Fotografias: Adriano De Lavor.

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Exposição com obras do Museu de Imagens do Inconsciente e de artistas contemporâneos homenageia Nise da Silveira

Em cartaz no Rio de Janeiro até 16 de agosto, a exposição Nise da Silveira — A revolução pelo afeto, que reúne produção do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, e obras de artistas contemporâneos, homenageia a psiquiatra alagoana que usou o afeto como força motora de seus estudos e ferramenta de trabalho, estabelece um diálogo entre arte e saúde e, ao mesmo tempo, revela importantes elementos que constituíram a Reforma Psiquiátrica brasileira.

“A exposição ora apresentada reúne histórias, pesquisas e conhecimentos que iluminam aspectos ainda pouco conhecidos de nossa psique. Num mundo abalado pela pandemia, este trabalho mostra pontes para auxiliar nos (re)encontros com a vida, como pode se ver nas obras de nossos artistas que traduziram suas experiências em formas e cores que nos emocionam pela rara beleza”, lê-se na apresentação da mostra, que desde julho também pode ser vista por meio de uma galeria virtual em 3D.

O curador Diogo Rezende dividiu a exposição física em três núcleos. Na primeira sala, que recebeu o nome de Contexto, dor e afeto, o visitante é apresentado às referências históricas e científicas com as quais teve que lidar a jovem Nise, no início do século 20, quando a racionalidade extrema da ciência recomendava tratamentos baseados em choques elétricos e encarceramento. Também estão lá representados os desafios impostos aos seus precursores, como Juliano Moreira, que enfrentou a crença da “superioridade das raças” e se recusou a endossar a relação que se estabelecia entre a mestiçagem das raças e a degeneração do povo brasileiro.

 

“Não aperto”

Mas está lá, sobretudo, o poder da resistência da psiquiatra, que enfrentou o cenário adverso de sua época e conseguiu se impor, diante do higienismo, do controle e do machismo, como uma voz pioneira e dissonante, que trouxe o afeto à terapêutica e entendeu a importância das imagens para compreensão do inconsciente. A estrutura da exposição é bem didática, contrapondo informação histórica com discussões atemporais, como os limites entre normalidade e loucura ou as fronteiras tênues entre transtorno e genialidade. Um cenário que se estrutura a partir destes e de outros contrastes: afeto e resistência, racionalidade e expressão artística, encarceramento e liberdade.

Ao primeiro olhar no meio da sala se destaca uma faixa vermelha, estendida verticalmente, onde se lê a frase “Não aperto”, uma referência à recusa da psiquiatra em pressionar o botão que acionaria o eletrochoque em um paciente, quando foi apresentada à técnica de tratamento. Em um nicho, uma cabeça de louça, dividida em setores, exemplifica a frenologia, teoria do século 19 que advogava ser possível determinar caráter e personalidade de uma pessoa pelo formato da cabeça. Nas paredes, frases de especialistas dividem espaço com fotografias, depoimentos e reproduções que estabelecem contrapontos e indicam correlações. “A loucura é resultado de uma construção social, mais do que uma verdade médica”, alerta uma frase de Foucault, em uma das paredes.

O fio condutor, no entanto, é a expressão artística, instrumento utilizado por Nise em seus estudos e no trabalho que desenvolveu ao longo da vida. Um dos totens dá destaque a Lima Barreto, escritor que flertou com a loucura e registrou em suas obras a passagem pela colônia de alienados da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Numa parede próxima, em destaque estão alguns dos “objetos relacionais”, criados pela artista plástica Lygia Clark e usados nas experiências terapêuticas do médico Lula Wanderley — um lembrete que a saúde mental também está relacionada às experiências corporais e sensoriais. Ao fundo, ouve-se o depoimento de Stella do Patrocínio, que viveu na Colônia Juliano Moreira, também no Rio, a relatar a falta de sentido da dor que vem sentindo.

Fotografia: Adriano De Lavor.

Na faixa estendida, o registro da recusa de Nise da Silveira em apertar o botão que disparava o eletrochoque em seus pacientes.

A disposição de objetos e informações constrói um ambiente sinestésico que emoldura obras de ex-pacientes de Nise e de outros artistas contemporâneos. A delicadeza do trabalho de Adelina Gomes, que escreve “Eu queria ser flor”, em um dos quadros, contrasta com o diagnóstico de sua psicose; a genialidade de Emygdio Barros, incensada pelas palavras do poeta Ferreira Gullar, traduz-se e se confunde com a esquizofrenia. “Saber ler no canto do olho de um esquizofrênico não é pra qualquer pessoa, não”, escreveu a terapeuta sobre o paciente. No canto da sala, uma projeção de luz simula a sombra das grades de um portal, como se indicasse o desejo por liberdade. Em uma fotografia, o retrato do afeto. Nise posa de braços dados com o interno Jarbas, que sempre a acompanhava nas festas. Nas mãos, ela carrega uma rosa.

A exposição segue por um corredor onde estão as memórias biográficas da psiquiatra. A foto que a mostra como a única mulher formada na turma de medicina, lembranças de Mário, seu marido, e da casa em que viveram na rua do Curvelo, no bairro carioca de Santa Tereza. As amizades, a militância política e as reflexões e amizades feitas no cárcere, quando foi presa pela Ditadura Vargas. Neste e em outro momento, a exposição insere a relação de Nise com intelectuais e artistas de sua época: Manuel Bandeira, Olga Prestes, Graciliano Ramos.

Fotografia: Adriano De Lavor.

A exposição mescla obras de ex-pacientes de Nise, que estão no Museu das Imagens do Inconsciente, com objetos que pertenceram à psiquiatra.

Do engenho ao inconsciente

No cômodo seguinte, o Atelier de Nise aproxima o visitante de seu cotidiano. A mesa de trabalho, os livros que leu e os que escreveu, sua defesa pela terapêutica ocupacional, objetos, experiências, e sua paixão pelos gatos. Tudo entremeado pela arte. Neste espaço, destaca-se o trabalho de Albertina Borges D’Rocha, que depois de muitas passagens pelo Museu das Imagens do Inconsciente, encontrou-se na escrita de um livro autobiográfico, e a crítica feita por ela à forma como foram tratados os ex-pacientes que participaram da Bienal de São Paulo.

O último núcleo da exposição usa a metáfora do Engenho de Dentro como o inconsciente, explica o curador. Na primeira sala, ao centro, uma videoinstalação projeta, numa tela circular, algo que sugere a movimentação da mente humana. Nas paredes, a aproximação e algumas correspondências com Carl Gustav Jung, de quem Nise foi aluna, explicações e alegorias apresentam arquétipos, contos de fada, mitos e mandalas. Numa das paredes, a fotoperformance Alice e o chá através do espelho, realizada num lixão de Belém, pelo artista Rafael Bqueer, traz um toque de surrealidade ao ambiente. Na sala seguinte, um grande mapa do bairro do Engenho de Dentro divide espaço com belas fotos do projeto Na lona, de Rogério Reis, e do antológico desfile da Escola de Samba Beija Flor, em 1989: “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”.

Ao fim, fica-se com a sensação de que as 100 obras, 90 delas pertencentes ao acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, fundado em 1952 por Nise, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, são apenas a ponta do iceberg da obra magistral de uma das mais importantes vozes da Reforma Psiquiátrica brasileira, mas que cumprem o importante papel de retratar e reafirmar a natureza terapêutica e curativa da arte, bem como a importância do afeto na construção das relações humanas. Em cada pincelada, em cada objeto e em cada fotografia, o afeto está lá. E por meio dele, Nise vive.

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