Radis Comunicação e Saúde

Pedro Kirilos

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Nesta edição, trabalhadores da saúde dedicados ao enfrentamento da pandemia de covid-19 falam de sua rotina em condições extremas e de seus sentimentos. Vistos como super-heróis, são pessoas como qualquer um de nós, reais, frágeis, que precisam trabalhar para pagar contas e alimentar suas famílias, das quais, muitas vezes, precisam se distanciar. Surpreendentemente, em tempos de culto à ignorância, há quem os hostilize nas ruas. Eles merecem toda a nossa admiração, porque, apesar das condições frequentemente inadequadas de trabalho, têm um compromisso enorme com o propósito de cuidar do outro.

O médico paulista Pedro (foto da capa) sensibilizou milhares de pessoas nas redes sociais: “me coloco sempre na posição dos pacientes ou dos familiares”. Diz-se chocado quando ouve autoridades defenderem o fim do isolamento: “depois de 12 horas de trabalho, com a cara marcada de estar com máscara o dia inteiro, isso dói”.

A agente de saúde Ana Iara comenta sobre a insegurança dos colegas sem equipamentos de proteção individual (EPI) no município do Rio de Janeiro e a contradição de, no momento “em que o ser humano carece de estreitamento nas relações”, o vírus impedir um contato mais próximo e acolhedor. “Me sinto angustiada pela situação do próximo, seja pela perda de um familiar, internação e até falta de alimentos e coisas elementares”, relata.

O enfermeiro Cleilton, de Mossoró (RN), se preocupa com as iniquidades sociais reforçadas pela pandemia e com a precarização do trabalho de maqueiros e do pessoal da limpeza. Rosângela, à frente da equipe de enfermagem no Centro Hospitalar da Fiocruz para os pacientes graves, teve vontade de permanecer no hospital e “ir para a casa somente quando tudo passasse”, mas aprendeu a “brindar” as vitórias de cada dia.

“Sozinho, o humano não dá conta dos encargos de uma pandemia como a de covid-19. É tempo de fortalecer as redes de afeto, solidariedade e proteção social, com apoio das políticas públicas” avalia a psicóloga Alessandra Xavier, da Universidade Estadual do Ceará, ao dizer que cuidar da saúde mental é uma prioridade e refletir que a pandemia traz um desafio emocional, ético e social.

No Brasil, com a redução de trabalho e renda, quem mais sofre os impactos da pandemia são as mulheres. Mas elas são também “sinônimo de resiliência”, como mostra uma tocante reportagem sob recorte de gênero, que aborda a jornada das mulheres que cuidam sozinhas dos filhos e da família, o aumento da violência doméstica e o papel das políticas públicas nesse cenário.

Noutra matéria, mostramos a dedicação dos profissionais da Atenção Básica e uma discussão sobre a essencialidade dessa dimensão do SUS nesta hora, embora a sua estrutura tenha sido fragilizada e recursos e força de trabalho reduzidos nos últimos anos. Para a Organização Pan-Americana da Saúde, o SUS e a busca por acesso equitativo a tratamentos e vacinas são estratégicos para o país.

A saúde coletiva é fortemente determinada por processos econômicos, sociais e ambientais. A maioria das ações que impactam o cotidiano e a saúde da população dependem do Estado e das políticas públicas. No cenário atual há uma convergência das crises sanitária, econômica, social e política e nenhuma dessas dimensões prescinde de um ambiente político democrático, com respeito aos direitos individuais e coletivos, em que a sociedade participe livremente do debate de ideias e da construção de alternativas à extrema desigualdade econômica e social, com violência e racismo, destruição ambiental e as ameaças à saúde que se aprofundam.

Diante dessa crise humanitária sem precedentes, entidades da saúde como o Conselho Nacional de Saúde, o Centro Brasileiro de Estudos da Saúde, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, a Sociedade de Bioética e a Rede Unida, se uniram a tradicionais defensores da democracia como SBPC, ABI, CNBB e mais de 50 outras entidades da sociedade civil e sindicatos para conclamar uma Marcha Pela Vida, manifestação virtual em defesa da vida, da saúde e do SUS, da solidariedade, do meio ambiente, da democracia, da ciência e da educação.

Junho inicia com índices ascendentes de contaminação e morte por covid-19, numa situação especialmente dramática para as populações vulneráveis no país. Mortes violentas de gente preta e pobre mobilizam reações no Brasil e no Mundo, por exporem um sistema desigual, racista e desumano. Contra o descaso com a saúde e a proteção social da população e a escalada de ataques explícitos ao Estado de direito, novas frentes suprapartidárias, antifascismo e pela democracia vêm surgindo.

Em apoio à marcha virtual de 9 de junho, um dos próceres da ciência brasileira disse que “não é mais oposição entre barbárie e civilização, mas entre a vida e a morte”. Pulsão de morte move pensamentos, políticas e atos de violência. As pessoas que estão em destaque nesta edição da Radis, felizmente, lutam pela vida.