Radis Comunicação e Saúde

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Sobreviveremos, um dia vamos superar, mas teremos muitos cacos para catar antes de seguirmos

Depois de 109 dias, voltei hoje ao instituto onde trabalho, à minha sala, ainda que por algumas horas. Documentos urgentes, tarefas presenciais mais urgentes ainda, tudo planejado para ser feito em um dia. Por mais que o trabalho remoto seja ainda mais intenso que o presencial, por mais que tenhamos feito muito até agora, quem está em cargo de gestão sabe que tem hora que não tem jeito. É máscara, álcool gel e mangas arregaçadas in loco. E dessa vez foi assim.

Há 109 dias não atravessava a Baía de Guanabara. Uma sensação estranha, apesar da vista sempre linda. O Aterro! Meu Deus, há quanto tempo eu não passava no Aterro! Nenhum trânsito em horário de rush, às 9h, exatos 37 minutos da minha casa, no Ingá, em Niterói, ao Campus da UFRJ na Praia Vermelha, nosso refúgio lindo cravado na Zona Sul, meio Urca, meio Botafogo, quase Copacabana, e que consigo ver do outro lado, da janela do meu quarto.

Quem trabalha em um campus como aquele tem muitos privilégios, mas o melhor é que como não é uma cidade universitária, é um espaço menor, porém cheio de faculdades e cursos, é um lugar repleto de vida. Alunos, professores e técnicos andando de um lado para o outro, gente sentada nos cafés, fila para comprar um pão de queijo, performances inesperadas no passeio, pacientes do Pinel vendendo brigadeiros, falta de lugar para estacionar.

E não há nada mais triste que um campus vazio. Dessa vez, não tinha as meninas do Cópia Café, nem bolo de limão, não tinha a lanchonete do Sinésio para pedir omelete, o assistente do Sinésio sabemos que não volta mais, não tinha biblioteca aberta, nem aluno me parando no meio do lanche para pedir orientação de TCC, não tinha funcionário dizendo que acabou papel para impressão, não tinha a Susana da limpeza que sempre me dava bom dia na entrada do IRID. De sobra, só as vagas de estacionamento.

No nosso prédio, uma casa de dois andares, na geladeira da copa vi uma garrafa de coca cola, sobra de aniversário de um de nossos colegas, e alguns pacotes de biscoito. Sinais inequívocos de que uma rotina havia sido interrompida de repente. O prédio está limpo, organizado, toda semana um dos funcionários vai até lá, sozinho, para ver se está tudo OK, para ligar os aparelhos e abrir as janelas. Estava tudo certo, mas a coca e os biscoitos estavam lá, gritando que apesar de tudo OK, nada estava bem.

A casa, o campus, Botafogo, o Rio, todos continuam lindos, mas sem brilho. Apesar de gente na rua, de quase tudo aberto, tudo o que ainda não faliu, não é a mesma coisa. Além de o movimento não ser o mesmo, há um certo constrangimento no funcionamento do comércio, um receio ainda que velado, uma certa tristeza, pelo menos por ali. Leio olhos, e percebi que até quem está sem máscara, quem parece que não se importa, não está bem, está em negação. Não há alegria genuína nas ruas

O vírus nos atingiu como uma arma química ou biológica. Não derrubou paredes, mas mesmo assim passamos a andar entre escombros. Quem diz que vamos sair melhores desta deveria entrar em um campus. Não vamos. Sobreviveremos, um dia vamos superar, mas teremos muitos cacos para catar antes de seguirmos. Quando tudo isso passar, eu quero abraçar todo mundo que eu encontrar por lá. Este, sim, vai ser o primeiro sinal de que estaremos prontos para recomeçar.

■ Leonardo Valente é escritor, professor e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ)

Fotografia: Divulgação.