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Editorial

Há cinco anos, ao publicar uma grande matéria sobre acesso e humanização do parto e os direitos da mãe e do bebê, pontuamos neste espaço de editorial que a valiosa função da paternidade ficara ausente na reportagem. Pois é exatamente essa a contribuição que o repórter Luiz Felipe Stevanim, pai há quatro meses de João Miguel, traz em nossa matéria de capa, revelando, com um tom pessoal e grande sensibilidade, como as relações de paternidade podem ser transformadoras para o homem, os filhos e a sociedade.

Luiz Felipe conversou com os pais que cuidam dos pequenos Miguel, Lia, Íris, Acauã, Dante, Gael, Mirella, João, Irene, Teresa e Joaquim sobre participação no pré-natal, acompanhamento do parto, licença paternidade, apoio para a mãe na amamentação, expectativas, descobertas e aprendizados na convivência diária com as crianças. As mães também apresentam seu ponto de vista. Alguns casais tiveram seus filhos com toda a assistência no SUS, outros formam redes para se apoiarem no cuidado dos filhos. São narrativas tocantes, bem concretas e de aposta numa transformação cultural.

A reportagem ouviu especialistas em pediatria, psicologia e enfermagem sobre políticas públicas referentes à paternidade e mostra números inquietantes da pouca presença paterna na vida das crianças brasileiras. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, há cinco milhões e meio de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento. Pesquisa realizada em unidades do SUS aponta que um terço dos homens não acompanhou o nascimento do filho, cerca de metade não tirou licença paternidade e quatro em cada cinco não participaram de qualquer palestra, conversa ou curso sobre cuidados com o bebê. É comum que nem os profissionais de saúde enxerguem o impacto positivo da presença paterna para a criança, a mulher e o homem.

A busca da paternidade plena esbarra em muitas barreiras, não apenas por falta de formação e preparação para a tarefa, mas também simbólicas. Constatei isso, pessoalmente, como pai de Nina e Julia há mais de 28 anos. Compartilhar o cuidado, desde o pré-natal e o nascimento da criança, implica conviver com as resistências de uma sociedade que ainda não está acostumada à alternância e complementariedade de papéis entre homens e mulheres. Ainda hoje, o pai cuidador pode ser visto com desconfiança ao passear sozinho com o bebê, preparar e dar comida, escolher, lavar e passar as roupinhas, faltar ao trabalho porque um filho está doente, assumir a interlocução com a escola, com os pais (mães) das outras crianças, ou com os profissionais de saúde que atendem os filhos. Ultrapassada a ironia do “ele quer ser mãe”, o aspirante pode almejar o elogio maior e incompleto de ser “um verdadeiro pãe”.

Por outro lado, a mulher que não tem nem disputa o protagonismo pode ser alvo de crítica. A censura à mãe “desnaturada” vai além do olhar atravessado e pode motivar uma crítica aberta, como a do gerente de um restaurante carioca que, ao ver um pai trocando a fralda da filha, protestou: “onde está a mãe dessa criança?”. O fato recente suscitou o belo texto da seção PósTudo, nesta edição, escrito pela repórter Elisa Batalha, que é mãe de Leila há 8 anos. “Por que um pai não pode levar a filha ao banheiro?”, pergunta, ao discorrer sobre a importância de um modelo de cuidado mais igualitário. Nesta hora, diz ela, “nos damos conta de quanto trabalho há pela frente na desconstrução desses fortes mitos de que a criação dos filhos é tarefa exclusiva da mulher”.