Radis Comunicação e Saúde

Tempo de leitura: 2 - 4 minutos

Em 1949, o menino Italo Ferrero, com quase nove anos, partiu com a família da cidade de Casale Monferrato, no Norte da Itália, com destino ao Brasil. A bordo do navio Francesco Morosini também estavam outras famílias que, como a sua, vinham trabalhar na Civilt, fábrica de amianto instalada em Guadalupe, bairro da zona Norte do Rio de Janeiro. Italo cresceu em uma área vizinha à indústria, em casas construídas para os imigrantes, onde a exposição aos produtos e resíduos da fibra era constante.

Aos 14, o jovem italiano também ingressou na fábrica, primeiro como aprendiz de eletricista, depois eletricista de manutenção, num tempo em que inexistiam medidas de proteção contra o material, hoje considerado cancerígeno pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Italo permaneceu em atividade na indústria do amianto até 1963, quando a família retornou à Itália. Naquela época, nenhum deles tinha consciência que carregava, além de seus pertences, as sequelas provocadas pela aspiração constante da fibra mineral sedosa, de baixo custo e bastante volátil, ainda muito usada na fabricação de telhas, tubulações, caixas d’água, forros e pastilhas de freio.

54 anos depois de sua partida, Italo retornou ao Brasil em agosto, a convite da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), para acompanhar a sessão do STF que iria definir o banimento do amianto no país. Aos 77 anos, o italiano tinha motivos para estar presente já que carrega sequelas dos tempos em que trabalhou com amianto. Ele foi diagnosticado com placas pleurais (espessamento da membrana que envolve o pulmão, que pode se calcificar) — doença grave que diminui a capacidade respiratória e exclusiva de quem teve contato com o amianto. Italo também perdeu um cunhado — que também trabalhou na Civilt — vítima de mesotelioma, conhecido como “câncer do amianto”.

Bruno Pesce, ambientalista e sindicalista, viajou juntamente com Italo a convite da Abrea. Segundo ele, o amianto foi banido do território de Casale Monferrato, em 1987, sob pressão do sindicato local. Bruno era secretário da entidade e foi a partir dessa pressão que a Itália baniu o mineral de seu território em 1992. “O amianto estava em tudo. Com o tempo, a telha se esfarinha e a fibra fica muito volátil. Um pequeno incidente pode liberar 1 milhão de fibras”, garantiu. “Eu tenho muita satisfação em acompanhar essa luta”, observou.

Nuvem de poeira

Italo foi submetido a exames no Rio de Janeiro (7/8) para avaliar suas condições de saúde. No intervalo dos atendimentos, ele conversou com a Radis, quando relembrou, emocionado, o cotidiano desprotegido na fábrica, avaliou a repercussão da exposição para sua saúde e reafirmou a luta que trava contra o amianto até hoje. “Naquele tempo ninguém sabia que o amianto matava”, contou, descrevendo a rotina laboral de décadas. “Lembro que quando o sol entrava na janela da fábrica dava para ver uma porção de estrelinhas brilhando. Não tinha exaustão e era uma nuvem de poeira. As fibras de amianto voavam e todo mundo respirava esse pó”, relatou, confirmando que não havia qualquer orientação de segurança sobre a manipulação ou descarte do mineral.

Voltar ao Brasil não foi uma tarefa fácil, assumiu o ativista. “Eu quis muito voltar, mas nunca pude. Não consigo descrever o que sinto nesse momento. Faltam palavras”, disse, em lágrimas, enquanto aguardava o resultado de um dos exames, na Clínica da Família Victor Valla, no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro. Mais tarde, no ambulatório do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh), na Fiocruz, ele fez uma espirometria, conhecida como “teste de sopro”, para medir sua função pulmonar, e foi examinado por médicos da instituição.

Os resultados dos exames foram anexados à Ação Civil Pública (ACP) que trabalhadores movem contra a Eternit — empresa que incorporou a Civilt, em 1962 — devido à exposição ao amianto. A bandeira da Itália com os dizeres que exprimem a razão da luta – “Eternit: giustizia!” (em português, “Eternit: justiça!”) – veio na mala e indicava sua expectativa em relação ao julgamento. “Estou com esperança que vamos vencer. Iniciamos uma batalha para eliminar completamente essa desgraça que continua matando e que continuará matando muita gente. Não vamos desistir”, afirmou. (L.M.)