Radis Comunicação e Saúde

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Elas foram rápidas na mudança de cenário. Foi o padre proferir a bênção final que as duas jovens travestis suspenderam a mesa que servia como altar e, com ajuda de duas freiras, esvaziaram o espaço para que se transformasse em um palco. Estamos em dezembro no Centro de Convivência e Creche Madre Regina, em Fortaleza, casa criada pelo padre Jorge Sérgio Pinto de Souza para acolher pessoas com HIV, e que mais tarde também passou a receber seus filhos, um trabalho de assistência que existe até hoje.

Naquele dezembro, eu estava ali a convite da jornalista Wânia Dummar, do jornal O Povo, apoiadora da casa e um dos nomes mais comprometidos com a defesa das pessoas com HIV na cidade, desde o primeiro momento. Era a comemoração de Natal, e eu estava ansioso para assistir ao show. Há poucos meses, havia estado no mesmo lugar e entrevistado um rapaz mais novo que eu, contaminado com o HIV. Era a primeira pessoa que eu conhecia na vida a se assumir soropositivo. Ele tinha apenas 18 anos.

Lembro do impacto da conversa. O fotógrafo voltou à redação do jornal arrasado; eu sentei para escrever como se tivesse levado uma injeção de vida. O depoimento daquele cara, que poderia ser meu amigo, me fez perceber quanta força a gente tem quando pensa não ter. O relato foi digitado na máquina de escrever freneticamente, de uma tacada só, e se converteu numa das minhas primeiras matérias a ter repercussão pública. A história do Superman contaminado com a kriptonita. Poderia ser eu; poderia ser qualquer menino ou menina da minha geração.

De volta à casa Madre Regina, à espera do show, eu nem lembro se pensava nisso, mas recordo perfeitamente da sensação que tive ao ver as duas freirinhas na plateia, hábitos nas cabeças e palmas nas mãos, a aplaudir aquela travesti magrinha, com cara de doente e roupa improvisada, que dublava “I will survive” — ou algo que transmitia a mesma mensagem. Eram tempos ainda de tratamento exclusivo com AZT, quando as pessoas com HIV lutavam com todas as forças para sobreviver e a sociedade virava o rosto e tapava os ouvidos diante de qualquer menção à doença.

Foi naquele momento que intuí que aquela luta também seria minha, por razões profissionais e pessoais. Em primeiro lugar, a comunicação que se fazia não era boa. O tom de risco e de ameaça era a tônica da cobertura jornalística; as estratégias de prevenção abusavam dos clichês punitivos e solidificavam o preconceito contra os grupos atingidos pela doença, até hoje estigmatizados. Havia também o fato de a aids ser um inimigo pessoal e geracional: eu mesmo, meus amigos, estávamos todos sob ameaça. Não tinha como ignorar o meu papel diante de tantos ataques diretos e indiretos a minha existência.

Ao mesmo tempo, quanto mais convivia com ativistas, profissionais e pessoas que viviam e/ou lidavam com o HIV, mais eu sentia crescer o sentimento de pertencer e participar de algo maior, uma causa que realmente me mobilizava. O HIV me tirou muitas amizades, mas me apresentou inúmeras outras. A aids foi responsável por muitas perdas, mas me possibilitou aprender o real significado e a força de solidariedade, de resistência e de mobilização.

Vinte e cinco anos depois, quando estão em ameaça no Brasil as conquistas decorrentes destes anos de luta e são desarticuladas as políticas que proporcionam saúde e dignidade às pessoas que vivem com o HIV, fui convidado pela International Aids Society (IAS) a ir ao México cobrir a 11ª Conferência de Ciência em HIV [a cobertura da conferência você acompanha nas próximas edições da Radis]. Em quatro dias, cientistas, ativistas, profissionais e jornalistas reunidos em torno de avanços e desafios.

A sofisticação das terapias antirretrovirais, com estudos que possibilitam a diminuição do número de medicamentos e a oferta de tratamentos injetáveis ou por meio de implantes, que visam o conforto de quem vive com HIV; a esperança apontada pelos testes de uma vacina preventiva em humanos e a comprovação da eficácia e da eficiência da Profilaxia Pré-Exposição (PreP) como prevenção; o consenso científico de que as pessoas em tratamento regular, cuja carga viral é indetectável, não transmitem o HIV.

Apesar disso, infelizmente ainda assistimos à propagação do vírus entre jovens, mulheres e pessoas transgênero, às constantes violações de direitos humanos em diversos países, que estigmatizam pessoas e comportamentos; à falta de interesse político em adotar inovações e estratégias que diminuiriam os riscos de contaminação de novas pessoas, dariam mais conforto a quem já vive com o HIV e evitariam a morte de tantas pessoas em todo mundo.

Felizmente, a linha de resistência continua firme. De volta a ela, como jornalista e ativista, reafirmo e atualizo o meu compromisso com a comunicação a serviço da cidadania. Se construímos alicerces e conhecimento que garantem longevidade e qualidade de vida para todas as pessoas e temos hoje o auxílio das novas tecnologias para avançar na proteção de todos, é dever do comunicador comprometer-se na construção de um futuro onde a saúde se estabeleça — como direito e como realidade.

Adriano de LAvor é editor da Radis, selecionado para cobrir a 10ª Conferência de HIV em Ciência por meio do Media Scholarship Programme, da International Aids Society (IAS)