Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Ana Javes Luz.

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Quatro aeroportos, três voos, 14 dias de isolamento total e um mundo diferente: o relato sensível de uma jornalista em sua jornada de volta para casa antes da hora prevista

OS PLANOS

No dia 02 de março deste ano, mal continha a satisfação ao desembarcar no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Doutoranda em Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, iniciaria dali a poucos dias meu doutorado-sanduíche na Universidade Sorbonne Paris Nord. Essa temporada francesa, prevista para se estender por quatro meses, durou, no entanto, exatos 15 dias. A pandemia da covid-19 cancelou drasticamente os planos e me fez imergir em uma experiência ainda difícil de elaborar.

Na semana anterior ao embarque, as notícias sobre a doença na Europa ainda estavam focadas na Itália. O país divulgara a primeira morte em 21 de fevereiro e, apesar do aumento do número de contaminações, de casos graves e de mortes nos dias seguintes, as informações disponíveis sobre o avanço da doença na França ainda não permitiam prever o que estava por vir. Por isso, ainda que preocupada, e carregando na mala uma quantidade razoável de máscaras e de álcool gel, resolvi seguir com a viagem. Afinal, tratava-se de uma oportunidade única no doutorado, que eu planejara arduamente ao longo dos últimos nove meses e que viabilizara com recursos próprios (em virtude da drástica redução no número de bolsas oferecidas pelo governo brasileiro para doutorado-sanduíche nos últimos anos). Além disso, em julho eu já estaria de volta. Naquele momento, o mais acertado me parecia ir. E fui.

Já no desembarque, o saguão do aeroporto quase vazio denotava que a preocupação com a covid-19 estava no ar. No caminho até o centro da cidade, o noticiário no rádio não deixava dúvidas: a França temia repetir os números italianos que começavam a preocupar. A Espanha, até então, não tinha nenhuma morte confirmada – o que só ocorreria no dia seguinte.

Ainda assim, apesar da apreensão, a primeira semana se passou de maneira tranquila. Me instalei no pequeno quarto alugado, me apresentei na Universidade e recebi minha documentação de estudante, assisti à banca de defesa de tese de uma colega, comemoramos depois, saí com meus tios que moram na cidade, revi amigos. O medo pairava, é verdade. Mas o tom de brincadeira também. E os cafés e restaurantes cheios, as lojas abertas, os muitos turistas pelas ruas, até os parques e praças com suas árvores começando a florescer para a chegada da primavera, tudo insistia em dar um ar de normalidade. Ou, como eu ouvia, “na França, seria diferente”. Não foi.

Caminhada pela galeria comercial da Place des Vosges, que em outros tempos estaria cheia: agora deserta

Fotografia: Acervo pessoal.

Minha ficha só começou a cair uma semana depois. No dia 09 de março, a Itália contabilizava mais de sete mil doentes e 463 mortos. As notícias eram desesperadoras e o governo daquele país decidiu implementar o confinamento obrigatório para os habitantes da região norte. Eu começava a me perguntar se o mesmo aconteceria na França, onde o noticiário, já totalmente dominado pelo tema, informava 1.412 casos confirmados e 25 mortos. Se o hábito de ler notícias no celular antes de dormir passou a me deixar insone, o hábito de ler jornais locais no café da manhã começava a ficar indigesto.

No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a covid-19 como uma pandemia e, na noite seguinte, o presidente francês fez um pronunciamento à nação pela primeira vez desde a chegada da doença na Europa. Jantando na casa dos meus tios, assistimos juntos quando Emmanuel Macron anunciou a suspensão das aulas e o fechamento de todo o sistema de ensino francês a partir de 16 de março – de creches a universidades –, incluindo aí a sede da Bibliothèque nationale de France (BnF), um dos meus principais locais de pesquisa. Nesse momento, pela primeira vez, verbalizei o que mal tinha coragem de pensar: talvez eu devesse retornar ao Brasil.

Era uma decisão dura. Aquele doutorado-sanduíche, que ainda nem havia iniciado formalmente – minha primeira reunião com a orientadora francesa seria na segunda-feira seguinte –, exigira muito esforço: financeiro, acadêmico, emocional. Cancelar a viagem com menos de duas semanas de chegada significava, além da  frustração, não ter essa parte da pesquisa realizada. Estou no meu último ano de doutorado. Apesar de ter contado com irrestrito apoio da minha orientadora no Brasil, da coordenação do meu Programa de Pós-graduação (PPGCOM/UFRGS) e da professora que me recebeu na França, eu provavelmente não terei mais tempo ou dinheiro para retornar quando tudo passar. Tendo isso em conta, avaliei ser possível tentar ficar. Mas, dois dias depois, nova restrição: o governo francês anunciou o fechamento de todo o comércio não-essencial. A realidade se transformava rapidamente.

A jornalista registra a Biblioteca Nacional, em sua única ida ao local, dia 13/3. No dia 14, recebeu email com informação de ficaria fechada tempo indeterminado

Fotografia: Acervo pessoal.

A DESPEDIDA

Era sábado à noite, 14 de março. Estávamos jantando em um restaurante, tentando nos animar, quando lemos no celular a notícia do fechamento, dali a poucas horas, dos cafés, bares e restaurantes. Ao comentarmos o assunto em voz alta, o garçom à nossa mesa não conseguiu disfarçar seu espanto e sua preocupação com o futuro. Nem nós. Pessoalmente, eu só conseguia me perguntar quantos pratos de comida congelada o meu pequeno frigobar seria capaz de armazenar para que eu pudesse ficar em casa sem me expor com saídas diárias. Aliás, me preocupava se ainda haveria comida congelada à venda na manhã seguinte ou se eu conseguiria comprar suprimentos suficientes para guardar em casa pelos próximos dias.

No dia seguinte, com tristeza não voltei à feira de produtos orgânicos que acontece no bairro nas manhãs de domingo, a fim de evitar aglomeração de pessoas. No pequeno supermercado da rua e na loja de comidas congeladas, comprei uma quantidade racional de alimentos e de outros produtos essenciais para ficar em casa nas próximas semanas. Até esse momento, o governo anunciava que o prazo dessas medidas seria, inicialmente, de 15 dias. O confinamento ainda não era obrigatório e eu seguia querendo esperar um pouco mais antes de tomar uma decisão.

Foi em 16 de março, quando entrei no site do Consulado-Geral do Brasil em Paris que o alerta vermelho definitivamente acendeu: a partir daquela data, o Consulado estava fechado, em função da covid-19. Os atendimentos seriam apenas por e-mail e em regime de plantão. Me senti abandonada à própria sorte e compreendi, não sem indignação, que era hora de voltar.

Consegui modificar meu bilhete. A passagem inicialmente marcada para o dia 01 de julho foi antecipada para a noite de 18 de março, dali a dois dias e meio. Respirei aliviada, apesar da imensa frustração. Era hora de focar nas decisões práticas dali em diante: informar o dono do quarto da minha decisão de partir, tentando negociar multa rescisória; me informar sobre como cancelar o plano de telefonia celular recém-adquirido (o chip havia chegado há apenas quatro dias); conversar com minha orientadora brasileira e a orientadora francesa sobre a mudança de planos, distribuir o que havia comprado de suprimentos. E nenhuma dessas providências pode ser tomada com tranquilidade. Anunciaram para aquela mesma noite outro pronunciamento do presidente francês.

Prevendo o que estava por vir, juntei o que precisava entregar em uma grande sacola e fui à casa dos meus tios. Na emissão, repetindo incessantemente que estávamos em guerra, Macron informou que no dia seguinte, ao meio-dia, iniciava-se o confinamento obrigatório em território francês e que, no mesmo horário, as fronteiras aéreas e terrestres do país – em conjunto com as dos demais países da União Europeia – seriam fechadas. A noite terminou melancólica. O jantar foi de olhares distantes. No ônibus de volta pra casa, pouco depois das 22h, vi cenas “de guerra” ao passar por duas estações de trem – Gare de Lyon e Gare d’Austerlitz: centenas de pessoas chegando de carro, de ônibus ou a pé, carregando malas e mochilas, em busca de deixar a cidade antes do confinamento.

Nessa madrugada, vejo no site da companhia aérea que meu voo dali a dois dias fora cancelado. Taquicardia. Tentei novamente modificar meu bilhete para conseguir vaga em um outro que sairia em poucas horas. Era impossível. Site e central telefônicas congestionados. Obviamente eu não era a única naquela situação.

Foi então que, realmente temerosa de não conseguir sair da França após o fechamento das fronteiras, e compreendendo que não faria sentido permanecer no país naquela situação, comprei um bilhete em outra companhia aérea, por um valor muito superior ao que eu tinha pago, para o mesmo dia. Não havia tempo para pensar muito na questão financeira. Eram duas horas da manhã e o voo no qual eu havia conseguido vaga decolava em seis horas. Eu tinha pouco tempo para fazer malas, organizar minimamente o quarto, chamar um táxi e ir para o aeroporto com a antecedência necessária. No caminho, ainda desviei a rota para deixar as chaves do apartamento na caixa de correios dos meus tios.

Registro em vídeo de ônibus vazio na França, às vésperas da viagem de volta para o Brasil

Video: Acervo pessoal.

Nessa madrugada, ver a cidade com ruas desertas, luminosos desligados, pistas de carros vazias foi de dilacerar o coração. O vento gelado que entrava pela janela do carro, cujos vidros estavam abertos seguindo a orientação de evitar ambientes não arejados, deixava tudo ainda mais triste. Eu abandonava meu estágio de pesquisa antes mesmo de começá-lo.

Somente no aeroporto, após ter a confirmação do voo e de que eu embarcaria, escrevi as mensagens de despedida: ao proprietário do apartamento, avisei que estava deixando a cidade naquela manhã e que os valores devidos seriam acertados posteriormente. As chaves ficaram confiadas aos meus tios e seriam entregues no momento possível. Aos meus tios e à minha orientadora francesa, avisei que saía da cidade sem um último abraço, de coração partido, desejando-lhes saúde, serenidade e força.

Marielle Franco Presente! nas ruas de uma Paris melancólica

Fotografia: Acervo pessoal.

A QUARENTENA

Foram quatro aeroportos – três deles bastante movimentados –, e três voos – um deles com cerca de 10h de duração. Apesar de ter feito todo o percurso portando máscara e luvas, e de ter conseguido voar sem ninguém ao meu lado em todos os trajetos, eu já havia sido contaminada pelo medo. Medo de desenvolver a doença. Medo de ser portadora do vírus e de ser sua transmissora no Brasil. Por isso, por precaução, na minha chegada fiquei em isolamento domiciliar por 14 dias, instalada em um quarto separado, usando banheiro próprio, portando máscara e luvas ao transitar em casa, sem nenhum contato interpessoal. Nesse período, ler as notícias do avanço da pandemia na Europa, com seus números devastadores apesar de todas as medidas de prevenção adotadas, e acompanhar as ações negacionistas do presidente brasileiro na condução da situação do nosso país foi uma angústia a mais. Tivemos todas as chances de nos preparar com antecedência e podemos estar jogando fora essa vantagem, com a consequente morte de milhares de brasileiros, em virtude do comportamento paranoico e da incapacidade de governar uma nação que o ocupante do palácio do Planalto sempre demonstrou.

Nesses dias, também não faltaram notícias sobre brasileiros presos no exterior em virtude do fechamento das fronteiras em diversos países. Muitos sem poder comprar uma nova passagem como eu fiz, dependendo de remarcações ou oferta de voos extras pelas companhias aéreas e sem contar com o apoio do governo brasileiro que, além de ter fechado diversos consulados, somente no dia 22 de março iniciou um cadastramento online de brasileiros que precisavam voltar ao país. Ainda assim, segundo notícia veiculada no final de março, cerca de sete mil brasileiros permaneciam aguardando repatriação – número que já chegara a 12 mil.

Não tive covid-19. E, após 14 dias, saí do isolamento. Mas não da quarentena. Esta semana, completei um mês do meu retorno e sem sair de casa. Depois do que vi, vivi e li, não tenho dúvidas de que o distanciamento social levado a sério, a retomada do investimento no nosso Sistema Único de Saúde e a valorização da pesquisa científica, tão irresponsavelmente atacada pelos últimos governos federais e, em especial, por este último, são o que podem dar ao Brasil a chance de não repetir os tristes números de mortalidade dessa doença que vemos, diariamente, solapar os países europeus e, agora, os Estados Unidos.

Não costumo ser o que se classifica como uma otimista inveterada, mas acredito firmemente que essa pandemia pode ter alguns lados positivos. Dentre eles, um despertar de solidariedade, mais consciência sobre os nossos lugares de privilégio e das necessidades básicas de quem não os têm, e a revalorização do trabalho sério das universidades para a produção de conhecimento que salva vidas e melhora a vida em sociedade.

EPÍLOGO

Na segunda-feira, 13 de abril, o presidente francês determinou a prorrogação do confinamento obrigatório da população por mais quatro semanas, até 11 de maio. A partir dessa data serão anunciados o retorno paulatino das atividades escolares – em que universidades devem ficar por último – e de algumas atividades produtivas. O total de mortos na França por covid-19 já ultrapassou a marca de 21 mil pessoas (22/4) e o sistema de saúde do país continua sufocado.

Ana Javes Luz.
Jornalista e doutoranda em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)