Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Jérémy Stenuit/Unsplash.

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No editorial de março, Justa Helena Franco aponta que a coordenação entre as esferas de gestão e serviços do SUS é essencial para uma resposta eficaz a uma emergência em saúde pública

As últimas duas décadas registraram grandes transformações que têm impactado a saúde pública no mundo, com reflexos no cotidiano das pessoas e na economia mundial. A poliomielite foi erradicada e doenças imunopreveníveis tiveram redução na sua ocorrência em muitos países. Entretanto, agravos tidas como erradicados, como o sarampo, e antigas epidemias, como cólera e febre amarela, voltaram a aparecer; ao mesmo tempo, novas ameaças como vírus do ebola, a hantavirose, a síndrome respiratória aguda grave (Sars) e a influenza afetam grandes contingentes populacionais. Essas epidemias estão relacionadas ao modelo de desenvolvimento econômico hegemônico no mundo, que se intensifica com o vigoroso processo de urbanização, a degradação ambiental, o incremento do fluxo de pessoas e mercadorias e o comércio entre os países.

Já neste século, o mundo acompanhou seis emergências em saúde pública de importância internacional, decretadas pela OMS. Em todas aconteceram muitas mortes. Neste contexto, é importante mobilizar esforços internacionais capazes de articular redes assistenciais, que deem proteção aos países menos desenvolvidos e mais vulneráveis — não só pela pobreza como pela degradação ambiental —, e permitam que os sistemas de saúde se estruturem para prevenir, controlar e conter os agravos e os danos à saúde pública. Tal medida evita desassistência às populações e permite o contínuo acompanhamento de agentes e doenças, avaliação, transparência e compartilhamento de resultados e organização dos sistemas de saúde em todos os níveis.

O SUS e os demais sistemas de saúde do mundo necessitam estar preparados para atuar não só com práticas já estabelecidas, como buscar novos conhecimentos. Nos casos de surtos e epidemias, é preciso constante interlocução com a população, informando não só sobre a importância da prevenção, mas também orientando sobre como prevenir — a exemplo da vacinação e da prática de cuidados simples, como a lavagem constante das mãos.

As emergências em saúde pública exigem, de todas as instituições, a capacidade de preparação e de resposta. A vulnerabilidade social, econômica e ambiental amplia o risco de impacto à saúde humana, enquanto a prevenção reduz os seus impactos. A coordenação entre as esferas de gestão e serviços do SUS é essencial para uma resposta eficaz. Em tempos de desqualificação dos serviços públicos, a reportagem de capa da Radis mostra que são eles, a exemplo da Fiocruz, que estão à frente da resposta a mais uma possível epidemia, assim como ocorreu com ebola, Sars, H1N1 e agora com o novo coronavírus.

Também neste número, Radis resgata o perfil de David Capistrano Filho. Reconhecido como ativista, revolucionário, controverso e militante político comprometido com as grandes causas do povo, o médico e sanitarista foi o grande homenageado do 2º Fórum Fiocruz de Memória, 20 anos após sua morte. Um pedaço da intensa vida de David, como pai, marido, amigo e defensor ferrenho das políticas públicas, da democracia e da vida em comunidade, foi lembrado pelo discurso emocionado de sua filha e de companheiros que partilharam a sua convivência. Radis divide com seus leitores um pouco da história de um homem especial, com práticas sanitárias humanistas, voltadas para o outro, como apresentado pelo mediador da mesa, Rogerio Lannes.

O 2º CongrePICS, que aconteceu na cidade de Lagarto (SE), discutiu a importância e o crescimento de práticas e saberes milenares incorporadas ao SUS, e que são essenciais no momento de crise comunitária em que vivemos, nas palavras da filósofa Madel Luz. Vinte e nove terapias e atividades já são reconhecidas, relacionadas ao cuidado de indivíduos e reforçam o entendimento de que todas as dimensões da saúde devem envolver o bio-sócio-psico-espiritual.

Assusta a estimativa do aparecimento do câncer para os próximos três anos, publicada pelo Inca. A boa notícia é que se pode diminuir alguns riscos, alterando o estilo de vida. Excluir a fast-food, farta em gorduras e açúcares e pobre em nutrientes, eliminar o fumo, diminuir o consumo de bebidas alcóolicas e evitar o sedentarismo são medidas eficazes recomendadas por pesquisadores. Saltar dois pontos antes, dispensar o elevador para subir dois lances de escada ou deixar o carro na garagem para caminhar são medidas úteis para combater o sedentarismo e diminuir os riscos de desenvolver os tipos de câncer que têm na obesidade seu principal fator.

Observar alterações no próprio corpo, com procura imediata de atendimento médico, também são medidas recomendadas pela médica Liz Almeida para detecção precoce de novos casos. Também é fundamental que o sistema de saúde tenha na atenção básica uma porta de entrada eficiente, com profissionais capacitados para identificar, intervir e orientar corretamente nos possíveis casos de câncer, além de oferecer a assistência necessária para o rápido início e completo tratamento. No processo de prevenção dos índices de incidência e morte por câncer, é de fundamental importância a junção do poder público, dos profissionais da saúde e cada um, individualmente. E todos fazendo sua parte.