Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

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"E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono (Euclides da Cunha em Os Sertões)"

No sertão, nada é apenas o que parece: o solo ressequido também dá boas cacimbas; um dia nublado com um céu de chumbo, em vez de assustar, fica “bonito pra chover”; e aquela vegetação exuberante pode ser somente a “seca verde”, fenômeno que ocorre quando as chuvas são mal distribuídas — até muda a paisagem, mas não significa um bom inverno.

No sertão, um rio é mais do que um rio. O São Francisco, 2.700 quilômetros de extensão, virou mito, música, poema, novela, negócio. Com o início das obras de transposição, em 2007, teve o seu curso alterado para abastecer o semiárido nordestino. O plano polêmico, agora batizado oficialmente de Projeto de Integração do Rio São Francisco, percorre 477 quilômetros, divide opiniões, modifica a geografia e afeta a vida dos moradores da região.

Em março, o primeiro trecho da obra, que corresponde ao Eixo Leste, foi entregue com direito à dupla inauguração: uma oficial, com o presidente Michel Temer, e a outra popular, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dias depois, Radis esteve no sertão de Pernambuco, fronteira com a Paraíba. O percurso de nossa reportagem começa em Sertânia, exatamente na barragem de Campos — a maior das quatro construídas no município, a 314 quilômetros do Recife —, com os pés banhados pelo Velho Chico. É um volume d’água de encher os olhos de qualquer nordestino. Mas essa abundância tem um preço: as obras deixaram muitas marcas na população e o projeto fez crescer o interesse do agronegócio e dos setores industriais. Enquanto isso, a água, esse bem público, ainda não chegou nas torneiras. No sertão, nada é apenas o que parece.

A estrutura desta reportagem inspira-se livremente na narrativa “Os Sertões”, de Euclides da Cunha

O homem

Aqui a gente tinha paz, tinha terra pra criar os bichos e tinha seca, que eu não vou mentir. Mas também tinha a nossa água de poço.

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

No dia em que recebeu a notícia de que as obras de transposição iam cortar o seu pedaço de terra ao meio, seu Lídio Pedroza, 74 anos, ficou desanimado. Foi ali que nasceu, cresceu, casou, criou as cinco filhas, plantou aroeira, milho, coco, pitomba e os pés de algaroba, onde enterrou o umbigo dos netos porque havia a crença de que assim os pequenos se desenvolveriam com saúde. Tudo veio abaixo e mais a casa, o pasto, as poucas cabeças de gado. Para prosseguir com a obra do Eixo Leste e avançar 217 quilômetros sertão adentro, desde a barragem de Itaparica, no município de Floresta, era preciso desapropriar terras. A de seu Lídio ficava no caminho e o empreendimento, que levaria a água para a zona rural de Sertânia, passaria ali de qualquer jeito. Quisesse seu Lídio ou não.

Segundo o governo, as obras dessa etapa vão beneficiar 4,5 milhões de pessoas em 168 cidades da Paraíba e de Pernambuco. São seis estações de bombeamento, cinco aquedutos, um túnel, uma adutora e 12 reservatórios. Mas, para acontecer, enfrentou protestos de moradores, ambientalistas e diversos setores do movimento social. “Isso aqui virou às avessas. Sabe um caminhão que às vezes vem bem bonito carregado de coisas, aí vira e acaba com tudo?”, ele pergunta. “Pois assim foi com o meu sertão”. A reportagem encontrou seu Lídio na varanda, na mesma cadeira de balanço de onde assistiu, dia após dia, ao trabalho de homens e escavadeiras ali no quintal de casa. “Muitas vezes eu ia embora porque não suportava. Levaram de mim muitas lembranças”.

Não era a primeira vez que seu Lídio ouvia falar na transposição. “Meu avô já contava que o ‘Padim Ciço’ dizia que o rio ainda ia correr pra cima. E não é que tá correndo!”, brinca. Muitas outras vezes, ele já havia sido sondado sobre o assunto.

Apesar de controversa, a ideia da transposição vem desde o Império. Em 1847, motivado pela estiagem, um grupo de engenheiros chegou a propor um projeto de construção de um canal para conduzir as águas do São Francisco desde Cabrobó, em Pernambuco, até o rio Jaguaribe, no Ceará. Dom Pedro II só viria a tomar conhecimento do projeto bem mais tarde, diante de outro período de seca severa, entre 1877 e 1879. Sem recurso de engenharia suficiente, a ideia não vingou. Mas nunca saiu dos planos oficiais. Mais recentemente, Getúlio Vargas, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso tentaram. Foi com Lula que as obras começaram em agosto de 2007.

Seu Lídio ainda não quis ir até a Bacia de Campos ver a abundância de água como fez a maioria dos moradores de Sertânia. Para ele, tudo o que a transposição trouxe até agora foi sofrimento. “Eu não sei como eu não morri, viu minha filha?”. Foi morar com a filha, na cidade, voltou e passou a habitar a velha casa de taipa de seus tempos de menino que ainda hoje conserva no terreno. Só depois de um ano com depressão, dos muitos remédios para amenizar as crises de pressão alta e de uma tristeza “que não acaba até hoje”, ele começou a se refazer. Passa os dias a espera dos netos. Não planta mais. Não cria gado. “Aqui a gente tinha paz, tinha terra pra criar os bichos e tinha seca, que eu não vou mentir. Mas também tinha a nossa água de poço, cacimba, a cisterna abastecida pelo carro-pipa. Essa transposição acabou com tudo. E pra quê? Pra fazer esse riacho que entra por debaixo da terra”, diz, referindo-se ao túnel Engenheiro Giancarlo de Lins Cavalcanti, de 3 quilômetros de extensão que leva as águas até Monteiro (PB) e passa a poucos metros de sua nova casa, construída depois que as obras cessaram.

As promessas e a esperança

O rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e deságua em Piaçabuçu, em Alagoas. O projeto prevê a retirada de 1,4% das águas de sua bacia por meio de bombeamento artificial e canais para abastecer rios temporários e açudes que secam durante o período de estiagem. No total, segue um trajeto de 477 quilômetros. O Eixo Leste, inaugurado em março, faz a captação das águas em Floresta (PE) para beneficiar territórios de Pernambuco e Paraíba. Já o Eixo Norte se encarrega de captar as águas em Cabrobó (PE) e levá-las ao sertão de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte (veja mapa). Por enquanto, a Justiça suspendeu a licitação de um trecho do Eixo Norte. Mas o Governo afirma que 95% das obras dessa etapa já foram concluídas.

No Nordeste, estão 28% da população brasileira e apenas 3% da disponibilidade de água do país. Ainda de acordo com estimativas oficiais, quando concluída, a obra total deve levar segurança hídrica para 12 milhões de pessoas em 390 municípios. Se perguntam a seu Lídio se a transposição trouxe algo de positivo, ele tem a resposta na ponta da língua: “Pra mim, não”. Mas como o sertanejo é antes de tudo um poço de esperança, ele arremata: “Futuramente, quem sabe, pra meus netos e pro povo, se essa água chegar mesmo, pode até ser que sim”. Orçado inicialmente em R$ 4,5 bilhões, o projeto já custou mais que o dobro. É de responsabilidade da União, mas conta com as esferas estaduais para a realização de obras complementares.

Próximo da Estação de Bombeamento 3, em Floresta (PE), vivem os índios Pipipã, distribuídos em um território que reúne mais de 200 famílias. Para o cacique Valdemir Lisboa, não tem como suavizar. “O que aconteceu foi uma violência. As obras fizeram um rasgo, um estupro no nosso território”. O cacique esteve no Recife, em março, participando do seminário “São Francisco: Margens em tensão”, promovido pela Fiocruz Pernambuco, que reuniu povos afetados, movimentos sociais e pesquisadores. “É triste quando a gente margeia o Eixo Leste e vê o tamanho do estrago na flora, com a retirada das plantas que usamos na nossa medicina diária; na fauna, provocando o desaparecimento de animais silvestres; e acima de tudo no solo, com a remoção da terra e olhos d’água fechados, de forma criminosa, com cimento”, diz o cacique.

Barganha

À Radis, cacique Valdemir explica que, quando chegou a notícia de que um dos canais passaria em território Pipipã, veio junto “uma conversa sobre mitigação”. Algo como: “Nós vamos passar no território de vocês mas trouxemos algumas coisas pra compensar, entre elas, construção de casas, posto de saúde, telefonia, centro comunitário, áreas irrigadas para produção de alimento”. Ele considera “revoltante” que tudo aquilo que deveria ser objeto de política pública tenha sido tratado como moeda de troca ou barganha. “Parecido com o que fizeram lá atrás, em 1500”, completa.

Paralelo à obra, tramitava no Ministério Público o processo de regularização fundiária, há muito reivindicada pelos povos Pipipã. “Esse foi um dos condicionantes para a instalação da obra no território”, diz. Dez anos depois, a transposição avançou; a demarcação, não. O pesquisador da Fiocruz, André Monteiro, que desenvolveu pesquisa na região, sugere um cenário de “descuido planejado” com uma população que tanto tem expectativa com as águas quanto demandas sociais. “De um lado, há promessas não cumpridas e, de fato, um descaso a partir do que estava previsto”, analisa. “De outro, também vemos situações de abandono e uma completa ausência do Estado em assistir as populações afetadas e que tiveram inclusive a saúde comprometida”.

Maria da Saúde, da Aldeia Caraíbas, também território Pipipã, perdeu pai e mãe depois que as obras começaram. “O desmatamento foi a primeira tristeza que a transposição trouxe”, conta. “Meu pai era homem do campo, caçador, agricultor. Quando ele viu aquilo, ficou muito triste. Em seguida teve um AVC e faleceu. Nem viu a água”. A mãe de Maria morreu pouco tempo depois, perdendo a batalha para a depressão. Com as águas correndo a 3 quilômetros de casa, ela ainda não teve acesso ao benefício. “Ao contrário. Agora eles proibiram a gente de usar. Disseram que, se algum índio fosse tomar banho naquelas águas, teria que pagar 12 cestas básicas ou ia preso”. Recentemente, um adolescente de 16 anos morreu afogado. “Eles estão prometendo que vão fazer encanação pras casas, que vão dar água pra irrigação. Mas até agora nada”. O acesso ali ainda se dá por meio de carro-pipa.

A terra

Um pé na esperança e outro na briga. Não adianta a obra estar concluída e a gente ficar sem água.

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

Quando os primeiros metros cúbicos de água do São Francisco chegaram a Pernambuco e Paraíba, foi como uma corrente de esperança. Os pequenos agricultores Severino Bidoia e Suitbert Patriota, que guiaram a reportagem de Radis neste encontro com o sertão, ajudam a entender por quê. “Foi muito sofrido, mas, agora, ver essas águas, é um sonho que se tornou realidade”, diz Bidoia, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Sertânia, diante da Bacia de Campos. Já o segundo, um crítico ferrenho do projeto de transposição, teve de “engolir o orgulho” — como ele mesmo fala. Era preciso tocar nas águas do Velho Chico. “Isso aqui é demais para um nordestino”, emociona-se Suitbert. Ambos sabem que ainda têm muitas etapas pela frente até garantir que a população seja beneficiada. Com parte das obras sob a responsabilidade dos estados que estão em dificuldades financeiras, há sempre o temor de que não sejam concluídas. Uma coisa é área urbana dos municípios estar coberta pelas águas, eles explicam. Campina Grande, por exemplo, cidade de mais de 400 mil habitantes que vivia em colapso com a crise hídrica, já vem sendo abastecida com as águas que chegaram ao açude Boqueirão. Outra é a situação da zona rural.

Seu Abílio Ferreira da Silva mora em uma propriedade na divisa entre Sertânia e Monteiro, onde a água ainda não chegou nas torneiras. Familiarizado com a seca, ele dá uma verdadeira aula sobre o assunto ao receber Radis, num final de tarde, com ameaça de chuva no sertão. É que o agricultor convive com a estiagem pelo menos desde 1950, década que teve uma das secas mais ferozes da história. “A de 1992 foi terrível mas, de lá pra cá, vinha melhorando. Só que agora posso dizer: essa dos últimos cinco anos está sendo a pior de todas”, avalia, em comum acordo com os dados que atestam que o Nordeste enfrenta a maior seca em 100 anos. Desde 2012, a região tem apresentado um volume de chuvas muito abaixo da média histórica. “Nessa área aqui a gente sempre plantou mandioca. No tempo ruim, fazia o beiju de tapioca. Sempre teve a palma. A situação era difícil, mas passar fome a gente nunca passou”, conta.

É verdade que a seca castiga, é severa, inevitável. Mas seu Abílio parece fazer coro aos que afirmam que “o problema do Nordeste não é a seca, mas a cerca” (Radis 94). Para a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA-Brasil), fórum de organizações da sociedade civil, a seca como fenômeno da natureza não pode ser considerada a maior vilã dessa história. “E, sim, a concentração das terras, a concentração das águas e o domínio das forças políticas e econômicas sobre espaços de decisão”, diz Alexandre Pires, coordenador executivo da ASA-Brasil, em Pernambuco, e do Centro Sabiá. Como saída, ele defende a “convivência com o semiárido” como estratégia que pode gerar autonomia política, social e cultural e garantir a sustentabilidade da região. De acordo com Alexandre, há que se investir mais em tecnologias sociais simples e baratas como as cisternas, barragens subterrâneas, barreiros trincheiras, entre outras alternativas, fortalecer a participação da sociedade civil na gestão e execução das políticas públicas e promover processos de formação continuada da educação formal. “Sobretudo no momento em que o ‘fantasma’ da indústria da seca volta a rondar nosso território”, comenta.

Vidas menos secas

Seu Abílio foi um dos personagens do documentário “Invisíveis”, dirigido por André Monteiro como parte de uma pesquisa sobre comunidades vulneráveis e povos atingidos pela transposição. É uma das falas mais firmes e comoventes do documentário, ao contar do drama vivido durante a desapropriação de parte de suas terras para a passagem das obras. Os quase seis hectares da propriedade, cuja avaliação inicial não passava de R$ 29 mil, foram vendidos ao final por R$ 75 mil, valor dividido entre os seis filhos, 14 netos e dois bisnetos. Foi ele quem organizou a vizinhança nas negociações com os técnicos do Governo Federal. A resistência ferrenha lhe garantiu permanecer na terra, agora reduzida, onde mora com a esposa da vida inteira e ainda cria galinha, bode e vaca, sem contar os gatos e cachorros. Perdeu a vista ampla para o horizonte, característica do sertão. Agora, se olhar em frente, além de muita poeira ainda remanescente das obras, é o paredão imenso do canal que ele enxerga separando o que restou de suas terras da BR-110.

“Mas é o seguinte”, ele insiste em explicar. “Quando começou esse projeto, eu fiquei revoltado porque essa nossa área era toda agrícola e era injusto o que eles queriam pagar pela desapropriação. Mas agora me pego a pensar que isso pode trazer um benefício pra população desse Nordeste”. Seu Abílio diz que já estava desenganado de tanta promessa e agora agradece “a Deus e ao Lula” pela chegada das águas. Mas, feito São Tomé, ele só vai acreditar quando vir a água aparecer em cada residência. Com a mesma valentia que lutou pela terra, garante que vai pleitear as águas. “É um pé na esperança e outro na briga”, trata de avisar: “Não adianta a obra estar concluída e a gente ficar sem água. Ali na boca do túnel, de onde sai a água, vai ficar a céu aberto. Pois bem, se eles bancarem besteira, a gente bota um motor e puxa a água que é nosso direito. Não é possível ficar assistindo aquela água ali sem poder ter acesso”.

O sonho e o pesadelo

Naquela tarde, choveu um pouco, apenas o suficiente para deixar o dia menos quente. Perto da casa de seu Abílio, às margens da BR-110, o bar Recanto Verde está de portas abertas para quem trafega pela rodovia. Na entrada, Maria Aparecida Pereira, de 49 anos, também está à espera da água, mas sua luta ainda é para garantir indenização pela terra desapropriada. Ela conta que ofereceram R$ 13 mil pelos 3 hectares do terreno onde mantinha um parque de vaquejada, cortado ao meio pelas obras. Na sua avaliação, isso não corresponde nem mesmo a 20% do valor total. O parque era fonte de renda e sonho do filho de 22 anos. Gerava pelo menos R$ 50 mil anuais por conta das festas e eventos realizados no local, fora a quantia mensal arrecadada com a criação dos cavalos.

Foram à Justiça. Segundo Cida, como gosta de ser chamada, um perito já reconheceu que o valor de venda do terreno é bem acima do ofertado. Nas audiências com o Governo, ainda não foi oferecida uma contraproposta. “Meu filho praticamente ficou sem nada, mas o pior de tudo é que esse era o sonho dele, que desde criança queria ser domador de cavalos. Tava dando certo. Ele não trocava aquele parque por dinheiro nenhum”, lamenta. Agora, os cavalos se amontoam numa área minúscula de pouco mais de 20 metros quadrados. Durante as obras, Cida teve sua casa e o bar do qual é proprietária muito danificados. Ao olhar em volta, ainda é possível ver as marcas apesar dos reparos custeados pela empreiteira responsável: paredes rachadas, piso quebrado, o reboco no muro.

Ela apressa-se em trazer uma pedra de 2 quilos que rolou de uma das explosões durante as obras e quase colocou a parede do banheiro abaixo. Antes da reportagem deixar sua casa, Cida faz questão de acrescentar: “Mas eu não ignoro a importância da obra. Sou nordestina. Eu sei que hoje a gente ainda não tem água nas torneiras, mas amanhã pode ter. Só que a gente tem que falar do lado que contribuiu e do lado que destruiu parte de nossa vida também. E, da forma que foi feito, isso levou tudo o que meu filho mais gostava”.

A luta

Quiseram expulsar a gente à força. Mas bati o pé e não deixei que fizessem a medição do terreno do jeito que queriam.

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

A gora, são quatro apenas: uma senhora, um homem feito, duas crianças. Vivem em duas casas geminadas, na zona rural de Sertânia. E sua saga é conhecida nas redondezas como “a história do sujeito que botou os homens da obra pra correr”. Ailson dos Santos, os dois filhos e sua mãe, dona Eurídice, 85, cuidam das terras. “Quiseram expulsar a gente à força. Eu tive o maior prejuízo, perdi boa parte da minha criação de ovelha, bode e gado. Mas bati o pé e não deixei que fizessem a medição do terreno do jeito que queriam”, contou ele à Radis. Dona Eurídice, que vive ali desde que chegou da Paraíba para casar, há 50 anos, completou: “Foi à custa de muita luta. Mas teve gente aqui que perdeu tudo”. Ela sai com a reportagem pelo terreno mostrando o roçado que cultiva atrás da casa, os pés de laranja, limão, manga. Planta “de tudo um pouco”. O poço de 7.300 litros foi ela mesma que cavou. As cisternas estão cheias com a água do carro-pipa. “Toda vida eu fui da roça. Se dá uma chuvinha, eu já fico toda animada pra plantar. Nunca tomei água ruim, só da boa. Os homens quebraram uma cisterna que eu tinha, mas meus pés de manga eu não deixei cortar”.

O passeio pelas terras de Dona Eurídice e Ailson torna ainda mais oportuna a pergunta: “Para que e, principalmente, para quem foi pensado o projeto de transposição das águas do São Francisco?” Desde os primeiros anúncios, o governo federal tem assumido o discurso de que a obra vai beneficiar a população do semiárido. Mas, segundo boa parte dos setores do movimento social e pesquisadores, a transposição não está direcionada para atender as necessidades de abastecimento da população rural. Para os críticos, a megaobra é fruto da força política e econômica do agronegócio e do hidronegócio, que enxergam a água como uma inesgotável fonte de riqueza. “Estes serão os maiores beneficiados, assim como os setores industriais que, associados, têm o maior consumo da água doce disponível”, disse o coordenador da Articulação do Semiárido (ASA) em Pernambuco, Alexandre Pires.

De acordo com Alexandre, a desterritorialização de grupos populacionais, cujas terras foram indenizadas por valores abaixo do mercado, também configura um problema de natureza socioeconômica e ambiental. “Essas terras tendem a ser novos perímetros irrigados com uso de agrotóxicos e exploração da mão de obra dos trabalhadores locais”, alertou. Mas, além disso, ele apontou problemas na obra que vão desde a desconsideração de estudos oficiais que mostram a inviabilidade socioambiental do projeto até a fragilidade do rio com a contaminação por esgotos e agrotóxicos e o assoreamento pela não proteção de suas margens.

Moradora de Juazeiro da Bahia, onde fica a bacia do rio São Francisco, Dona Marina da Rocha Braga, 60 anos, considera-se uma sobrevivente quando o assunto são os projetos imponentes que prometem resolver a falta de água no Nordeste. Para ilustrar sua história, ela lembrou de uma antiga propaganda oficial publicada nas revistas à época da construção da Barragem de Sobradinho (BA), na década de 1970. Numa página, uma foto da caatinga; na seguinte, uma enorme área verde irrigada. Como slogan: “uma virada de página”. “Quando eles implantam esses projetos, querem dizer que tudo vai mudar. Mas isso é só para alguns. Porque as pessoas pobres que moram perto dos canais, quando usam a água, são chamadas de ‘ladrão de água’”, contou.

Ao lado dos atingidos, ela vem resistindo ao que chama de “grilagem” da região a cada novo projeto. Primeiro, vieram os projetos de irrigação, um atrás do outro, depois os de mineração, agora os parques eólicos que, segundo ela, apesar do discurso da energia limpa também vêm modificando o modo de vida das populações. “O povo ribeirinho vive do plantio para subsistência, da pesca, do criatório de animais e de pequenas atividades econômicas”, explicou. “Mas de tempos em tempos, eles têm que abandonar isso para dar lugar aos grandes projetos. Isso modifica as relações de trabalho, destrói a vegetação, mata a cultura e a vida dessas pessoas”.

Ela também esteve no Recife em maio, durante o seminário “São Francisco: margens em disputa”, promovido pela FiocruzPernambuco. Dona Marina integra a Articulação Popular São Francisco Vivo, que envolve mais de 100 entidades na luta contra a degradação do rio. Do alto de sua experiência, confessou a preocupação com a atual situação da bacia, que ela diz estar doente. “Nossa luta não deve se preocupar apenas com a calha ou aquele veiozinho de água que usamos, mas com toda a situação da bacia e com as formas de vida ao redor”, constatou. “Do contrário, pode ter projeto de transposição até do Tocantins, mas não vai resolver. A água não é infinita”.

“NOVO CHICO” Dona Marina vem de um lugar onde o rio é chamado carinhosamente de “Velho Chico”. Desde agosto de 2016, na página oficial da transposição na Internet, o Ministério da Integração anuncia o plano “Novo Chico”, cujo objetivo é “garantir o aumento do volume e da qualidade da água da bacia”. Entre as principais ações previstas, estão a recuperação de nascentes, o controle de processos erosivos e recuperação de áreas degradadas e a modernização da irrigação. O Governo também cita a implantação de nove Vilas Produtivas Rurais (VPR) como parte do Programa de Reassentamento de Populações. São unidades com infraestrutura de rede de água, esgoto e energia elétrica, postos médicos, escolas e área de lazer para famílias impactadas.

Mas para o professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), João Abner Guimarães Júnior, especialista em recursos hídricos, o projeto desde sua formatação é realmente uma grande obra superdimensionada e não de abastecimento humano como os governos vêm tentando fazer parecer. “Essa seca agora demonstrou que existe água para consumo humano na região. O problema é a falta de gestão, de infraestrutura de alocação, de adutoras de grande porte”, justificou em entrevista à Radis. O professor defende que, com um terço do custo da transposição, seria possível construir um grande sistema de abastecimento de água para todo o Nordeste.

Na sua opinião, há falhas técnicas graves que podem gerar uma dupla exclusão. “De um lado, os que foram desapropriados para implantação da obra; e de outro, aqueles que habitam as margens dos rios”, disse, explicando que, nos rios que estão servindo de calha para a transposição, os agricultores vão deixar de ter acesso ao aluvião, às cacimbas e aos poços como tinham antes. Autor de diversos artigos sobre o assunto, João Abner defende um modelo de desenvolvimento sustentável para o Nordeste nada parecido com a ideia apresentada pelo atual projeto. O pesquisador chamou a atenção ainda para as diferenças entre o Eixo Leste, vendido como um projeto de abastecimento humano, e o Eixo Norte – segundo ele, ainda mais complexo por se tratar de um enorme projeto de irrigação que, se não tiver o aporte de água necessário, não vai ter como funcionar.

Para todos os especialistas ouvidos por Radis, a essa altura, com as obras do Eixo Leste praticamente consumadas e as do Eixo Norte em andamento, é necessário avançar no debate sobre a gestão das águas para melhorar a operação do sistema e evitar impactos sociais ainda mais graves. “Entendemos que a transposição do São Francisco tende a produzir processos de mercantilização das águas no Brasil e gerar uma fatura em que a população mais pobre e que mais precisa é que deve pagar pelo uso”, preveniu ainda Alexandre, da ASA. Ele relatou que, embora existam mecanismos de controle social como os Comitês de Bacias Hidrográficas e marcos legais para a gestão das águas no Brasil, há um sucateamento das instâncias de participação. Para André Monteiro, da Fiocruz-Pernambuco, que em sua pesquisa constatou um processo de destituição de autonomia dos sujeitos que habitam as margens da transposição, há uma disputa muito clara de projetos em curso no semiárido. Ele defendeu a agroecologia, que nos últimos tempos vem ganhando impulso, aliada às novas tecnologias sociais e outras estratégias de mobilização e de produção do conhecimento, como um bom caminho para enfrentar a batalha.

Barragem de Campos, em Sertânia (PE), inaugurada no final de março: água ainda não chegou às torneiras. Fotografia: Eduardo de Oliveira.