Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Angelo Dal Bo.

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Comida é a minha vida. Eu cozinho, eu alimento, eu sonho. Eu acordo pensando o que a comida e as pessoas podem fazer uma pela outra. Adoro conectar pessoas e fazer pontes que possam construir uma sociedade mais justa. Acredito que a humanidade deve ser alimentada com humanidade. Quando tomei conhecimento do conceito de negócios sociais, do professor Muhammad Yunnus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, me inspirei em adaptá-lo para o mercado da gastronomia e hospitalidade.

A ideia do professor Yunnus é transformar os negócios em serviços para a sociedade, construindo uma economia circular e moral para combater as desigualdades. A partir deste conceito, ficou claro para mim que todos os negócios têm capacidade de gerar impacto social e ambiental. Foi assim que o termo “gastronomia social” se tornou usual em meu cotidiano. Em 2006, fundei a Gastromotiva, que oferece cursos profissionalizantes para jovens de baixa renda e fornece refeições gratuitas para pessoas em situação de vulnerabilidade. O projeto hoje está presente em São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, além de Cidade do México, Cidade do Cabo (África do Sul) e São Salvador (El Salvador).

Em 12 de março de 2020, me dei conta do impacto que a covid-19 teria no meu dia a dia e no da minha organização. Tudo mudou em nossas vidas. Fechamos todos os nossos escritórios e fomos para casa. Tínhamos recursos apenas para manter nossa organização por 4 meses. Tive que encarar todos os meus medos. Uma das minhas principais preocupações era manter todos os empregos dos meus funcionários.

Mais do que tudo isso, eu me perguntava como as pessoas que vivem em vulnerabilidade lidariam com a escassez de comida e com o medo de ficar sem emprego. E como estas pessoas conseguiriam respeitar o distanciamento social vivendo nas ruas, ou em casas pequenas, com famílias grandes. Em muitos casos, muitas delas vivem sem o saneamento básico necessário para manter a higiene.

Para encontrar soluções e melhores práticas que nos permitissem atravessar a crise do novo coronavírus – e manter a ajuda aos mais vulneráveis -, entrei em vários grupos de discussão, pesquisei em plataformas digitais. Conversei com donos de restaurantes, empreendedores sociais e muitas outras pessoas da minha rede de contatos, para entender como poderíamos agir. Depois de muita pressão e de quebrar muito a cabeça, remodelamos os modelos de impacto da Gastromotiva.

Fotografia: Angelo Dal Bo.

Já no final de março lançamos o projeto “Cozinhas solidárias”, com o objetivo de alimentar pessoas em situação de vulnerabilidade e gerar renda para pequenos e microempreendedores que tiveram seus negócios afetados por conta da crise de saúde. Por meio da rede de alunos e parceiros, planejamos este modelo de cozinhas, que vai atender populações em situação de insegurança alimentar.

A ideia é que cada cozinheiro use a estrutura da sua cozinha doméstica para produzir as refeições. Assim, iniciamos um novo modelo de empreendedorismo social, que prevê o fornecimento de 80 mil refeições por mês. A entrega de insumos, geração de renda e de custos operacionais fica a cargo da Gastromotiva, que também envia alimentos, embalagens, e ajuda a gerenciar toda a operação e logística de distribuição das refeições nas comunidades que serão atendidas.

Com a covid-19, também firmei o compromisso pessoal de alimentar 1 milhão de pessoas por ano. Reconheço todos os meus privilégios e busco fazer deles canais para propiciar mais humanidade para aqueles que vivem em situação de extrema vulnerabilidade social. Para concretizar este sonho, não posso ficar parado. Agora é o momento de pensar nos que não têm privilégios e agir por eles. É por meio destes projetos que busco me manter positivo e esperançoso, enquanto me movimento, pressiono e motivo a minha equipe a cada vez mais aumentar nosso impacto.

Aprendi durante o isolamento social também que é preciso estar presente. Temos que ser ousados. É cada vez mais necessário nos enfrentarmos para que possamos expandir o nosso melhor e conhecer o que precisamos mudar. Sinto-me nu, ansioso e confuso muitas vezes. Mas me sinto grato, feliz e honrado com todos que estão o meu redor. Porque eu confio em mim e confio em você.

Acredito que neste momento nós temos uma oportunidade única na vida. Devemos reconhecer nossos privilégios e assumir o compromisso pessoal de construir uma economia moral, uma economia circular. Só alcançaremos o equilíbrio se recriarmos o mundo mais generoso, inclusivo, equitativo e alegre. Um mundo baseado em valores e princípios de solidariedade, empatia e cuidado. Com generosidade, inovação e colaboração.

Fotografia: Angelo Dal Bo.

■ David Hertz é chef, empreendedor social e cofundador da Gastromotiva