecimento e barbárie, repercutiu em março o discurso de pessoas, desprovidas de memória ou escrúpulos, dispostas a comemorar o golpe civil-militar de 1964. Os livros de história confirmam que a sangrenta ditadura, que durou até 1985, suspendeu direitos civis e democráticos, fechou sindicatos, partidos e entidades estudantis, perseguiu movimentos sociais, prendeu ilegalmente opositores, torturou barbaramente até crianças e com especial sadismo as mulheres, executou centenas de pessoas, ocultou e fez desaparecer cadáveres. Ceifou a vida de democratas e jovens idealistas. Tentou alienar várias gerações e privar-lhes do exercício da cidadania e do pensamento crítico e livre.

A arte foi importante para unir corações e mentes contra a maldade e a indignidade da ditadura. Na música “O bêbado e a equilibrista”, magistralmente cantada por Elis Regina, os compositores Aldir Blanc e João Bosco descrevem metaforicamente a tarde que caía como um viaduto rumo à noite de uma dor pungente, enquanto a esperança dançava na corda bamba de sombrinha, porque o show, a vida, tinha que continuar. No hino “Apesar de você”, Chico Buarque acena com esperança aos que defendiam a vida e a democracia: “Amanhã vai ser outro dia”.

Em março de 2019, a Estação Primeira de Mangueira venceu o Carnaval carioca ao resgatar a memória da exclusão e resistência do povo negro, com o samba-enredo “História pra ninar gente grande”, composto por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino: “Brasil, meu nego / Deixa eu te contar / A história que a história não conta / O avesso do mesmo lugar / Na luta é que a gente se encontra”.