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Cebes resgata memória desde a criação para se atualizar na defesa dos direitos sociais

O Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), uma das referências na área de saúde pública no país, fez 40 anos em 2016 e, para celebrar a data, realizou uma série de entrevistas com parceiros, amigos, acadêmicos, intelectuais, parlamentares, militantes e lideranças de movimentos sociais para falar de suas experiências e relatar a luta pela reforma sanitária. As gravações em vídeo podem ser vistas no site http://40anos.cebes.org.br/ e, agora, estão reunidas em livro. Previsto para ser lançado, no início de maio, no 3º Congresso Brasileiro de Política, Planejamento e Gestão em Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Cebes 40 Anos: memória do futuro tece uma linha até os dias atuais.

Organizado por Ana Tereza da Silva Pereira Camargo, Ana Maria Costa, Lenaura de Vasconcelos Costa Lobato e Daniela Carvalho Sophia, a publicação é um passeio que, página após página, revela a história da entidade. Os entrevistados tratam do papel da revista Saúde e Debate, dos posicionamentos políticos assumidos em favor dos direitos, da luta travada pelos núcleos locais Brasil afora e da atualidade da questão democrática da saúde em um momento de “danação dos direitos sociais e a saúde”. E são vozes de quem viveu a construção da entidade que contam essa trajetória. “As histórias orais, nos depoimentos antigos e atuais, passando por personagens que não se encontram mais presentes entre nós, nos emocionaram, e nos transportaram para uma viagem ao passado, onde nos foi possível aprender com eles”, relatam as organizadoras.

Cornelis Johannes van Stralen, presidente da entidade, diz que o objetivo foi “olhar para trás a fim de caminhar de forma mais segura para a frente”. Ao apresentar o livro, ele avalia que a narrativa privilegia o atual momento de negação à saúde. A primeira parte, Anos de Viagem: Cebes 40 anos, é um memorial que traz a voz de todos os ex-presidentes da entidade. “Aqui podemos ver o quanto o Cebes é ressignificado em cada momento, como em sua refundação [2005]”. A segunda parte trata da revista Saúde em Debate, considerada como o “principal instrumental do Cebes”, e seu posicionamento como centro de estudos. “Durante quatro décadas a publicação se afirmou como um veículo de comunicação científica e política para o campo da saúde coletiva”, resume Cornelis.

Na terceira parte, são republicados documentos e teses que fazem referência à tomada de posição da entidade durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, nos 30 anos da entidade [2006]. De acordo com o presidente, mesmo ali “o Cebes não perdeu sua postura crítica e manteve sua autonomia perante o governo, apontando sempre que a reforma sanitária não se reduz a uma reorganização dos serviços de saúde, mas implica uma transformação social e cultural”. Por fim, a quarta parte atualiza a questão democrática da saúde por meio de entrevistas com sanitaristas ligados à entidade e inclui uma fala de Elida Graziane, procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo, uma defensora de que o financiamento dos direitos fundamentais é dever constitucional do Estado.

Segundo Cornelis, para a entidade, o conteúdo revelado pelo livro remete a uma questão central e volta-se ao papel que deve desempenhar na atualidade. “Não há dúvida de que agora são colocadas novas demandas para o Cebes e outras entidades do Movimento Sanitário. É dito que os movimentos sociais perderam os contatos mais orgânicos com as suas bases”. Para ele, frequentemente é enfatizado que esse caminho precisa ser retomado. Cornelis argumenta no texto que essa posição exige mais do que boa vontade. “É preciso ter formação e dispor de instrumentos pedagógicos. Aqui podemos visualizar a importância dos núcleos, e também para o Cebes há momentos em que os contatos com suas bases não foram suficientemente valorizados”, assume.