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A dor de perder a mãe e viver o luto em meio à pandemia de covid-19

Keila Santos recorre a fotografias e muitas lembranças das viagens e encontros em família para processar a ausência repentina da mãe, Maria José.

Chovia. Era madrugada. O edredom que cobria o corpo da mãe havia sido levado pela filha para o hospital 10 dias antes – quando a senhora de 66 anos fora internada com sintomas agudos de covid-19. Graças a esse edredom marrom com estampa floral, Keila Tamara Santos da Silva, de 44, conseguiu identificar aquela que passava coberta dos pés à cabeça, já sem vida, carregada pelos maqueiros na saída da UTI do Hospital Pronto Socorro 28 de Agosto, em Manaus. Era dona Maria José Santos da Silva, viúva, seis filhos, quatro netas – sua mãe.

Naquele dia, foi quase impossível seguir as orientações sanitárias que determinam a familiares e amigos de vítimas do novo coronavírus que evitem o contato e esperem os corpos serem liberados para enterro ou cremação por profissionais devidamente paramentados. Ali, ao lado do marido, da filha e dos irmãos, Keila via chegar ao fim um pesadelo que já durava 23 dias, desde que dona Maria José teve febre e começou a se queixar de dores no corpo. Tinha início, então, uma nova via-crúcis: a agonia do luto sem rituais, a tristeza da despedida sem despedida. Um mês depois da partida de sua mãe, Keila ainda está processando tudo o que viveu.

A entrevista por telefone com Radis estava prevista para as 16 horas do dia 8 de junho. Pouco antes, decidimos remarcar. A data coincidia com o trigésimo dia de morte da mãe e, apesar de estarem cumprindo todas as regras do isolamento social, Keila e os irmãos haviam combinado um momento juntos. Precisavam se fortalecer. Quando finalmente conversou com a reportagem, ela parecia serena. “Falar sobre isso vai ser como um desabafo”, disse. “Essa doença é uma incógnita. Já atingiu milhões de pessoas e, infelizmente, ainda vai levar muita gente. Aconteceu conosco e foi real”.

Keila conta que a mãe era diabética e hipertensa. Que no ano passado havia se submetido a um cateterismo. Que, ainda em 2019, chegou a ser medicada para uma pneumonia. Mas também acrescenta: que dona Maria José era uma senhora ativa, uma dona de casa cheia de vida; que gostava de estrada, adorava viajar e não dispensava os almoços em família; e que vivia momentos felizes, apesar das comorbidades e da saudade do esposo que morreu há exatos seis anos, depois de um bom casamento que durou quatro décadas. “A saúde estava sob controle. Nunca imaginamos que tudo poderia virar assim e que a covid iria nos atingir em cheio”.

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Dona Maria José e Keila: mãe e filha

Até porque a família vinha tomando todos os cuidados. Dona Maria José era a primeira a considerar a gravidade da pandemia. “Ela ficava em pânico com as notícias na TV sobre os números de mortos pela doença”, diz a filha. Desde que as autoridades sanitárias começaram a falar no isolamento social, a matriarca passava os dias rigorosamente em casa, onde morava com outras duas filhas e com o caçula, que durante a quarentena habitava o andar de cima. Antes de cair doente, a mãe ainda ajudou uma das filhas que, depois de uma ida ao supermercado, passou a se sentir gripada – ela também testaria positivo para a covid. Um dia depois, foi dona Maria José quem acordou com febre e com sintomas que indicavam que ela podia ter se contaminado com o novo coronavírus. Os filhos passaram a se revezar nos cuidados com a mãe.

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Dona Maria José: seis filhos, quatro netas, momentos felizes e saúde sob controle até ser diagnosticada com a covid-19

A doença

Foram 13 dias em casa. Antes de ser internada, além do paracetamol, do chá de jambu e de outras receitas caseiras, a mãe de Keila foi medicada com azitromicina, que a família conseguiu comprar em farmácia manipulada, e hidroxicloroquina, a droga controversa cuja eficácia para casos de covid-19 carece de evidências científicas. “Mas suspendemos esse medicamento depois de dois dias. Ela reclamava de dores no estômago e tinha alucinações. Dizia que aquele remédio estava lhe matando”, recorda Keila. A família tentava controlar o quadro de dona Maria José, mas à medida que o tempo passava ficava mais evidente a necessidade de hospital. Na madrugada que antecedeu a internação, ninguém dormiu. “Foram horas de agonia, muita febre e delírio. Ela se queixava de dor na barriga, mas a gente não sabe se as dores já vinham dos pulmões. Estava ficando muito debilitada”.

A família pagou por uma consulta em um hospital da rede privada. Como dona Maria José estava com sinais vitais muito baixos, foram informados de que seria necessária a internação urgente. “O médico me disse que o valor de uma diária era 53 mil reais. Não tínhamos convênio nem condições de pagar”. Ela seria internada no 28 de Agosto, hospital de referência da rede pública, onde fez todos os exames que não pode fazer no particular. A tomografia do tórax e do crânio, o ultrassom do abdômen e o hemograma completo não deixaram dúvidas. O resultado assegurava que ela estava com o vírus ativo da covid-19 no pulmão. “Ficamos em desespero”. Começava ali a batalha por um leito de UTI. Dona Maria José aguardava no espaço conhecido como Sala Azul, reservado a pacientes em observação e com situação semelhante à sua.

Na tentativa de chegar mais perto da mãe, já que os boletins médicos disparados uma vez por dia não bastavam, Keila tentou de tudo. Em meio à aflição, contou com a solidariedade de um enfermeiro que lhe gravou um vídeo da mãe. “Isso nem é permitido, mas ele viu o meu desespero. Eu achava que minha mãe estava indo embora”. Foi um vídeo curtinho, alguns segundos que lhe trouxeram um pouco de paz. “Ela tirou a máscara e me disse: ‘Estou sendo cuidada, minha filha´”. O quadro de saúde parecia evoluir para uma melhora, mas ao final do terceiro dia de internação, as notícias que chegaram à família davam conta de que o pulmão de dona Maria José não reagia e os batimentos cardíacos estavam baixos. Ela sofria com a falta de ar e era preciso autorizar a intubação. Como seria encaminhada para uma sala de urgência, dona Maria José passaria pela família no corredor. “Por um momento, eu pude vê-la. Foi a nossa despedida”.

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A filha registrou o último momento com a mãe, no corredor do hospital. Dias depois, por meio do edredom com estampas florais, ela reconheceria o corpo de dona Maria José.

Enterro e luto

Em meados de abril, os brasileiros assistiram pelo noticiário a imagens apavorantes.  Com a explosão do número de mortos por covid-19 em Manaus, a Prefeitura começou a utilizar covas coletivas para sepultar vítimas ou casos suspeitos da doença. Para Keila, tudo aquilo era inadmissível. “Não queria ver a minha mãe jogada em uma cova como estava sendo feito. Consegui uma funerária que permitiu que a gente tivesse duas horinhas com ela na manhã seguinte”. Os seis irmãos, genros e noras, uma das netas, além da família da mãe e um casal de amigos de Keila, de máscara e afastados entre si, reuniram-se para o adeus no breve funeral. O caixão ficou fechado. Uma fotografia impressa de dona Maria José foi o mais perto que conseguiram de um ritual. “Meu marido, minha irmã e um rapaz da funerária é que carregaram o caixão. Porque está tudo proibido”. Dona Maria José foi enterrada ao lado do esposo. “Pudemos dar a ela o mínimo de dignidade. Minha mãe não foi jogada de qualquer jeito. Isso é desumano e injusto com qualquer pessoa”.

O luto vem sendo vivido um dia de cada vez. No meio dos protocolos e da burocracia e diante de sua dor particular, Keila – que é administradora e, na pandemia, perdeu o emprego como analista de compras – foi atravessada ainda por outras notícias tristes na família. O tio de Keila, irmão de sua mãe, morreu dois dias depois de dona Maria José, sucumbindo também à covid. Não bastasse isso, ela própria apresentou sintomas da doença. “Você não tem noção do tamanho desse sofrimento”. Ainda com a mãe no hospital, Keila começou a sentir dores de cabeça e falta de ar, sintomas que inicialmente atribuiu a uma sinusite ou ao estresse emocional. Quando a tosse apareceu, decidiu verificar. Exames atestaram pneumonia viral com 25% de focos ativos no pulmão. Medicada, isolou-se em um cômodo da casa, distante do esposo e da filha. Depois de 15 dias, não apresentava febre, mas continuava tossindo, vomitava e teve uma forte diarreia. Ficou internada por cinco dias e chegou a ter 50% de um pulmão comprometido. Quando Radis conversou com Keila, ela já estava bem. “A terceira tomografia mostrou grande regressão. Mas estamos acompanhando. Só estarei 100% quando todo o vírus for eliminado”.

A família segue se refazendo. Keila, a mais velha dos seis irmãos, tenta ser firme. “A gente se culpa, fica pensando se poderia ter feito algo diferente. Mas estou começando a processar de outra forma”. Busca consolo nas lembranças e nos ensinamentos de dona Maria José, valoriza as fotos, escreve sobre a mãe. “Neste momento de pandemia, tudo se torna mais difícil. Há muitos agravantes. Nem podemos nos despedir como gostaríamos”, ela conta. E se pudesse dizer algo mais aqueles que estão vivendo experiência parecida com a sua, diria: “Nunca achamos que vai acontecer com a gente. O distanciamento social é uma coisa séria. Se você puder cumprir com o isolamento, fique em casa. Faça isso por você e pelas pessoas que você ama, antes que aconteça. Porque na hora em que você tem um ente querido nessa situação, não há como ficar longe”.

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Dona Maria José segura o retrato do esposo, entre os seis filhos, no Natal do ano passado. De cabelos pretos e roupa vinho, Keila, a primogênita, foi quem nos contou a sua história.