Radis Comunicação e Saúde

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Um pai saiu com o seu bebê de 1 ano e nove meses e passou por uma situação de aperto no Rio de Janeiro. Não foi porque a fralda vazou. Acontece que, prevenido, o pai foi trocar a fralda do menino, e o único lugar possível para ele era a pia do banheiro do restaurante no bairro da Urca. O gerente, no lugar de tentar ajudar ou improvisar um trocador, disparou: “Cadê a mãe dele?”

Ao ler essa notícia recente no jornal carioca, pensei: “Que bom que isso é notícia, e agora causa espanto”. Fiquei especialmente feliz porque esse pai se sentiu ofendido pela pergunta do gerente. Faz tempo que eu, mãe de menina, sinto falta de mais “banheiros família” e tenho certeza de que um simples trocador dentro de um banheiro masculino facilita a vida de todos, esteja ou não a mãe por perto. “Por que um pai não pode levar uma filha menina ao banheiro?”, questionei sempre.

A notícia no jornal me deixou esperançosa. É sinal de que a questão por trás do incidente está sendo desnaturalizada. E qual é a questão, afinal? O gesto do gerente revela um pensamento normatizado de que o cuidado com as crianças — e não só com as crianças, mas o cuidado em si, a dedicação a outro ser humano, e todas as tarefas que o envolvem — é um atributo feminino. Como tal, além de “não ser coisa para homem”, ainda seria automático e praticamente inato às mulheres, que teriam esse “dom” e função social. E, por isso, na pergunta do gerente, atônito, “mãe” vira uma espécie de palavra mágica, que resolve todos os problemas, e exime os homens de enfrentarem atividades de cuidados básicos que não são reconhecidas como trabalho na nossa sociedade.

Esse pensamento difundido e generalizado tem suas razões históricas. Antes mesmo de falar das causas, vamos falar da principal consequência, que são os diferentes graus de abandono paterno. Uma das consequências da noção de que seria papel da mulher a criação dos filhos é a autoexclusão do homem. O Brasil tem 67 milhões de mães, de acordo com pesquisa do Instituto Data Popular divulgada em 2015 (ou seja, agora somos mais). Dessas, 31% são solteiras e 46% trabalham fora de casa. Com as novas conformações de famílias, gostaria muito de poder dizer, a partir desse dado, que isso não representaria ausência paterna em muitos dos casos nem falta de ter com quem dividir a criação dos filhos.

Com certeza, estado civil não deveria ter relação nenhuma com presença afetiva e nem com pôr a “mão na massa” com as crianças. Mas aí a gente esbarra no dado de que mais de 5 milhões de crianças em idade escolar não têm sequer o nome do pai na certidão de nascimento e essa esperança cai por terra novamente. E a gente tropeça mais uma vez na realidade, quando muitas mulheres casadas também se sentem sobrecarregadas e se queixam de que o marido “não ajuda”. E ainda outra vez quando a dificuldade de conseguir uma vaga em uma creche pública obriga a mulher (e raramente ou nunca o homem) a deixar de trabalhar fora, atrapalhando planos de carreira e prejudicando sua autonomia financeira. São tantos tropeços e até tombos nas informações e observações da vida que nos damos conta de quanto trabalho há pela frente na desconstrução desses fortes mitos de que a criação dos filhos é tarefa exclusiva da mulher.

Por isso fiquei tão feliz ao ler o cuidadoso texto do colega Luiz Felipe Stevanim sobre os homens que estão despertando para exercer a paternidade efetivamente, e até reinventá-la. Na comunicação, observo que autores de blogs e canais do YouTube, por exemplo, vêm mostrando que há uma tensão entre os papéis tradicionais e os desejos dos novos pais e mães que querem um novo modelo de cuidado mais igualitário. A mulher que se torna mãe continua reivindicando funções no espaço público, tempo para lazer, relações afetivo-sexuais equitativas, embora ainda enfrente preconceito e seja vista muitas vezes como “desnaturada”.

A professora francesa Ilana Löwy, do Instituto Nacional de Saúde e de Pesquisa Médica de Paris, menciona que esse discurso do “papel natural da mãe” é historicizado e, portanto, passível de questionamento e de transformação. A bióloga, historiadora das ciências e feminista explica que, desde o século 18, na Europa, e com um grande aprofundamento no século 19, surgiu uma nova sentimentalidade da vida doméstica e da vida familiar. A tarefa de mãe tornou-se o objetivo principal das mulheres na vida.

Nos nossos dias, as questões de gênero aparecem e perpassam muitas discussões do cotidiano, e os pais, mães e cuidadores não passam incólumes por essa discussão. Nem as crianças. Outro dia, minha filha, Leila, de oito anos, chegou da escola chorando: “Sou candidata a representante de turma mas não vou ser eleita”. “Por que não?”, perguntei. “Os meninos só votam nos meninos”, respondeu ela, inconsolável. Mas isso já é assunto para outro texto.

■ * Elisa Batalha é repórter da Radis e mãe de Leila, de 8 anos